A atriz e a Voz

Por Adriana Abujamra

Para o Valor, de São Paulo
Bibi Ferreira chega para este “À Mesa com o Valor” no Terraço Jardins do Hotel Renaissance de salto altíssimo, voz e humor afiados. “Sempre me achei feia. Mas tenho uma coisa bonita. Aliás, linda. Minha boca.” Aproveita e faz um biquinho com os lábios cobertos de batom vermelho e arremata, debochada: “Mas só de boca ninguém vai, né?”

Aos 92 anos, Bibi está em São Paulo para apresentar seu novo espetáculo, todo dedicado ao repertório de Frank Sinatra. “Não posso deixar de trabalhar. Não tenho reservas. Fora isso, tem gente da minha família que preciso sustentar. Mas para mim é muito bom. O trabalho é ótimo para a saúde.” No entanto, ar condicionado muito forte é péssimo. “Está frio aqui. Não posso ficar resfriada. Vou cantar daqui a pouco.” Faz um gesto como quem varre o ar com a mão. “Tira, tira, tira isto meu filho”, pede.

O “meu filho” é Nilson Raman, amigo e empresário há mais de duas décadas, que resolve a questão e ainda traz uma manta para Bibi. Já aquecida, com uma xícara de chá preto nas mãos e a coberta sobre as pernas, a atriz conta sua longa jornada noite e dia teatro adentro. Já cantou o repertório de Edith Piaf, ícone da canção francesa; de Amália Rodrigues, diva do fado; e de Carlos Gardel, o mais famoso cantor de tango. Mesmo assim, não se considera cantora. “Sou mais atriz do que cantora. Isso me dá um respaldo, fico na base do ‘olha, me desculpem, sou apenas uma atriz que canta’.”

Chegou a hora da “atriz que canta” encarar o repertório de mais um mito da história da música: Frank Sinatra, também conhecido como a Voz. Acompanhada por uma orquestra de 18 músicos, regidos pelo maestro Flávio Mendes, Bibi fica em cartaz em São Paulo até novembro no Teatro Renaissance. Vai interpretar clássicos como “Fly Me to the Moon”, “My Way” e “I’ve Got You Under My Skin”, mas fará, como diria Sinatra, do “seu jeito”. Como ele era fã de Tom Jobim e da bossa nova, suas versões de canções brasileiras também aparecem: “Water to Drink”, “Quiet Nights of Quiet Stars” e “Meditation” estão entre elas.

A ideia do projeto surgiu de uma brincadeira de bastidor em torno do “efeito Sinatra”, o medo do cantor de subir ao palco para cantar e a voz não sair. “Estou na minha praia. Sinatra é o show da minha vida. Porque, de tudo, o que mais gosto é da música americana.” Bibi é fluente em inglês. Estudou em escola britânica quando pequena e todas as disciplinas eram ministradas em língua inglesa, até a tabuada. “Duvida?” E começa a recitar contas cantadas em inglês.

No ano que vem Bibi planeja dirigir duas peças, lançar um box com cinco de seus discos e ainda levar o show de Sinatra para Nova York e Las Vegas. “A gente viaja muito. Todo o artista é itinerante por natureza.”

No ano passado, foi aplaudida três vezes de pé pelo público do prestigiado Lincoln Center, em Nova York, onde apresentou “Piaf”. Algumas de suas atuações parecem ser inesquecíveis para a plateia. É o que diz até hoje quem teve a chance de vê-la, há quatro décadas, na peça “Gota d’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes, uma adaptação da tragédia grega “Medeia”, de Eurípedes. Bibi era Joana, que mata os próprios filhos como vingança à traição de seu amado. Ciúme é um sentimento que Bibi conhece bem: “É do meu temperamento. Sou do tipo de mulher que pergunta demais. Muito ciosa.” Bibi tem uma filha, dois netos e bisnetos, e já foi casada cinco vezes.

“Acha muito? Faz as contas. Tenho quase 100 anos, 20 anos para cada marido”, diz, rindo. Um deles foi o dramaturgo Paulo Pontes, que a fez chorar “lágrimas de sangue”. “Ele se engraçou lá com uma pessoa famosa que não vou dizer o nome” e a abandonou. Depois de um ano voltou pedindo perdão.

