A arte como patrimônio público

A exposição “Séculos XX e XXI – Acervo do Governo do RN” que ocorre na Pinacoteca do Estado é uma visita essencial. A exposição traz à mostra obras de nomes expressivos das artes visuais, principalmente, do nosso Estado, todas pertencentes ao nosso acervo público. Sim: ao nosso. E isso não podemos perder de vista. A aquisição, guarda e divulgação são fundamentais para preservação das expressões mais representativas do pensamento criativo das culturas. Nesse sentido, o conjunto dos acervos públicos nos dá uma ideia das artes e também do papel desempenhado pelo Estado no fomento ao patrimônio cultural, histórico e artístico de seu povo. Desse modo, o que vemos na exposição é nosso e isso, ao meu ver, é um elemento indissociável da fruição estética: como queremos ser lembrados? do que queremos lembrar? o que e por que é fundamental como acervo público? que importância ganham essas obras quando se constituem patrimônio público? qual importância é somada ao Estado ao adquiri-las? quais impactos essas obras causam ao sensível? como se constituíram e se constituirão como marcos da cultura, das artes e da história do seu tempo e de tempos em devir?

Vamos nos maravilhando com as cores da exposição enquanto aprendemos a fruir e usufruir esteticamente o que é nosso. E a curadoria nos garante esse percurso: pela seleção do acervo, pelo senso da visita indicado e pelas informações histórico-artísticas fornecidas, exercendo um papel fundamental para a educação patrimonial e estética, mesmo de um público não especializado. Cada sala, cada tela, cada artista é devidamente valorizado e somos capazes de compreender as artes visuais a partir do seu tempo histórico, suas influências, seus temas e principais características de cada técnica e escola.

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Mas, como mirar as artes como patrimônio público? Nossa relação conjugal com o Estado não é suficientemente litigiosa para nos impedir o gozo estético? Não há como pensar nessa questão sem mais perguntas e sem se deixar surpreender. A primeira sala – “A talha em madeira” – começa nas escadarias imponentes da própria Pinacoteca. Ao ver rapidamente o descritor sobre a arte em madeira, eu me perguntei: “mas onde danado é essa sala?”. A sinalização informava que exatamente ali onde eu estava era a referida sala, mas eu, distraída por um olhar já anestesiado para o espaço público, consegui não enxergar que estava diante da mais expressiva arte em madeira do nosso Estado: os monumentais painéis de Manxa que circundam todo o espaço e que já estão amalgamados à Pinacoteca e foram esquecidos pelo meu olho. Eu procurava algo novo, algo que ainda não pertencesse ao meu olhar, exposto circunstancialmente para a exposição. Meu olhar me traiu. O novo era justamente olhar aquelas obras como a primeira vez depois de muitas. Olhar para o nosso espaço público como repleto de uma estética viva e renovadora. O novo é saber mirar diariamente a mesma obra como eterna estranha. Depois de me sentir perdida ao início do percurso, obviamente, eu ri, aliviada e com certo auto-sarcasmo. Como (com)partilhar dos bens desse casamento com o poder público?! “A sala é aqui!”. Foi um bom susto para iniciar o percurso e pensar na nossa relação político-estética com o Estado.

Do “Academicismo do RN” (sala B), dos “Vestígios do Academicismo” (sala C) e da “Sala dos Governadores” (sala D), a tela de Murilo La Greca (“O forte”, 1926) é luz e traços que derretem sob nosso sol e servem como passagem para a explosão de cores e de traços transformes que Newton Navarro e Dorian Gray nos darão (sala E, “Modernismo nas artes plásticas do RN”). O vaqueiro (“Vaqueiro com boiada”, 1985) e o touro (“Touro bravo na caatinga”, 1985) de Newton Navarro são figuras vigorosas, rodeadas de áurea e desenhadas por cores primitivas diante dos traços negros que cobrem nossa caatinga e contraria o mesmo vaqueiro representado por Moura Rabelo em 1949 do “Academicismo do RN”. É a faceta viril de Riobaldo de Guimarães Rosa, derrotada com vaqueiro ao chão, rendido pelo imaginário efusivo do nosso folclore (“Bumba meu boi I”, Newton Navarro, 1992).
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O mesmo sol derrete a geometria dos casarios de Dorian que se espelham na marina à beira da calçada. Somos um espelho estranho ao objeto e nos revelamos como outro. Será que Narciso sabe dos efeitos do sal das salinas e do açúcar dos engenhos sobre nossa imagem? Assim, Dorian nos adivinha nas telas dos casarios à margem (1972), no “Engenho” (1977) e na “Salina” (1978). Sal e açúcar. Somos antíteses em convulsão. Uma outra convulsão de que escaparam parte dessas obras: em algumas delas estão ainda afixadas as placas de tombamento pelo Bandern. Como não sentir o poder de reexistência das artes, mesmo diante das ruínas da nossa história?!

navarroÉ preciso seguir. Mirar Thomé na “Ponte de Igapó” (1980, Sala F: “Desdobramentos do Modernismo no RN”) em diversos tons de verde borrados, inspirados, possivelmente, nas centenas de árvores que lhes são útero no vale que escolheu eternizar. É preciso rezar diante de “Maria, Jesus e José” (1981) de Leopoldo Nelson. Mas, talvez, apenas talvez, a beleza triste desses santos não nos leve a nada, além da treva que a colore. A arte perde toda a sua sinuosidade e nos dá a transição para um mundo verdadeiramente em movimento, melhor do que esta realidade que não se renova nunca. É preciso criar outro pacto e seguir como Alice, caindo no buraco e atravessando as fendas cinéticas de Palatnik (sala G, “Arte Cinética – Optical art – Abstracionismo”) para encontrarmos nossa origem no mundo e começarmos tudo de novo. Não no ventre despido de Courbet, mas no ventre sagrado de Maria do Santíssino (sem título, s.d.), ou no ventre negro da “Glória à Virgem Maria” (Iaperi Araújo, 1983), ambos representantes da “Arte popular – Espontânea – Primitiva – Naïf” (sala H).

Não há salvação para nós, filhos de Poty, que recebemos as despedidas da exposição pelas nádegas fartas das “Viúvas alegres de Maxim’s” (Maria Luiza Serra de Castro, 1980), que nos acenam o pecado enquanto rezam os peixes e cajus dos santos homens trabalhadores de Assis Marinho (“Ceia Larga”, 1995 – Sala I: “Estética da ruptura e da continuidade”). Sigamos!

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A exposição é repleta de ausências, elencadas num inventário bem anterior a sua abertura na última semana: “Catálogo do acervo de artes visuais do Governo do Rio Grande do Norte” de 2007, numa publicação do Governo do Estado e da Fundação José Augusto. Como deveremos lembrar dessas ausências, das dezenas de artistas e obras que não tiveram o direito à esta exposição? Talvez possamos sonhar numa exposição futura apenas para essas obras resgatadas da nossa ignorância. Talvez devêssemos ter uma exposição apenas dedicada a elas com molduras vazias. Jazigos. Uma lembrança póstuma de que também somos aquilo que não conseguimos ser.

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Créditos da exposição nas imagens. Algumas obras mencionadas no texto estão indicadas com o nome dos artistas abaixo. Visitas até domingo, 9h às 17h: Pinacoteca do Estado do RN.

https://www.facebook.com/tatyana.mabel/posts/1253608214649486

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