Sobre Uma Carta para Elia

Nestes tempos de grandes narrativas, blockbusters e sem muito espaço para pequenos filmes, foi um achado descobrir Uma Carta para Elia escondido nos extras dos boxs da Coleção Filme Noir (DVD), cujo volume 6 a Versátil Home Video acabou de lançar no mercado. Uma Carta para Elia é um documentário dirigido por Martin Scorsese em parceria com Kent Jones sobre a trajetória do diretor Elia Kazan – realizador de pelo menos cinco obras-primas do cinema e um dos cineastas chave de Hollywood, do sistema de estúdio e do que também aconteceu em suas frestas. Esse documentário se debruça sobre a trajetória de Kazan, a partir do seu percurso histórico da Turquia (ainda Império Otomano) aos EUA, quando migrou no início do século XX e lá (re)construiu sua vida como homem do teatro e, depois, sobretudo como homem de cinema. Uma Carta para Elia tem suas lentes principalmente sobre os filmes realizados por Elia Kazan e, especialmente, naqueles que Scorsese elege como os que foram cruciais para a sua formação como indivíduo e como o cineasta que se tornou. Vida e arte entrecruzam-se num só corpo na história de ambos.

“Que tipo de pessoa um diretor de cinema deve ser”? Essa pergunta surge logo na abertura e é repetida mais de uma vez. Mas Laços Humanos (1945) foi a primeira resposta de Kazan, cuja obra foi determinante para que Martin Scorsese começasse sua carreira no final da década de 60 como um dos expoentes da Nova Hollywood. Como todos nós sabemos, Scorsese tem sua filmografia marcadamente assentada no território do cinema de ficção. É a partir dos seus filmes ficcionais que o conhecemos e identificamos como diretor de cinema. Táxi Drive (1976), Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988), Os Bons Companheiros (1990), O Aviador (2004), Ilha do Medo (2010) e outros… podem integrar facilmente qualquer lista dos melhores já realizados. Mas, desde o documentário The Last Waltz (1978), quando registrou o último concerto da The Band em meados da década de 70, Martin Scorsese vem criando, paralelo aos seus filmes de ficção, obras no campo do cinema documental cuja importância pode ser identificada, ainda que tenha permanecido num território de maior invisibilidade e menor reconhecimento.

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Em um espectro mais contextual e comparativo, diferentemente de The Last Waltz e No Direction Home (2005), Uma Carta para Elia adota o mesmo formato já experimentado por Martin Scorsese no documentário Minha Viagem Pessoal pelo Cinema Americano (1995), que foi realizado na década de 90 sobre a história do cinema americano a partir dos seus diretores, gêneros e tendências – sobretudo pensando o campo do alinhamento e contraposição ao sistema de estúdio / clássico. Da mesma forma que neste último, Uma Carta para Elia tem Scorsese de corpo e alma como apresentador. Diante da câmera, ele comenta e analisa recortes meticulosamente selecionados de filmes de Elia Kazan: Laços Humanos, Terra de um Sonho Distante (1963), Vidas Amargas (1955), Sindicato de Ladrões (1954), Uma Rua Chamada Pecado (1951) e outros. A seleção dos filmes, se comparada ao documentário anterior, não é pautada por obras clássicas ou por filmes que furaram o bloqueio do cinema mainstream hollywoodiano. Atende, eminentemente, a um critério pessoal, vinculado à obra de um diretor que impactou a trajetória de Martin Scorsese como cineasta e como pessoa.

A seleção dos filmes em Uma Carta para Elia obedece a outros critérios de ordem mais íntima. Tem um grau maior de intensidade na identidade com personagens kazanianos (a natureza dos irmãos e a relação com o pai em Vidas Amargas) e com os elementos “ficticios” de cenário (o crucifixo e pinturas nas paredes nos cômodos do apartamento em Uma Rua Chamada Pecado). É impactante quando Scorsese analisa Vidas Amargas, com James Dean como outsider numa família marcada pelo peso da mão do pai e tendo como contraponto a mãe e o irmão. Scorsese entra com todo o sentimento em suas imagens que nos coloca naquele mundo em scope… e nos mostra que, assim como no cinema, a realidade não pode ser reduzida entre o bem e mal. São aspectos como esses, sob o olhar atento de Scorsese, que tornam essa viagem sobre o cinema de Elia Kazan mais pessoal, intima e particular do que mesmo o documentário sobre a Historia do Cinema Americano: mais cerebral e racional, com as classificações e categorizações quase beirando o academicismo. Já neste Uma Carta para Elia, Martin Scorsese se entrega de corpo e alma e deixa transparentes seus afetos e emoções. Essa dimensão afetiva fica evidente como em passagens como a que Scorsese analisa em Sindicato de Ladrões.

elia-e-brandonCom Marlon Brando em quadro, posicionando-se ao lado de outros três homens escorados na porta de um bar, Martin Scorsese comenta a natureza das imagens de Sindicato de Ladrões como se estivesse olhando para um espelho. Naquela altura em que se refugiava nos pequenos cinemas de Nova York, não olhava técnicas ou maestria. Mas tão somente o que era real e verdadeiro e que se assemelhava à vida do seu bairro captado pelas lentes de Kazan. A identificação com a realidade da poética cinematográfica de Elia Kazan era tanta que Martin Scorsese analisa que chegava a esquecer da câmera. Entre outras palavras, que à sua frente não havia um filme, mas uma história e personagens que podia facilmente reconhecer entre os seus. Talvez por isso, ao contrário de em No Direction Home, em que refaz o mito Bob Dylan em sua primeira fase, Scorsese não tenha sido tão impiedoso com o seu herói como fora com o garoto do meio-oeste americano que se tornou o porta-voz de toda uma época depois de perambular pelos cafés do Greenwich Village. Nem mesmo uma filigrana do “Judas!”, que ouvimos ao final de No Direction Home, percebe-se em Uma Carta para Elia.

Neste documentário, Martin Scorsese está tomado por uma espécie de gratidão cinéfila, embebido pelo o que o cinema de Kazan fez à sua vida e, de certo modo, lhe deu em termos de parâmetros para ler a realidade e depois ser ele próprio construtor de outras realidades. Em Uma Carta para Elia, Scorsese faz portanto um documentário de devoção, uma cinebiografia mais clássica, condescendente, sem omitir, é verdade, o episódio da delação de Kazan nos comitês macartistas. Mas em nenhum momento sem colocar em crise o seu herói. Por mais que em determinadas passagens tente analisar os filmes mais friamente, buscando a simbologia do corredor e a identificação com James Dean em Vidas Amargas, sua gratidão ao cinema de Kazan se sobrepõe como homenagem a tudo o que ele representou e como celebração a uma obra que precisa ser conhecida, (re)vista e estudada. Realizado para a série de TV American Masters, Uma Carta para Elia é como uma espécie de refúgio para Martin Scorsese. Apesar de dirigido em conjunto com Kent Jones, paradoxalmente, podemos apontar esse documentário como o seu filme mais pessoal.

Template (Page 1)Em tempos de blockbusters de um sistema que o próprio Scorsese faz parte e o alimenta, o diretor de O Lobo de Wall Street (2013) permite-se aqui a vôos mais contidos, com a câmera produzindo múltiplos registros. Se a originalidade de The Last Waltz está em documentar o evento único, testemunhando a última apresentação de uma banda já lendária do rock, Uma Carta para Elia, ao mesmo tempo que tem seu foco em personagens que se refletem (Kazan / Scorsese), tem a capacidade de criar todo um ecossistema de fatos sem perder o foco: a imigração e a América como terra da promissão, a politica e a arte em conflito, Elia Kazan e o seu cinema e, sobretudo, Scorsese e como esse cinema o afetou. Tudo emoldurado pelas melhores “análises de filmes” ja vista, tendo à frente Scorsese e como objeto, os filmes de Kazan. Para estruturá-lo, recortes da obra e entrevista com Kazan, Scorsese como fio condutor narrativo, narrador off no entorno do registro, fotos de cena, pessoais e da História do Cinema. Mas, a despeito de qualquer racionalização analítica, Uma Carta para Elia é antes de tudo um pequeno e belo canto de reconhecimento e rememoração através do cinema… que se prolonga depois do último plano.

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