Chinelo, pedra e chão

um homem contempla com seus olhos, a vastidão de tudo que percorreu e revelou. ele sabe que nunca deixará de visitar seus espaços, quintais por onde sua alma peregrinou. um homem, assim, dança como um vulto, um incorrigível susto. cada instante desse homem é como se fosse um plantio de alardeio, por onde seus segredos, suspiram como uma eterna barca, buscando seus espantos e silêncios.

um homem, ultrapassa sua cabine de paisagens e fogueiras, tanto que ele percorreu seus bosques, florestas, ilhas, campos e selvas como um homem nunca visto, esperando pelo endeusamento do seu descanso. um homem resguarda como uma criança seus atropelos e saltos. seus implacáveis olhares e sorrisos. um homem, frutifica com um atalho, o que seu coração intrépido, repete como uma teimosia inesgotável.

cada momento desse homem, é como se fosse uma peregrinação pelos seus labirintos e varandas, tudo assim como um dia chuvoso e penetrante. um homem, se recolhe e horrendamente chora. esse homem, sem pressa, olha tudo mais uma vez. pois seu respiro é de profunda afirmação por tudo que ao longo do tempo se manifestará. esse homem sabe que as cordilheiras do seu tempo, estão praticamente nuas. esse homem, desaba a correr, revisita filhos e conhecidos. desconhecidos e seus animais tão repletos de afetos. ele descobre, que suas mãos são como lâminas, abocanhando o rosto das imagens que no cortejo das suas pupilas se agigantam.

esse homem, é como o testemunho de um vento, e de tudo que essa forte fonte acompanhou como um farol; dessas tempestades que aconteceram quando pelo noite seus sentimentos chamuscaram de luzes. tanto que esse homem infinitamente sonhou… tanto que ele deu seu corpo poético ao que se chamou liberdade.

tudo tão intrepidamente corrosivo e testemunha dos seus dentes e ouvidos. Ferreira Gullar foi um benedito, atravessando artérias urbanas e o canto do pássaro habitante da sua infância. esse e desse homem, como um quintal que alimentou seus lábios e janelas, seus infinitos novelos verbais. solto, ele se equilibrava, sorrindo para seu espelho e desfecho. como um impávido poeta. possuído de pedras, árvores, ar, saliva, sangue, atabaques d’alma.

foi tanto Gullar, como Ferreira, que pelo caminho, descobriu uma enorme laje, brilhante verbo da sua vigília, existência exuberante, como o caminhar de uma formiga procurando pela sua asa e pão. pois poeta é todo aquele, que, aberto seu peito, grita. espalha como um rastro, a via escondida no verbo que põe novamente na cidade, seus braços e brasas. e se joga, como um armistício de luzes e clarões.

Poeta vive da poeira do tempo. Ele se lambuza de paisagens e silêncios. Fabrica sua própria urdidura. Metamorfoseando-se na nomenclatura da rua. Poesia só serve se servida for sangue. De Natal. Sou de Natal, sentindo a agonia do mundo. Poesia aqui eu estou. Que venha e me leve para outro lugar fora da pasárgada. Fui. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Carlos Gurgel 5 de dezembro de 2016 8:40

    devo uma palavra à Tácito Costa, um irrepreensível timoneiro da tripulação desse Substantivo: obrigado amigo!

    Cgurgel

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo