9 argumentos para você acreditar na importância do Ministério da Cultura

1. A pasta do Ministério da Cultura (MinC) tinha uma das menores verbas de investimento do nosso governo, e duvido muito que essa economia traga um impacto real na resolução de problemas de Saúde, Segurança e principalmente Educação, que é o ministério que “dividiremos”. Quando se contabiliza o custo benefício, que explico no próximo item, então, chega a ser uma atitude estúpida pra quem quer sair da crise.

2. O investimento em cultura é um dos poucos que tem retorno financeiro e empregatício imediato e direto. Todos os projetos culturais realizados geram milhares de empregos diretos e indiretos, os artistas e produtores culturais (que muitos ficam ‘mandando trabalhar agora que acabou a mamata’(sic)) são apenas uma parte dessa infinidade de profissionais envolvidos. Quer que cite alguns profissionais diretos? Câmeras, fotógrafos, diretores, cenógrafo, revisores, designer, técnicos de som, eletricistas, maquinários, maquiadores, figurinistas, pessoal da limpeza, catering, motoristas, seguranças, editores, etc.

3. Os projetos culturais também fazem a economia girar e rendem milhões de impostos que voltam para os governos federal, estadual e municipal. Não sabe como? Além de todo o montante que é movimentado diretamente com os fornecedores e equipe do projeto, tem por exemplo o consumidor final, a pessoa que sai de casa pra participar e assim consome gasolina, ou paga táxi, ou pega ônibus, para lanchar depois do show, ou vai num restaurante antes da peça, ela compra uma roupa bacana para ir no estilo, vai no salão ficar bonito, se for de outra cidade ainda tem hospedagem e passagens, os artistas ensaiam, produzem merchandising, compram maquiagem, compram figurino. Quando um filme vai pro cinema tem vários outros beneficiados: o shopping e suas lojas, o cara que vende pipoca, o bilheteiro, o cara que faz os brindes, os distribuidores… enfim.

4. E ainda tem o bem mais importante, imensurável, que é a formação crítica e menos rasa de uma sociedade com o acesso às diversas formas de pensamento. O arbítrio só é livre quando há possibilidade de escolha. Se você só disponibiliza uma opção, não há escolhas a serem feitas e todos vão de acordo com o cabresto. Não se enganem, enfraquecer a cultura e os projetos culturais é fortalecer o cabresto.

5. A cultura não é um supérfluo. PAREM com essa mentalidade tacanha. Cultura é algo intrínseco ao ser humano. Quando vc desvira o chinelo, quando vc come cuscuz com leite, quando vc lê um poema e se emociona, ou ainda quando escolhe ver esse show e não aquele, isso é cultura. Faz parte de você. E ninguém vive sem uma parte de si, confere? Entretenimento também é cultura, também é importante, mas é apenas uma parte. Você acha que projetos culturais se resumem aos shows, baladas e afins? Do you no nothing, e SUGIRO se informar. Porque também faz parte da cultura de muita gente emprenhar pelos ouvidos e sair falando besteira sem NENHUM conhecimento de causa.

6. O MinC existe desde 85 e foi cortado agora como forma de retaliação aos artistas pelo apoio quase total à esquerda e ao PT. Tudo é importante. A cultura é tão importante quanto qualquer dos outros pilares de um sociedade. E sem o apoio do governo, a cultura não morre, mas o acesso para todos se torna mais difícil. Os grandes shows, o entretenimento esse não morre nunca e o apelo é fortíssimo, mas os projetos culturais de formação e que trabalham nas comunidades ou com um tipo de arte que não é popular e que não tem tanto apelo, terão uma visibilidade muito menor por parte do grande público e muitos deles realmente deixarão de existir pelo que explico abaixo.

7. Os projetos culturais de formação e de novas estéticas devolvem o investimento, mas eles normalmente não se pagam. O dinheiro volta para a economia, mas a possibilidade de lucro é quase nula e a quase certeza de um prejuízo no sentido receita x custos para quem produz ou pro artista é muito real. Por que isso? Porque estamos apresentando uma nova expressão artística, uma que não está massificada nos meios de comunicação, uma que não seja entretenimento apenas, e isso tem um apelo pequeno. Por exemplo, muitos desses eventos são gratuitos, porque é difícil convencer pessoas a pagar por algo que elas nem sabem o que é, ainda.

8. A maioria das pessoas, o povão, não entra na internet buscando circo de soleil, mas procuram Anita, porque é o que está massificado e não tem como eles conhecerem outra coisa se não sabem nem o que procurar. Se para eles só aparece Anita e Naldo na TV, ele vai assistir os vídeos e coisas relacionadas a esse tipo de artista. Teatro, artes plásticas e outras expressões artísticas permanecem em total desconhecimento. E não falo de Gil e Caetano, mas de uma arte que está fora dos meios de comunicação.

9. A cultura, seus artistas, produtores e técnicos JÁ FAZEM EM 90% das vezes a sua arte sem apoio do MinC e de dinheiro público nenhum. A Lei Rouanet é um pequeno incentivo, muito difícil de ser utilizado, inclusive. As empresas só podem incentivar 40% do valor do patrocínio, e 60% tem que ser direto. Então é difícil uma empresa topar isso se o projeto não for midiático. No caso no MinC, a perda é de projetos com cunho social e de formação, projetos que ninguém patrocinaria direto porque esses sim não são midiáticos MESMO, mas muda uma comunidade. Ninguém fica rico fazendo projeto de 100 mil reais porque você precisa prestar contas dos gastos/investimentos. Os 100 mil não vão pro seu bolso. Normalmente vc ainda faz investimento próprio (ou toma preju pros pessimistas). A “torneira” do MinC é tão irrisória em relação a outras torneiras de outros setores, sabe? Mas repito, tão querendo fechá-la para colocar a população contra o “povo da cultura, esse bando de vagabundo que não faz nada e querem só mamar nas tetas do governo (sic)” e tentar minimizar a nossa não aceitação desse governo ilegítimo.

Produtora cultural, idealizadora do Combo Cultural DoSol e baixista da banda Camarones Orquestra Guitarrística. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Tácito Costa
    Tácito Costa 18 de Maio de 2016 14:52

    Agora, só desenhando! Parabéns Ana Morena, texto excelente.

  2. Josimey Costa 19 de Maio de 2016 10:45

    Bravo, Ana Morena e Substantivo Plural! Eu não teria dito melhor e por isso vou compartilhar amplamente. Obrigada por nos dar ótimos e detalhados argumentos, Ana!

  3. Ana Paula Sá 20 de Maio de 2016 17:57

    Apenas acrescentaria que o MinC não se resume a espetáculos e artes apenas, como muitos desavisados pensam; se relaciona também com outras Instituições, destacando as autarquias – IPHAN, IBRAM, ANCINE – e as fundações – Fundação Casa de Rui Barbosa, Fundação Cultural Palmares, Fundação Biblioteca Nacional e FUNARTE, que têm papel relevante na manutenção de acervos, espaços e patrimônios.

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