Areia e asfalto

Numa tarde em que o sol se espreguiçava tímido e sem brilho, depois de uma noite e uma manhã chuvosa, ela saiu sentindo uma forte inclinação pelas coisas tristes. Da janela do carro viu uma árvore coberta de flores, mas sentiu pena da árvore. Tão deslocada! No meio da cidade, a árvore bebia fumaça e as flores no chão pareciam choradas. Eram amarelas. Seguiu viagem. Fixava os olhos no nada e em qualquer coisa. Observou quando um velho caminhão de areia passou e num sopapo que deu, derramou três punhadinhos de areia. O sinal fechou e ela olhou o chão e se sentiu enternecida.

Percebeu-se tomada por uma imensa tristeza. Aquela areia derramada parecia migalhas de mar caídas. E pensou: como deve ser triste ser asfalto. Tal qual um jazigo que pertence a um ente querido perdido há muito tempo, quando é dia de finados. Para ela, o asfalto ficou menos triste com as flores de areia que ganhou do mar. E sentiu agonia em ser asfalto e achou que ele, se pudesse, choraria de inveja da areia da praia. Asfalto de chão morto e cinza, impermeável, não respira a chuva. Asfalto de terra amordaçada, muda, infértil, judiada pelos pés calçados, saltos, botas, pneus.

A areia, branca, é namorada do mar, amante do vento, sempre agraciada por alguém. Para ela, pés descalços, mãos, baldinhos, a alegria dos cachorros na efêmera liberdade de uma manhã de domingo. Como é triste ser asfalto! Em pequena euforia, ela cutucou a menina que sentada ao seu lado, cochilava: “Olha, ali no asfalto, um poema esparramado de areia.” A menina não viu nada, olhou-a com desdém e voltou a fechar os olhos. Não sabia enxergar além da areia. A agonia sentida de se pensar asfalto a deixou melancólica, melancálida.

Parou em uma praça e, sentada num banco de cimento, frio e um pouco lodoso, observou um casal de rolinhas pousadas no chão. Achava lindos os pássaros, mas ao tentar se aproximar, as rolinhas voaram.

 

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