Aceitou? “Fui ‘facinha’, não, tá louca?” Disse que já tinha sofrido o diabo e o despachou. No dia seguinte lá estava Pontes novamente. Só que, dessa vez, empunhando um revólver. “Uma 38”, diz com o braço no ar, simulando que carrega a arma. Colocou-a sobre o piano e ameaçou. “Daqui não saio. Se eu tiver que sair, mato alguém e depois ainda me mato.”

“Com uma 38, minha filha, quem não obedece?”, conta, rindo. E, antes que alguém questione a veracidade dos fatos, ela emenda: “Minha irmã viu tudo. Pena que ela não esteja aqui para confirmar a história”.

Coagida ou não, o fato é que o casal reatou e viveu junto até a morte precoce do dramaturgo, aos 37 anos, de câncer no pulmão. “Paulinho morreu nos meus braços. Ele era tão franzino. Fumou muito, teve uma vida de má alimentação, vivia praticamente a café. Uma vida errada e atribulada.”

Já Bibi procura se preservar ao máximo. Não toma bebida gelada nem alcoólica, não fala ao telefone, e em dia de show praticamente só abre a boca para cantar. “Quem for me ouvir merece o melhor.” Minutos antes de aparecer em cena, quando a orquestra já está prestes a anunciar sua entrada, a atriz costuma tomar um gole de café com manteiga, que lhe cai feito um tapete de veludo.

“Sou meio quadrada. Simples e disciplinada. Nós somos acrobatas da palavra. Vivemos na função de fazer o impossível com a garganta, de rir, de chorar e emocionar. Todo esse processo é também físico. Senta, levanta, lida com ondulações emocionais. Fazer um espetáculo é a mesma coisa que andar de Copacabana ao Leme.”

Bibi diz que não perde tempo com cismas ou “qualquer tipo de bobagem”. O negócio é reto. Vai lá e canta. Não tem segredo, apenas disciplina. E há também uma mãozinha lá do Todo-Poderoso. “Acho que sou escolhida por Deus, ele é meu amigo. Deus me protege muito, principalmente me dando capacidade de tomar conta de mim. Tomar conta do meu aparelho principal, que é a minha garganta, e também das minhas incertezas e dificuldades.”

O pai de Bibi foi o ator Procópio Ferreira, um dos maiores nomes do teatro brasileiro. Narigudo, baixinho, interpretava personagens cômicos, o feioso esperto que termina com a moça bonita. A mãe, Aída Izquierdo, uma bela espanhola, era bailarina de uma companhia de teatro de revista. Bibi só não seguiu nas sapatilhas, como a mãe, porque sabia de antemão que “não tinha pescoço suficiente para isso”.

Do lado materno, quatro gerações inteiras dedicaram a vida ao picadeiro. “Gente que sempre teve que lidar com intempéries.” Quando chovia, o espetáculo era cancelado, causando grande prejuízo. Era um tal de contorcionistas, palhaços e acrobata por todos os cantos que Bibi diz que não ia ao circo: “O circo já era a casa da gente”.

A única que fugiu à sina foi a avó Irma, que não tinha nenhuma aptidão artística. “Vovó alugou um camarote para assistir à vida. Ficou só olhando a gente casar, separar, chorar e fazer nossas besteiras.” Bibi interrompe a fala e pede para que Raman lhe dê o livro “Bibi Ferreira – Uma Vida no Palco”, fotobiografia que será relançada neste ano, aqui e nos Estados Unidos. Abre o livro sobre a mesa deste lanche da tarde e passa a apresentar o clã pelos retratos. No alto da página está um dos tios, o palhaço Chicharrão. Logo adiante, enfileirados, seus cinco tios-avós conhecidos como os irmãos Queirolo.

“Eles se apresentaram para todos os coroados da Europa”, conta, toda prosa. Continua a escrutinar a página até encontrar a foto em que aparece ao lado da mãe e da avó. “Esta aqui é a vovó Irma. Linda. A mais linda de todas. Olhe o porte dela. Me chamava de ‘mi neta, mi orgulho’. Quando Fiz ‘My Fair Lady’ [o primeiro musical no Brasil], minha avó ficou emocionadíssima. Teve que ser atendida, quase desmaiou no camarim”, relembra, enquanto acaricia por um longo tempo o rosto da mulher espanhola que olha altiva para a frente.

