A alma do povo de Cacá

Foto: Ed Ferreira/AE

Por Felipe Radicetti
NO TREZENTOS

O notável cineasta Cacá Diegues vem, corajosamente em socorro da Ministra da Cultura (foto), que pessoalmente é sua amiga. Vem cumprir o que todos os bons amigos fariam. Em seu lugar eu faria o mesmo, em companhia de um amigo querido, a bordo de sua torpedeada piroga ou Ministério eu afundaria junto. Em nome de uma vida de parcerias artísticas e experiências pessoais compartilhadas. Coisas da alma.

Esse é o legado das primeiras linhas de seu texto em relação aos críticos da gestão do MinC, pasta ainda ocupada pela cantora Ana de Hollanda. Essas primeiras linhas de seu texto são moralmente defensáveis, certamente e tal como o defendo aqui. Venho em sua defesa aqui não como artista, mas como cidadão. É pela representação da cidadania que nos colocamos finalmente em posições de igualdade nesta República recente. E nesta República, a Cultura representa esse imenso mundo simbólico que tece irresistívelmente nossos laços identitários como povo, na ditadura ou nesta também recente democracia.

Em outros aspectos, também morais e sobretudo políticos, todavia, o texto sofre da mesma fraqueza que a gestão a ser defendida, publicando, em seguida, uma compilação de dados da gestão do Ministério da Cultura. Estes dados já publicizados pelo MinC carecem, todavia, da necessária precisão e fundamentação. São, naturalmente, documentos políticos, na tentativa de criar uma agenda positiva que, sabe-se, não corresponde aos fatos e às ações. A parceria do MinC com a Frente Mista em Defesa da Cultura foi absolutamente nula, a questão do Direito Autoral não é o Creative Commons, é algo suficientemente grave para ser matéria de análise de uma Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal. Nesse sentido, o MinC deixa seu defensor nu e a descoberto. Digo isto porque estou ciente de documentos públicos a que todos os cidadãos brasileiros têm livre acesso e não pela leitura de releases.

É também um equívoco grosseiro crer na versão de que há uma perseguição pessoal à Ministra, emprestar-lhe um caráter irresponsávelmente destruidor e interesseiro, quando o que está implicado é precisamente a justificada reação da larga maioria dos atores da cultura no Brasil, artistas e gestores culturais, ao rompimento unilateral desta gestão do Ministério com compromissos institucionalmente contraídos com a sociedade civil, e a descontinuidade das políticas públicas para Cultura que foram amplamente consensuadas, com muito investimento e esforço de cidadãos dispostos a investir, sem qualquer lucro pessoal, muito trabalho e participação, desde 2004, uma operação inédita pela edificação de documentos de Estado estruturantes de um plano de Cultura nacional, democrático e para todos. Nada mais representativo, democrático, sagrado.

Não é possível concordar com a interpretação de que se trata de uma ação orquestrada de invejosos, oportunistas e os artistas não-contemplados com as políticas que vêm caracterizando esta desastrosa gestão. Não é aceitável aportar a estes, a pecha de opressores. Os artistas e a sociedade civil foram traídos pela cassação da participação popular na proposição de políticas públicas do Estado e pelo seu efetivo desmonte. É a isso que denominamos desastre. Isto não é obra da Ministra, é de uma gestão do Ministério, o que implica em muitos agentes que não podem ser identificados fácilmente. A discordância do setor quanto aos rumos adotados pela gestão não é nem nunca foi uma perseguição pessoal.

Este comportamento não é compatível com um Ministro de Estado da República. Fazer-se desde a primeira hora de sua gestão, vítima de perseguição pessoal é muito mais a revelação de um comportamento personalista. Isso não expressa os fatos, é algo forjado e busca focar justamente no que não está em questão. Importante é estabelecer a verdade sobre essa questão de uma vez por todas: a pessoalidade da Ministra não tem nenhuma relevância para a Cultura ou para o Brasil. O que poderia ter relevância seria o diálogo com a sociedade, com o setor, com o povo e com os artistas, precisamente o aspecto onde sua gestão fracassou miseravelmente. O nível com que a instituição máxima do Estado para a Cultura trata as contradições que engendrou está envergonhando o país.

O cineasta é lançado em defesa da Ministra municiado com bolas de papel, que não poderão em nenhuma hipótese arrefecer a indignação generalizada do setor da cultura, porque não é possível negociar com a nossa alma. A Cultura é a alma de um povo.

Dedicamos o melhor de nossos esforços e o nosso trabalho, como artistas, a princípios que pretendemos, por toda a vida, ter sido seus defensores. Nesses aspectos enfim, não posso defender, neste momento, a oportuna aparição do cineasta.

Não há lugar para covardia no amor, disse-me uma vez uma extraordinária pintora argentina. Assim também é na cultura. São coisas da alma de um e de todo um povo. Todos nos expomos desnudos, nos gabinetes, nos palcos, nas redes sociais e nos jornais.

Felipe Radicetti é Músico compositor

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