Que cerveja é essa? Leffe Blonde

Em nosso bate-papo sobre o estilo Tripel, falamos sobre a antiga classificação Enkel, que eram as categorias de base entre as belgas de abadia – que futuramente se chamariam Blonde.

Mas ser uma cerveja de entrada, ou mais suave, de forma alguma as privam de ter personalidade.

Muitas vezes os mosteiros, que as ordens religiosas que as produziam, retinham boa parte da produção para consumo interno.

Não sei se o confrade sabia, mas cerveja durante a Idade Média já foi consumida do que água.

Claro que a justificativa era sanitária, já que a água do Medievo europeu não era lá a coisa mais higiênica do mundo.

Mas isso também mostra que arrumar uma boa desculpa para beber cerveja já era um hábito de séculos atrás.

E para falar desta união entre tradição e autenticidade das Blondes belgas, nossa conversa de hoje é sobre a Leffe Blonde, uma cerveja que mantém sua receita há mais de sete séculos e ainda cai no gosto do mundo inteiro.

Abbaye de Leffe
Receita com quase 800 anos é feita na Abadia de Notre Dame de Leffe, no sul da Bélgica

Resistindo às provações

Ao ano de 1152, na província de Namur, no sul da Bélgica, às margens do Rio Meuse, era fundada a Abadia de Notre Dame de Leffe.

Mas foi somente depois de quase um século que chegaram os primeiros monges da Ordem Premonstrantense, então consagrados pelos savoir-faire da produção cervejeira.

Utilizando insumos localizados ao entorno da abadia, os premonstrantenses conseguiram chegar, dentre outras receitas, a uma dourada, aromática e encorpada Blonde – um primor de qualidade, graças ao rígido ritual de brassagem que era a marca registrada da Ordem.

Para você ter ideia de como a receita era abençoada, confrade, ela resistiu à enchente que atingiu a Abadia de Leffe em 1460; um incêndio em 1466; desgaste da estrutura por tropas inimigas em 1735; e à migração dos monges decorrente de consequências da Revolução Francesa ao final do século XVIII.

Em 1809 a produção minguou até ser descontinuada.

Apenas em 1902 os clérigos retornaram à Abadia.

E 50 anos depois, num consórcio inédito entre uma cervejaria comercial e uma ordem monástica, o monge Abbot Nys e o cervejeiro Albert Lootvoet iniciaram a produção em maior escala; e, finalmente, em 1987, a Interbrew (depois, InBev) comprou a cervejaria, assumindo-se uma cerveja industrial – O que tornaria a Leffe Blonde uma maravilha a ser apreciada em todo o planeta.

Loira belga

A receita de quase 800 anos apresenta uma belíssima coloração âmbar-dourada, e de aroma e sabor relativamente adocicados – banana, baunilha, cravo-da-Índia e laranjas.

A icônica espuma das cervejas belgas faz-se presente também nessa, como falamos anteriormente, simples e autêntica cerveja.

Seu final se torna um pouquinho mais seco e amargo, o que confere à Leffe Blonde uma certa complexidade. Mas é só de leve, confrade.

Notas

Eu acredito que fazer a escada Blonde – Dubbel – Tripel – Quadrupel seja uma sequência mais orgânica, por assim dizer, para ir desbravando os níveis de complexidade dos estilos belgas de abadia.

Sendo assim, confrade: seja bem-vindo à tradição secular de beber santas cervejas!

Ein prosit!

Já conhece a Leffe Blonde? Ficou com vontade de conhecer, ou provou depois de ler nossa coluna? Tem dicas de lugares para encontrá-la, ou de alguma harmonização interessante? Não deixe de postar seu comentário neste nosso espaço de divulgação da cultura cervejeira.

E então, Que cerveja é essa?

Nome: Leffe Blonde

Cervejaria: Abbaye de Leffe (braço da atual InBev)

País de origem: Bélgica

Estilo: Belgian Blond Ale

Álcool: 6,6% ABV

Harmonização: Massas com molho pomodoro, acarajé, queijo Minas.

Temperatura ideal: 5 – 7 °C

Copo: Tulipa, taça ou cálice

Média de preço: R$ 10 – 15 (Garrafa de 330 ml)

Onde encontrar: em supermercados e delicatessen.

Gostou dela? Recomendo Chimay Doreé (Gold), St. Feuillien Blonde e La Trappe Blond

Sommelier de Cervejas e Técnico Cervejeiro [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Marcus Vinicius Pereira Campos 27 de agosto de 2016 13:34

    Parabéns pelo texto! Muito bom mesmo!!

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