A antifilosofia

Antonio Cicero
FSP

No livro do filósofo Boris Groys se encontra a busca da originalidade a qualquer preço

O ROMANCISTA espanhol Javier Cercas, comentando que o pior vício que um filósofo pode ter é se esforçar para ser interessante, observava que “dizer que os homens buscam a felicidade é enfadonho e pouco original, porque os filósofos o dizem pelo menos desde Aristóteles, mas tem a vantagem de ser certo; reivindicar a infelicidade, a doença e a velhice, como faz agora o filósofo alemão Boris Groys, tencionando discordar do discurso dominante da apoteose juvenil, é sem dúvida original, mas tem a desvantagem de ser uma bobagem”.

Lembrei-me disso ao ler um livro de Groys recentemente publicado na Alemanha, cujo título em português seria “Introdução à antifilosofia”. A observação de Cercas se refere a outra obra desse autor, mas a busca da originalidade a qualquer preço também se encontra no livro mais recente.

Groys fala das “verdades” como produtos oferecidos no mercado. Na Grécia antiga, segundo afirma, os sofistas produziam verdades para o mercado. Ao contrário deles, Sócrates se definia como filósofo, isto é, como aquele que ama a verdade, mas não a possui ou produz, ou como aquele que está disposto a adquirir verdades, desde que se convença de que o que lhe oferecem como verdade é o produto autêntico, e não uma falsificação. Assim, a diferença entre o sofista e o filósofo é que este é o consumidor crítico, enquanto aquele é o produtor de verdades.

Contudo, para Groys, o simples fato de descobrir que uma verdade funciona como mercadoria -a descoberta dos interesses econômicos por trás da formulação e da divulgação de uma doutrina- já bastava para que Sócrates a recusasse. “De Sócrates, através de Marx, até a teoria crítica frankfurtiana”, afirma Groys, “pensa-se que a verdade, quando se dá como mercadoria, não é verdade”. Isso significa, segundo ele, que não há verdade, pois na economia mercantil nenhuma verdade escapa à condição de mercadoria. A própria filosofia, inclusive a de Sócrates, justamente na medida em que é consumidora crítica de verdades, também faz das verdades mercadorias.

Groys pensa que é a partir da compreensão desse fato que surge a antifilosofia. Esta não funciona através da crítica, mas da ordem. Ordena-se, por exemplo, a transformar o mundo, em vez de explicá-lo (Marx); ou a proibir todas as questões filosóficas e calar sobre o que não pode ser dito (Wittgenstein); ou a transformar o próprio corpo num corpo sem órgãos e pensar de modo rizomático, e não lógico (Deleuze); etc. A verdade -não mais mercantil- somente se revela quando a ordem é obedecida. Primeiro vem o salto à fé; depois se manifesta a verdade da religião. Quem se recusa a obedecer permanece para sempre no escuro e não pode sequer criticar a ordem, pois não a compreende propriamente. A decisão primeira é vital, não filosófica. Reconhece-se esse tipo de irracionalismo decisionista em antifilósofos contemporâneos como Alain Badiou e Slavoj Zizek, que sincretizam Paulo de Tarso e Lenin, Robespierre e Mao Tse-tung.

A mesma recusa do pensamento crítico opera hoje, segundo Groys, não somente nas religiões e ideologias políticas, mas em livros que receitam pensamentos positivos, estratégias de mercado, indicações sobre o combate contra o império americano com a ajuda das “multidões” (Hardt e Negri), comportamentos adequados para os ativistas da esquerda ou da direita etc. No fundo, tudo se reduz a conselhos de autoajuda.

Se a antifilosofia é como Groys a descreve, então devemos dizer que ela se baseia numa falácia (coisa que pouco lhe importa, já que ela despreza a crítica, a razão e a lógica). É que, assim como o fato de que todo pato seja animal não significa que todo animal seja pato, o fato de que toda avaliação de mercadorias seja uma espécie de pensamento crítico não significa que todo pensamento crítico seja uma espécie de avaliação de mercadorias; e o fato de que as mercadorias possam ser objetos da crítica não significa que todos os objetos da crítica sejam mercadorias.

Ao escrever o livro em questão, Groys não se pretendeu antifilósofo, mas fenomenólogo. Talvez a forma mais generosa de entender suas teses seja tomá-las como, na prática, irônicas em relação à antifilosofia. Afinal, os antifilósofos teriam rejeitado a filosofia porque pensavam ter descoberto seu caráter de mercadoria. Mas quem ignora que, entre os livros vendáveis -logo, que se realizam como mercadorias-, os de autoajuda superam, de longe, os de filosofia?

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