A angústia (e o orgulho) da influência na terra de Cascudo

Li uma mensagem, posta no site da UBE/RN, em que Daliana Cascudo, de quem gosto muito e que considero minha amiga, questionava fortemente o seguinte trecho (resposta) da entrevista que fiz com Nelson Patriota:

“É difícil julgar coisas como alcance e essencialidade de uma literatura. Mas é evidente que a literatura potiguar tem suas características, limitações e contribuições próprias, e permanece sob o domínio do nome de Luís da Câmara Cascudo, embora menos do que no passado. De todo modo, Cascudo é ainda o nome que mais repercute para além das fronteiras estaduais. O maior paradoxo dessa situação é que, sem ter sido poeta nem ficcionista, Cascudo ofusca todos os demais nomes da nossa literatura. E aí cabe a teoria de Harold Bloom sobre a angústia da influência. Cascudo é uma influência que continua angustiando cada autor norte-rio-grandense per se. É no convívio com essa influência que a nossa literatura terá de amadurecer para ganhar outras referências à altura dele.” (negritei).

Como a mensagem de Daliana foi tornada pública na internet, permito-me transcrevê-la aqui, na integralidade:

“É uma pena que, na opinião de Nelson Patriota, o nome de Câmara Cascudo gere uma “angústia da influência” nos autores potiguares. Ele deveria, muito mais, gerar um “orgulho da influência” e um estímulo para todos os literatos, pesquisadores e poetas norte rio-grandenses. Se Câmara Cascudo é o único que ainda se destaca fora do nosso estado, é porque tem méritos literários para isto. Sua obra gigantesca, com abrangência múltipla, permanece valorizada no Brasil e no mundo. Diariamente encontramos referências a Cascudo em diversas áreas de pesquisa, tendo sido um precursor e um desbravador do Folclore, da Etnografia, da Etnologia, da Sociologia e da Antropologia, com uma obra atual e dinâmica, que acompanha as mudanças da globalização.

Família Câmara Cascudo”

Não vi nenhuma resposta de Nelson a Daliana, mas confesso que fiquei – com todo o respeito que tenho a Daliana e à família de Câmara Cascudo, nosso maior intelectual  – preocupado com a condição de absoluta intocabilidade que alguns (principalmente, os parentes) dedicam a nomes importantes de nossas letras. Para alguns, chamar de “bom” já parece um ataque. A existência de uma crítica responsável e meticulosa (já tão rara na nossa terra) fica difícil dessa maneira. Muito difícil.

Gostaria de ver Nelson escrever um de seus artigos serenos analisando o tema. E gostaria muito que Daliana aprofundasse, com a maneira tranquila de agir que sempre demonstrou, sua análise. Isso aqui é só o início do debate, a meu ver. Mas, como não posso forçar Nelson e Daliana a nada…

p.s. Não sei se receberei reprimendas por minhas observações aqui postas. Mas, há de se ter coragem. É questão de princípio!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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