A arte como um não fazer

Arte: Marcel Duchamp

Por Ferreira Gullar
ESTADÃO

O artista conceitual, se usa objetos, usa-os pelo que significam em sua relação com o espaço social

Os adeptos da arte conceitual, em geral, consideram-me um inimigo irredutível desse tipo de expressão, o que não é inteiramente verdade.

Ou pelo menos, não adoto uma atitude meramente negativa; antes, procuro entender o que ocorreu, o que gerou esse tipo de manifestação. E esse pode ser o caminho, se não para aceitá-la, pelo menos para compreendê-la e situá-la.

E nisso espero que o leitor me acompanhe porque, se não me engano, a maioria, como eu, questiona esse tipo de arte.

O que se chama de arte conceitual eliminou a pintura. Eliminou também a escultura, mas, como lida com objetos, tem alguma coisa de escultura em suas instalações.

Mas só aparentemente, porque o escultor, seja ele figurativo ou abstrato, valha-se ele do volume ou da placa, trabalha sobre a superfície e o espaço, buscando transfigurá-los.

Já o artista conceitual não; se usa objetos -cadeiras e mesas, manequins de gesso ou o que for- usa-os pelo que significam em sua relação com o espaço social; enfim, pelo que significam como coisas do nosso dia a dia. Valem-se dessa situação normal para violentá-la e chocar o espectador. Um exemplo é quando põem cadeiras e mesas, uma sobre as outras, num equilíbrio instável, criando uma relação inesperada entre esses objetos e o espectador.

Esse tipo de expressão tem origem no dadaísmo, que, por sua vez, inspirou-se, de um lado nas colagens cubistas: envelopes de cartas e recortes de jornal -elementos “ready-made”- colados na tela, e de outro, na frase de Lautréamont: “O encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de necrotério”.

É que o objeto comum, posto em situação inusitada, revela a expressão de sua forma, até então oculta pelo hábito.

Isso se aplica perfeitamente ao urinol que Duchamp enviou para a Exposição dos Independentes, em 1917, uma vez que, posto na situação de obra de arte, o objeto perde a funcionalidade para revelar-se como pura forma. Neste caso, ao escolher um urinol, e não outro objeto, Duchamp manifesta seu desprezo pelo que se considerava arte, uma atitude bem dadaísta.

Mas há outro componente implícito no nascimento desse primeiro “ready-made”, já mencionado por mim aqui, e que foi a sua visita a uma exposição de indústria naval, em Paris, quando se deparou com uma enorme hélice de navio, que lhe pareceu uma escultura.

Era uma obra de arte criada pela indústria sem o propósito de criar arte -um “ready-made”. Esse fato compõe o quadro histórico em que se dá grande mudança dos valores artísticos no começo do século 20: trata-se de uma época em que a produção industrial toma conta da sociedade. Isso, de certo modo, agrava a crise da pintura, que é essencialmente não industrial, artesanal.

Mas nem todos os artistas daquela época viam as coisas do mesmo modo que Duchamp. Mesmo um dadaísta como Hans Arp, ainda que tendo abandonado a linguagem usual da pintura e da escultura, manteve-se fiel à essência delas, criando obras não obstante inovadoras. A verdade é que as artes artesanais se mantiveram e se mantêm até hoje.

O próprio Duchamp, como já observei anteriormente, não abriu mão da realização artesanal, quando realiza, entre 1915 e 1923, “O Grande Vidro” e, depois, dedica os últimos 20 anos de sua vida à realização de “Étant Donné”.

Outro artista desse mesmo grupo que se mantém durante alguns anos realizando obras artesanais é Kurt Schwitters, com suas colagens a que deu o nome de arte Merz.

Mais tarde, inventou o “Merzbau”, uma antecipação das atuais instalações, ainda que essencialmente diferente, uma vez que se trata de uma obra sem fim, feita ao sabor do acaso: saía para trabalhar e, se encontrava alguma coisa que a seu ver cabia na obra, a trazia para casa e a inseria nela.

Como uma espécie de árvore, o “Merzbau” crescia a cada novo achado, a ponto de ter invadido o andar de cima da casa. Como teve que deixar a Alemanha, perseguido pelos nazistas, retomou a realização do “Merzbau” em Londres e nele trabalhou até morrer.

Como se vê, trata-se de uma experiência muito distinta das instalações feitas atualmente, que, como o próprio nome indica, pretendem emitir conceitos, a exemplo da arte engajada que sobrepõe a mensagem à elaboração estética.

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