A “má consciência” de David Grossmann

Egresso da primeira geração de autores nascidos no estado de Israel, David Grossmann precisou se desvencilhar dos clichês, dos slogans e das meias-verdades próprias a um estado beligerante para se tornar escritor. Ou teria sido o inverso, ou seja, tornou-se escritor para se desvencilhar dos clichês, dos slogans e das meias-verdades. Dentro da categoria “meia-verdade” ele colocou um valor de grande importância para o seu povo: a crença no Deus bíblico Jeová, ou “o nome impronunciável”, “aquele que é quem é”.

Só assim, desprovido de transcendência e armado só com aquilo que pode provir das palavras, ele pôde construir uma obra literária. Na segunda-feira passada, como entrevistado do programa “Roda Viva”, da TV Cultura, David Grossmann teve oportunidade de falar ao público brasileiro sobre seu produtivo ateísmo, bem como sobre alguns de seus romances, dentre eles, “A mulher foge”, já lançado no Brasil e que trata de um tema difícil ao Israel de hoje: o pacifismo: uma mulher foge de casa para não receber a notícia de que o filho, enviado à frente de batalha, faleceu. Ela acredita que enquanto a fatídica notícia não a alcançar, seu filho terá alguma chance de estar vivo.

Falou também de outro livro seu, ainda sem título em português, e conhecido, por enquanto, por seu título inglês, embora Grossmann escreva em hebraico. Trata-se de The Yellow Wind (“O vento amarelo”) e que se enquadra no gênero literário de não ficção, conforme a nomenclatura proposta por Gay Talese.

The Yellow Wind revela a busca de Grossmann por palavras fugitivas, quiçá enfermas. É curioso que ele imagine um hospital para tais palavras. É uma “medida preventiva”. O que seria da humanidade dos homens e das mulheres se todas as palavras adoecessem e, portanto, já não pudessem nomear as coisas ou as nomeassem só parcialmente, contraditoriamente, negativamente?

As palavras fugitivas referidas em The Yellow Wind são justamente as meias-palavras, inclusive os clichês, os slogans, as frases-feitas, as palavras vazias, as únicas ao alcance do entendimento dos “hollow men” de que T. S. Eliot fala em seu poema homônimo. É contra esses “homens ocos” que Grossmann investe cheio de palavras revitalizadas, a fim de fazê-los ouvir verdades relativas, plausíveis, limitadas. Humanas.

Para chegar a essas palavras, Grossmann disse que atravessou um tempo não superior a 30 minutos a pé até chegar a uma aldeia palestina. Apresentou-se como alguém que desejava ouvir o outro lado, como qualquer repórter minimamente informado o faria. Ou como qualquer sociólogo ligado à novíssima ciência das narrativas de vida, saber que tem como dístico a sentença do filósofo alemão Wilhelm Schapp: “Nada existe fora das histórias”.

Ao ouvir as histórias palestinas, Grossmann se deu conta de que a propaganda oficial disseminada em seu país, em seu maniqueísmo desesperado ― “Será que eles creem que tudo permanecerá como está?” ― havia conseguido adiar aquele seu encontro com o outro de um modo quase perfeito. O único erro do establishment foi ter esquecido de avisar aos árabes e cristãos de Jerusalém que a fraternidade cristã ainda teria alguma chance, mesmo com Jerusalém anexada ao lado judaico da cidade.

David Grossmann é hoje um dos representantes do pacifismo em seu país, posição repudiada pela direita israelense, no poder desde sempre, bem como pelos pequenos partidos religiosos que dão sustentação ao governo de Olmert.

Como a narradora de “A mulher foge”, Grossmann tenta dizer que só tem as palavras, mas são palavras suas, arrancadas de dentro da sua alma dilacerada pela perda do filho numa guerra insana e pela deriva que ameaça arrastar seu país a mais e mais guerras, como se a guerra fosse o estado natural de uma nação. Ou até que o mundo esqueça os assentamentos que se multiplicam sobre o solo palestino, terra ocupada, “terra disputada”, na engenharia semântica do estado armado.

“Má consciência” do estado, Grossmann, como Amós Oz segue buscando a palavra capaz de implodir a intolerância, a guerra, o autoengano, a aliança com um deus parcial, o engodo universal. Enquanto não depara com essa palavra realmente revolucionária, vai escrevendo seus livros. Talvez um dia eles se fundam num único livro, e este, por sua vez, na palavra salvadora.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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