A ANPUH chegou aos 50 anos

Do Passado para o Futuro

A Associação Nacional de História (antes, Associação Nacional de Professores Universitários de História) é uma importante entidade, criada em São Paulo no ano de 1961 e consolidada em todo o país desde então. Sua primeira configuração muito deveu à liderança de Eurípedes Simões de Paula, Catedrático de História Antiga e Medieval da FFCL/USP (depois, FFLCH/USP). Claudio Augusto Pinto Galvão, Professor de História da Arte da UFRN que acompanhou aquela fase inicial da ANPUH como jovem graduado e professor, comentou comigo o empenho pessoal de Eurípedes para que a entidade se consolidasse, o que incluía até gestos de mecenato – apoio para obter passagens e hospedagem – em relação a muitos dos que participavam dos primeiros simpósios organizados por ele.

A ANPUH, numa primeira fase aberta à plena participação (apresentação de trabalhos) somente de docentes universitários, mudou de composição e dinâmic participativa no final dos anos 70, em conexão com os novos encaminhamentos da pesquisa histórica entre nós, levando em conta a  importante presença dos programas de pós-graduação e o surgimento de estudos de peso desenvolvidos por pessoas que ainda não eram necessariamente professores no ensino superior, além da maior influência de agências de apoio à pesquisa em todo o país. Seus simpósios bienais, desde então, atingiram crescente importância intelectual, congregando milhares de participantes de todo o Brasil. E a presença crítica da ANPUH naqueles anos ditatoriais foi de grande peso, combatendo projetos ideológicos do regime em relação a ensino e pesquisa na área de História, abrindo espaço para o debate sobre questões de pesquisa que, direta ou indiretamente, enfrentavam a violência ditatorial.

O cinquentenário da ANPUH, em 2011, serviu de mote para a publicação da coletânea “Do passado para o futuro” (São Paulo: Contexto, 2011), organizada por Raquel Glezer (Professora Titular de Metodologia e Teoria da História na FFLCH/USP), que foi presidente da entidade e participa muito ativamente de seu trajeto até os dias de hoje.

O volume priorizou a abordagem do tema a partir de núcleos estaduais da associação, contemplando RJ, AL, BA, CE, GO, MT, MS, PR, PB, PE, RS, RR, SC, SP e SE. É um ângulo muito significativo, levando em conta a atuação nacional da entidade, que se expressa tanto na mobilização permanente de associados – espalhados em programas de pós-graduação e em graduações que, cada vez mais, atingem todo o território do país – quanto em frentes de realização dos simpósios bienais, sediados nas diferentes regiões brasileiras. A ausência de núcleos expressivos naquele rol (DF e PA, p. ex., que sediaram simpósios nacionais da associação) não impede a validade da opção feita, pode ser sanada noutras futuras publicações.

Uma outra faceta da pesquisa histórica e da atuação associativa na área fica menos evidente naquela perspectiva: os intercâmbios que núcleos de pesquisa estabeleceram ao longo desse período (até os anos 70 do século passado, a pós-graduação em História se manteve fortemente centralizada nas regiões sudeste e sul, os únicos doutorados vigentes eram os da USP, da UFPR e da UFRJ), quer entre si, quer com outras entidades ligadas à área de estudos. Nesse sentido, a pesquisa histórica não se restringiu exclusivamente a espaços regionais e a pós-graduação atuou como importante dinamizadora nesse processo – em algumas universidades, existem até grupos de docentes que se identificam como egressos do programa de pós-graduação A, B ou C…

Valeria a pena dar maior realce, também, ao papel associativo, intelectual e político da “Revista brasileira de História”, que, desde os anos 80 do século passado, marcou significativa presença na consolidação de temas e abordagens metodológicas em nosso campo de trabalho.

Embora a presença da ANPUH na cena pública brasileira tenha diminuído após o fim da ditadura (o que também se observa em relação à SBPC), tendendo a se concentrar mais em questões específicas de seu campo de pesquisa, vale realçar que a entidade mantém um perfil de debate geral ainda expressivo e seus simpósios bienais continuam  a suscitar grande interesse, deixando marcas construtivas quer em suas sedes, quer entre seus participantes.

A  iniciativa de Glezer, com a edição desse livro, é muito bem-vinda e merece ser ampliada por outras publicações e atividades que esmiucem um trajeto associativo tão marcante quanto o da ANPUH.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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