Vira a página e o assunto. Conta como foi sua estreia como atriz. Era miúda, não tinha um mês de vida sequer. Estava no teatro com os pais, que, no início de carreira, faziam uma ponta na peça. Faltava pouco para soar o terceiro sinal quando a atriz Abigail Maia, madrinha de Bibi e dona da companhia, entrou em pânico. Sumiu a boneca que ela precisava carregar, como se fosse um filho, ao entrar em cena. Foi aquela balbúrdia. Procura de lá, de cá, e nada. Antes que as cortinas se abrissem, alguém sugeriu: “Pega a filha do Procópio, que está no camarim”. Desde então, praticamente não saiu mais do palco. A mãe era corista da Companhia Velasco, de teatro de revista, e, já separada de Procópio, levava sempre a filha para o trabalho. “A gente morava no Chile. Garotinha eu via aquilo tudo, era bonito o teatro de revista. Muito cenário, muita luz, muita roupa brilhosa.”

No intervalo das apresentações, Bibi, com 3 anos na época, aproveitava o palco livre e deitava e rolava a imitar as protagonistas da peça. A plateia vinha abaixo de tanto rir. A miúda cantava e dançava zarzuelas com tamanha segurança “que acreditavam que eu era uma anã”. A brincadeira fez sucesso e foi incorporada ao espetáculo. Bibi ficou conhecida como “La niña de Velasco”.

A mesa está repleta de sanduíches, geleias, croissants e toda sorte de quitutes. Meticulosamente arrumados, parecem adereços de cena. Lindos, mas intactos. Raman estende uma das bandejas para Bibi, que recusa. Prefere ocupar a boca para falar da mãe.

“Mamãe era trabalhadeira, exigente e me amava muito”, diz com o indicador martelando sobre um dos retratos de Aída no livro. “Ela me deu o pouco que sei. Estudo e disciplina. Eu deveria estar sempre ocupada, não existia o ‘não estou fazendo nada’. Nunca. Tocava piano, violino, dançava e aos 15 anos já falava cinco idiomas. Devido a quê? Trabalho e estudo. Tudo isso foi da minha mãe.”

E do pai, o que herdou? “Meu relacionamento com meu pai foi mínimo. Convivemos pouquíssimo. Morei com minha mãe desde que me conheço por gente.” Raman, que ouve tudo atento, pondera, lá do outro lado da mesa. “Mas Bibi, Procópio foi até o Chile buscar vocês. Essa história saiu no jornal, lembra?”

O empresário se refere a uma reportagem do jornal chileno “La Nación”, de 1925, quando a atriz e sua mãe saíram da Companhia Velasco. “Um verdadeiro prodígio (…) Agora, Bibi está descansando, pois seu pai a retirou da revista para dedicá-la à comédia brasileira.”

Bibi olha de esguelha, por detrás dos óculos escuros, e responde com um riso maroto: “Meu filho, não é bem assim. Essa história foi contada de um jeito meio teatral. E nem pense que trabalhei muito com meu pai. Mal o via”. Como todo ator daquela época, em que não existia televisão e o teatro era o maior divertimento popular, Procópio passava longas temporadas em turnês pelo país. “Papai era carregado no ombro nas cidades aonde chegava. Era um homem adorado pelo povo. Tinha um poder de comunicação incrível, dominava uma plateia em um piscar de olhos.”

Procópio ganhava bem, mas gastava mais. Em noite de estreia, o ator tinha o costume de convidar toda a equipe para uma grande festa. “No leito de morte, perguntaram: ‘E aí, Procópio, você gastou tudo, não deixou nada?’ E ele: ‘Não me arrependo, faria tudo de novo’.”

Em 1941, em um desses reveses financeiros, Procópio, a conselho de um amigo, convidou Bibi para fazer sua estreia oficial ao lado dele na comédia “La Locandiera”, de Carlo Goldoni. Bibi já tinha sido notícia de jornal no Brasil quando vetaram sua matrícula no tradicional Colégio Sion. Motivo? Ser filha de artistas.

Certamente a presença de Bibi na peça chamaria novamente a atenção da mídia, levando mais público ao teatro. Bingo. A crítica foi tão entusiástica com a jovem de 18 anos que Procópio mandou imprimir uma brochura com tudo que saíra nos jornais sobre a filha. Um deles trazia o seguinte verso: “Um gênio tão novo/ Só de outro gênio é que vem!/ O pinto já sai do ovo/ Com a pinta que o galo tem!”

