A angústia perene…

“Cascudo é uma influência que continua angustiando cada autor norte-rio-grandense per se. É no convívio com essa influência que a nossa literatura terá de amadurecer para ganhar outras referências à altura dele.” (Do escritor e crítico literário Nelson Patriota, em entrevista a Lívio Oliveira)

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” ‘Influência’ é uma metáfora, que implica uma matriz de relacionamentos – imagísticos, temporais, espirituais, psicológicos – todos em última análise de natureza defensiva. O que mais importa (e é a questão central deste livro) é que a angústia da influência resulta de um complexo ato de forte má leitura, uma interpretação criativa que eu chamo de ‘apropriação poética’. O que os escritores podem sentir como angústia, e o que suas obras são obrigadas a manifestar, são as consequências da apropriação poética, mais que a sua causa. A forte má leitura vem primeiro; tem de haver um profundo ato de leitura que é uma espécie de paixão pela obra literária. É provável que essa leitura seja idiossincrática, e quase certo que seja ambivalente, embora a ambivalência possa estar velada. Sem a leitura de Shakespeare, Milton e Wordsworth por Keats, não poderíamos ter as odes, sonetos e os dois Hyperions de Keats. Sem a leitura de Keats por Tennyson, quase não teríamos Tennyson. Wallace Stevens, hostil a todas as sugestões de que devia alguma coisa às suas leituras de poetas precursores, não nos teria deixado nada de valor não fosse por Walt Whitman, a quem ele às vezes menosprezava, quase nunca imitou abertamente, mas misteriosamente ressucitou:

Suspira mor mim, vento da noite, nas ruidosas folhas de carvalho,

Estou cansado. Dorme por mim, céu sobre a colina.

Grita por mim, cada vez mais alto, alegre sol, quando te

levantares.”

(Harold Bloom, in “A Angústia da Influência – Uma Teoria da Poesia”, 2ªedição, Rio de Janeiro: Imago Ed., 2002, págs. 23/24)

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Notas do autor deste post:

1. A partir da duas citações que trago acima, acredito que já se pode estabelecer um mínimo cotejo entre a fala de Nelson e os aspectos teóricos da expressão “angústia da influência”;

2. Resta claro, de logo, que Nelson não estabeleceu “juízo de valor negativo” acerca da “influência” histórica (ou com outros matizes e contornos) de Cascudo em nossa cena literária. Apenas tratou de um fenômeno, sob tal exclusiva condição, conforme se verifica do próprio extrato do texto de Bloom, para aqui trazido;

3. Por tal razão mesma, incompreensível se torna qualquer espécie de reparo ou “lamento” em face da afirmação de Nelson. A resposta, na entrevista, firmou apenas uma constatação teórica e um dimensionamento do fenômeno local da escrita literária;

4. Nelson fala em “convívio” com a “influência” e não “superação” da ” influência”. Mais uma razão para que reste cabalmente patenteada a mais completa adequação da sua resposta, que se enquadra, praticamente, como um silogismo no que concerne àquele texto extraído do livro do crítico americano;

5. As presentes considerações são meras impressões de um ex-quase-poeta amador e amadorístico, mas que ainda se firma ereto sobre tão-somente duas pernas.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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