A afiada tesoura do querer de Rizolete

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As questões de gênero não passaram em vão pela poesia norte-rio-grandense contemporânea em sua vertente feminina (e feminista). Uma evidência é que nela se fala mais de sexo e desejo do que de romance; mais de conflitos de poder do que de sentimentos; mais de crises do que de alegrias. A poesia de Rizolete Fernandes é uma dessas poucas vozes dissonantes nesse concerto de gêneros ao eleger para seu canto a leveza dos sentimentos, ao contrário de confrontá-los.

Essa poesia das formas mínimas do sentir e que se replica numa prosa de discrição, como se pode ver no conjunto de crônicas que Rizolete Fernandes enfeixou em “Cotidianas” (Sarau das Letras, 2012), dá corpo a uma sensibilidade que trilha um caminho conforme a sua própria natureza, e que nela encontra seu melhor argumento.

Essa característica tão peculiar de sua prosa pode ser constatada, agora sob forma poética, em seu novo livro “Vento da tarde/Viento de la tarde” (Sarau das Letras, 2013), em edição bilíngue português-espanhol, com tradução espanhola de Alfredo Pérez Alencart, da Universidade de Salamanca. O Prólogo também é assinado por Alencart e serve como porta de entrada à poesia de Rizolete, haja vista que se intitula justamente “Itinerário de Rizolete”.

Experiente na lida com a poesia portuguesa/brasileira, haja vista que é também o tradutor, dentre outras obras, de “Misto códice” (Sarau das Letras/Trilce ediciones, 2012), de Paulo de Tarso Correia de Melo, Alencart toca em algumas questões fundamentais da poesia de Rizolete, como, por exemplo, a prevalência do sensível que a distingue.

Sobre esse tema, indaga: “De onde vem essa delicada corrente de realidade que semeia em seus poemas Rizolete Fernandes?” Sua resposta não poderia ser mais exata: “Entendo que da humildade, mas não daquela que só perfuma a boca do que esconde suas vaidades, e sim dessa singeleza que se há amadurecido como um largo ritual em meio ao assombro de viver”.

Em outro momento de seu ensaio/prefácio, Alencart escreve, a título de síntese: “Vento da tarde é uma passarela por onde desfilam os seus dias e os dos outros”. E, sem resistir ao tom professoral, ensina: “Não esqueçam que o eu da poeta nem sempre resulta ser o seu, pois costuma abarcar os demais”.

É bem disso que se trata em “Vento da tarde/Viento de la tarde”, de uma especial delicadeza poética, desde sua forma breve, e que se esgota às vezes num dístico impactante, como no poema “Espinhos”: “Consigo dialogar com os espinhos / difícil é entender o que dizem as rosas”. Ou ainda nesse singelo elogio à arte, cujo título é justamente “Arte”: “A arte / é o que dá sentido à vida / em qualquer tempo / em toda parte”.

Outras vezes, a complexidade do argumento poético exige da poeta três versos, o primeiro expondo o leitmotiv, o segundo desdobrando-o, enquanto, no terceiro, dá-se seu desfecho. Em “Fatal”, tem-se, assim: “Foi te ver e sonhar / para meu ativo / emocional // Não por premeditar / foi o teu sorriso /azul e fatal // Agora / inda que ternuras estiem / ou respingos / nuances me desmaquiem / antecipo domingos”. Ou ainda, dessa vez tratando da fugacidade da vida, Rizolete Fernandes diz em rimas alternadas em “Escassez”: “inspiração escassa / a poesia fugidia / o tempo passa / pelo dia”.

Com “Vento da tarde/Viento de la tarde” Rizolete ingressa no seleto clube dos poetas norte-rio-grandenses cuja obra está disponível em outra(s) língua(s), o que já reúne um número razoável de autores, dentre os quais, Marize Castro, Paulo de Tarso Correia de Melo, Diógenes da Cunha Lima, David Leite e Zila Mamede.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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