Bibi dá um gole do chá e então prossegue. Procópio insistia que ela, ao sair de cena no meio do espetáculo, ficasse na coxia de olho em tudo que se passava. Hábito que a acompanha desde então. “Gosto de assistir do bastidor, é um calor diferente, uma responsabilidade grande. É do lugar que você sai para encarar a plateia. Essa passagem coxia-palco é terrível, terrível. O controle é fundamental. Você tem que ter um domínio de si muito grande, uma concentração enorme e uma memória fora do comum para tudo isso se ajustar.”

Nunca lhe falhou a memória? Bibi descruza as mãos, que estão sobre a mesa. Com o indicador no ar e voz firme, articulando cada sílaba com clareza, responde: “Minha memória é fantástica. Se você quiser recito agora meu texto de estreia no teatro. Trabalho sem ponto. Sem ninguém”.

E trabalha muito. Em 1950, um incêndio no Teatro Carlos Gomes, no Rio, reduziu a cinzas todo o seu patrimônio. Bibi encenava “Escândalos”. Havia contratado dezenas de coristas americanas e argentinas. “Aquele mulherio lindo, jovem.” Um dia, às 11h30, o telefone de casa tocou. Do outro lado da linha uma voz aflita dava a notícia do incêndio. A atriz chegou lá a tempo de ver as labaredas saindo pelas janelas. Em poucos minutos, o fogo destruiu a casa de espetáculos, com seus cenários e o figurino luxuoso do espetáculo.

“Não sobrou partitura, não sobrou violino, não sobrou n-a-d-a”, conta, escandindo a palavra para dar dimensão da desgraça. “E toda aquela gente contratada eu tinha que pagar. Uma coisa tremenda. Perdi a casa, perdi tudo o que tinha, não sobrou o que perder. Fiquei muito abalada.”

Para saldar a dívida de 3 milhões de cruzeiros, segundo noticiaram os jornais na época, Bibi teve que trabalhar o dobro. “Fazia rádio de tarde, espetáculo à noite e boate depois da meia-noite. Enfim, uma vida dura, minha querida. Mas sempre achei natural continuar”, comenta a atriz, que hoje mora com empregados e o neto Fernando. “Minha neta não, ela mora com a outra avó. E minha filha às vezes passa uma temporada comigo.”

Raman insiste que Bibi prove ao menos um pãozinho. Ela recusa, mas aceita de bom grado uma Coca-Cola. A atriz tem em casa uma coleção de garrafas e latas do refrigerante. Garante que não fica nervosa para entrar em cena. O segredo é dominar todos os sentimentos e canalizá-los para o papel.

Ela torce o nariz para o método de interpretação que pede que o ator remoa sentimentos passados para usar nos personagens e ficar tomado por eles. “Teatro é técnica. Se não tiver técnica, vai fazer o quê? Sofrer todos os dias? Você aprende a fazer o público sofrer, não você. Por isso falo: o ator é um maestro. Põe ali a partitura e toca todos os dias a mesma coisa. E isso tudo vai do quê? Muito trabalho e estudo. Você tem que levar a memória, o intelecto para o campo do coração, o grande aliado. Isso não é algo que se aprende no colégio ou na faculdade. É complicado, uma experiência muito pessoal.”

Reza a lenda que Bibi dorme bem tarde e acorda por volta das 5 da tarde, confere? “Não mais. Agora estou acordando cedo, bem cedo. Por volta do meio-dia estou em pé. Vou até tarde lendo, é o que mais gosto na vida. Estou lendo ‘Doze Contos Peregrinos’, do Gabriel García Márquez.”

Bibi se “embriagou” de Coca-Cola, mas não se entusiasmou com a mesa do chá. “Ah. Essas coisas não me encantam.” E avisa: assim que sair dali vai pedir um sanduíche do McDonald’s, que será devorado durante o ensaio, que começa a seguir.

Raman comenta que, além da disposição física para dar conta de tantos compromissos, Bibi, aos 92 anos, mantém a “tessitura firme” da voz e de lambuja ganhou tons mais graves.

Bibi escuta só um trecho da conversa, entende que fizeram uma crítica a ela e vai logo avisando. “Eu não perdi agudo, não.”

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