A arte salva mesmo?

Quero compartilhar com vocês aqui trechos de uma introdução ao livro A Beleza Salvará o Mundo, de Tzvetan Todorov, 352 páginas, R$ 45,00. São dicas importantes para quem vive nesse mundo literário tão cheio de vaidades. No livro, Todorov mostra sua visão da vida de três grandes escritores: Wilde, Rilke e Tsvetaeva, três verdadeiros “aventureiros do absoluto”.

A Beleza Salvará o Mundo

Tzvetan Todorov

“A aspiração à plenitude e à realização interior se encontra no espírito de todo ser humano, e isso desde os tempos mais remotos; se temos dificuldade para nomeá-la, é porque ela assume as formas mais extraordinariamente diversas. É a uma delas que gostaria de me dedicar aqui, pois ela exerce sobre nós um fascínio particular que orienta hoje nossa busca pessoal. Nem sempre foi assim. Durante séculos, de fato, a necessidade de plenitude foi interpretada e orientada para o contexto da experiência religiosa”.

“Todavia, a religião não fornece o contexto obrigatório, estruturante tanto da sociedade em seu conjunto quanto da experiência dos indivíduos; as crenças religiosas, no sentido estrito, são hoje uma forma entre outras dessa busca, e sua escolha tornou-se uma questão pessoal. Nada ilustra melhor esse novo status quanto a própria possibilidade de abandonar a religião recebida pela tradição e, após algumas hesitações, escolher outra que nos convenha melhor”.

“Poder-se-ia dizer que a arte de viver é uma arte entre outras e que se pode perfazer a vida como uma obra de arte. Mais uma vez, é preciso que se previna contra os mal-entendidos. É verdade que a arte é percebida como o local por excelência em que os seres humanos produzem o belo. Para muitos de nós, a plenitude que procuramos se encontra – notadamente – na experiência artística”.

“Não é, portanto, a contemplação de obras que será dado como exemplo de uma bela vida nem de sua criação, é a própria obra de arte. Ora, a obra não é separada por um abismo da mais comum existência. Para descobrir não há nenhuma necessidade de praticar uma arte nem de consumir obras-primas o real com o imaginário e tentam dar a suas vidas cotidianas uma forma harmoniosa (ou pelo menos se lamentam de não ter podido fazê-lo). A obra de arte é simplesmente o local em que esses esforços produziram seu resultado mais brilhante, onde são, por conseguinte, mais fáceis de ser observados”.

“Minha prática de crítico e de historiador colocou-me em contato com muitos textos e imagens cuja beleza eu admirava e que encarnavam a meu ver a plenitude pela qual aspirava, além disso. Mas essas experiências, não mais do que o êxtase provocado pela música, não me bastavam. Dou-me conta retrospectivamente que a beleza sob todas as formas, a obra de arte, paisagens sublimes, viagens exóticas, não me saciavam a fome”.

“Na vida, nem sempre temos de escolher livremente nossa via. Primeiro nos submetemos às decisões dos adultos que nos cercam, depois sofremos as pressões exercidas por nossos amigos, em seguida nos conformamos com modelos de comportamento ofertados pela sociedade, nos curvando às exigências do mundo de trabalho. Porém nem sempre ter consciência disso, sem também formulá-los para si com tantas palavras, cada um de nós é animado por um projeto de vida, possuindo em nosso interior uma configuração ideal que nos guia a partir da qual julgamos nossa existência em dado momento”.

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Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Ana Barros 29 de setembro de 2011 21:03

    Mais esclarecedor é ler A Origem da Tragédia no Espírito da Música, F. Nietzsche, no qual vamos encontrar o sentido mítico da Arte em Dioniso e Apolo. Mitos que vão do mais tenebroso, caótico, excessivo (fenômeno) à medida, à luz, à sublimação (plenitude, engano). Ou seja, a existência entre a sombra e a luz das contingências, da finitude; das ideologias à clarividência suprema da fatalidade, ou seja, da grande arte de existir, mesmo conhecendo. O livro dá o exemplo máximo do “nobre” Édipo.

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