90 anos do jornal de humor “a manha”, do barão de itararé

Por Cellina Muniz

Há exatos 90 anos, mais precisamente no dia 13 de maio de 1923, era lançado o mais importante jornal de humor da imprensa brasileira: A MANHA, de Apparício Torelly, o célebre Barão de Itararé.

Para conhecer um pouco sobre a vida desse gaúcho invocado que revolucionou o modo de fazer notícia no país, uma leitura é obrigatória: “Entre sem bater: a vida de Aparício Torelly O BARÃO DE ITARARÉ”, livro do jornalista e tradutor Cláudio Figueiredo.

Lançado pela editora carioca Casa da Palavra, em 2012, trata-se de mais uma biografia do mestre do humor na imprensa brasileira. Conta, em 469 páginas (e 438 notas), a saga do Barão, desde os tempos do jornaleco O CHICO, quando afiava ainda sua escrita satírica nos tempos de estudante de medicina, até o consagrado semanário A MANHA, nome que parodia o jornal A MANHÃ, onde, aliás, o humorista também trabalhou, ainda assinando com o pseudônimo de Apporelly.

O livro, acima de tudo, é um importante registro sobre o estabelecimento da imprensa brasileira, seus exercícios de poder e suas relações com o humor. Conforme assinala Figueiredo, “o humor que floresceu nas duas primeiras décadas da vida brasileira no século XX manifestou-se na obra de caricaturistas e de poetas, na publicidade que dava seus primeiros passos e nos espetáculos de revista. Seu principal veículo, contudo, foi a imprensa” (FIGUEIREDO, 2012, p.116).

A biografia de Figueiredo registra episódios importantes da vida do Barão, como a parceria com Assis Chateaubriand e seu Diário da Noite; ou o momento tenso em que foi sequestrado e agredido (supostamente por nomes da Marinha) por conta de sua participação no Jornal do Povo (de pretensões comunistas), ocasião da qual resultaria a célebre placa que o humorista mandou pregar na porta de sua sala, na redação do jornal A MANHA: ENTRE SEM BATER.

Destaque ainda para os embates junto aos integralistas, em que o Barão apelidou os primeiros de “galinhas-verdes” (dentre os quais se encontravam nomes como Gustavo Barroso e Câmara Cascudo); a prisão durante o governo de Vargas na Casa de Detenção (onde também esteve preso Graciliano Ramos); bem como os comentários ferinos sobre a Academia Brasileira de Letras desferidos pelo “nosso querido diretor” (maneira irônica com que o Barão referia-se a si próprio, aludindo ao modo bajulador dos jornalistas da época).

Mas a delícia do livro está no conjunto de histórias hilárias que marcaram a vida desse autor/personagem. Dentre tantas, uma dessas anedotas gira em torno do momento em que Torelly (antes ainda de fundar A Manha e se tornar o Barão) foi com Mário Rodrigues (diretor do jornal A Manhã e pai de Nelson Rodrigues) buscar apoio financeiro e parceria política com o então governador de Minas Gerais, Mello Vianna. Assim relata Figueiredo:

“Depois de chegar a Belo Horizonte e instalar-se no Grande Hotel, Mário dirigiu-se com os colegas (Torelly e outro jovem jornalista, Danton Jobim) à sede do governo. Lá, o jornalista desfiou suas lamentações (…)”.

– Muito bem, de quanto você precisa? – perguntaria Mello Vianna aos três.

Depois de conseguir a quantia de 80 contos, o grupo foi comemorar. Resultado: torraram todo o dinheiro em uma farra no cassino do Bonfim. No dia seguinte, Mário Rodrigues, desesperado pelo remorso, ameaçava suicidar-se, ao que Apparício Torelly friamente recomendou:

“Dr. Mário… O senhor tirou esse dinheiro com tanta facilidade… Vai lá e tira de novo.”

Dito e feito. O grupo foi outra vez procurar o governador e na maior cara limpa contou o sucedido. Mais uma vez Mello Vianna dispôs a mesma quantia.

E mais uma vez os três gastaram tudo numa noitada de bebida e jogatina. E outra vez Torelly recomendou:

“Dr. Mário… Quem dá uma e dá duas, também dá três.”

Novamente foram procurar Mello Vianna e novamente o homem acabou cedendo, sob uma condição:

“Eu dou, mas só quando estiverem na estação para pegar o trem para o Rio de Janeiro. (…) Na estação, o trio aflito olhava para todos os lados (…). Só quando, já a bordo do vagão, ouviu-se o apito de partida, Noraldino chegou apressado com um grande pacote para passar pela janela.”(FIGUEIREDO, 2012, p. 118-121).

Na vida e na obra, Apparício Torelly utilizou-se de todos os procedimentos discursivos de humor para noticiar criticamente o que acontecia no país: o escárnio, o nonsense, a ironia, a paródia etc. E, sobretudo, serviu de modelo para outros periódicos humorísticos, tanto em nível de cenário nacional – como o também célebre Pasquim – até jornais de humor natalenses, como o Cebola Faz Chorar e A Franga.

Viva o Barão de Itararé! Viva o poder do riso!

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Cellina Muniz 12 de maio de 2013 16:00

    É verdade, Ernani: o jornal foi inaugurado em 13 de maio de 1926. Torelli chegou ao Rio em 1925 😉

  2. Ernani Ssó 12 de maio de 2013 14:48

    A Manhã é de 1926. Em 1923 o Barão ainda morava no Rio Grande do Sul. Só em 1925 ele foi pro Rio de Janeiro.

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