A atualidade da Montanha dos Sete Abutres

Caro Tácito e amigos,

Considero Billy Wilder o maior cineasta da história. Tambem entendo que a Montanha dos Sete Abutres é atualíssimo e os mineiros do Chile não deixam mentir. Escrevi o texto abaixo publicado no belo livro 80 Cult. Compartilho com os colegas convidando-os para ler o livro com excelentes textos

Ética e Jornalismo: Quando Dizer a Verdade?

João da Mata Costa, damata@dfte.ufrn.br

A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole/The Big Carnival), 1951, Billy Wilder, EUA

Sinopse

Num pequeno vilarejo, repórter inescrupuloso aproveita acidente numa mina para forjar situação dramática, visando ganhar fama. Denúncia da chamada imprensa marrom, aquela que vive do sensacionalismo. A história, co-escrita e produzida pelo próprio Wilder, acaba afirmando que a imprensa dá ao público o que ele quer.

No cinema como na vida ninguém é perfeito. Billy Wilder foi quase perfeito. Um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos. Responsável por algumas das mais famosas cenas e diálogos do cinema. Em Ninotchka (1939), dirigido por Ernst Lubitsch – um dos grandes diretores do cinema e um dos mais admirados por Wilder – cometeu a proeza de fazer Greta Garbo sorrir. Foi o primeiro filme que a lendária atriz Garbo sorriu. A frase “Ninguém é Perfeito”, atribuída a Wilder, aparece no filme Quanto Mais Quente Melhor (1959), é de seu colaborador I. A. L. Diamond. Com Diamond, Wilder escreveu o roteiro de doze filmes. “ Uma boa colaboração para escrever é mais difícil conseguir que um bom casamento”, disse Wilder. (“Ninguém é Perfeito” – uma biografia pessoal, Charlotte Chandler ed. Landscape, 2003).
Numa das cenas mais famosas do cinema, Marilyn Monroe guarda suas calcinhas na geladeira, e se refresca com o vento que sai das grades do metrô.
A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole) é um dos maiores filmes do diretor austríaco Billy Wilder (1906- 2002). É mais uma obra prima desse diretor que deixou outros grandes marcos do cinema mundial, e algumas cenas e diálogos que fazem parte da antologia do cinema do século XX. Trabalhou em vários gêneros, em todos deixando sua marca de mestre absoluto do cinema: Pacto de Sangue (Double Indemnity), onde aborda o tema da infidelidade; Farrapo Humano (The Lost Weekend), ele trata do alcoolismo e Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) um retrato impiedoso do glamour Hollywoodiano, são algumas de suas obras primas que tratam de temas delicados. Filmes que fazem parte da melhor antologia do cinema mundial. Wilder também fez comédia (Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot), O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch), e suspense (Testemunha de Acusação (Witness for the Prosecution). Os diálogos irônicos e textos ferinos estão presentes em todos os filmes de Wilder.
Em A Montanha dos Sete Abutres, Kirk Douglas é Charles “Chuck” Tatum, um repórter desmoralizado e inescrupuloso que chega à pequena Albuquerque no Novo México (EUA) á procura por emprego, depois de ter sido expulso ou demitido de vários jornais importantes. “Eu posso cuidar de grandes notícias e pequenas notícias, e se não houver notícias eu saio e mordo um cachorro”, diz o irônico Charles Tatum ao pedir emprego no jornal de Albuquerque. Tatum debocha do quadro escrito “diga a verdade”, posto na redação do jornal. Tatum tinha intenção de passar pouco tempo em Albuquerque e, passado um ano, frustrado com o marasmo da pequena cidade onde nada importante acontece que possa virar um grande furo de reportagem, Chuck é mandado numa viagem de trabalho para fazer uma cobertura sobre a corrida de cascavéis.
No caminho, ao parar para abastecer o carro na pequena cidade de Escudero, descobre que Leo Minosa, dono do posto de gasolina está preso há algumas horas numa montanha próxima. Chuck muda de idéia e vê nesse incidente um rico filão jornalístico a ser explorado. Ele telefona imediatamente para seu patrão e diz que a reportagem vai ser sobre outro bicho: Abutre. É que a montanha em que Leo ficou confinado chama–se “Montanha dos Sete Abutres”, uma mina desativada, tida como mágica, onde anteriormente os índios eram enterrados, junto com o milho. Um roteiro foi inspirado numa história real, o soterramento de Floyd Collins em 1925, no Kentucky (EUA). O homem ficou enterrado, vivo, numa caverna durante dezoito horas. A imprensa marrom explorou minuto a minuto esse acontecimento, que foi transformado num circo.
A Montanha dos Sete Abutres acabou por se tornar um clássico sobre ética e jornalismo. O filme ocupa um lugar pioneiro na longa linhagem de obras que versam sobre a falta de escrúpulos da imprensa, sempre pronta a explorar uma tragédia em busca de audiência. A caracterização perfeita da personagem Charles Tatum (Kirk Douglas), o jornalista sem escrúpulos que descobre um humilde mineiro soterrado numa mina e atrasa deliberadamente o resgate para poder criar uma comoção nacional em torno do caso, é um dos exemplos do juízo crítico que Wilder faz da humanidade.
A esposa de Leo diz que está há cinco anos naquela pequena cidade, e sua diversão é olhar fotografias antigas. Ela pensa em ir embora, e Chuck a convence a não ir embora porque ela faz parte de seus planos no aliciamento em prol de seus objetivos politicamente incorretos. Além disso, o café será freqüentado por muitas pessoas que virão para conhecer o lugar da tragédia, e com isso ela ganhará muito dinheiro. De fato, o lugar se transforma num grande circo, com parque de diversões e muitos visitantes. Para passar na porteira que dá acesso ao local do soterramento é preciso pagar 25 centavos de dólares, quantia essa que vai aumentando com o maior afluxo de curiosos. O pai de Leo, em gratidão por Chuck ter ido visitar seu filho no interior da montanha e está providenciando o seu “resgate”, oferece-lhe o seu quarto de dormir. Chega o médico e a equipe de resgate, a previsão é que o resgate pode acontecer em menos de um dia. Tatum contrariado, diz: “ele é bem forte, não podia ser mais?”
Chuck consegue corromper a todos na execução de seus planos para se tornar um jornalista valioso. O xerife corrupto é facilmente chantageado em troca de publicidade que garantirá a sua reeleição: -“Em seis dias eu vou transformá-lo em herói”. A mulher de Mimosa, Lorraine interesseira e insinuante, é convencida a não ir embora. Até mesmo o fotógrafo é ironizado no seu curso de jornalismo, e acaba se convencendo das idéias de Tatum, abandonando seus princípios.
A certa altura, Lorraine tenta seduzir o jornalista que lhe dá duas tapas nas faces. “Seu marido está preso numa montanha e você esta preocupada – essa é a história”.
“- E você se interessa por Leo?”, pergunta a esposa, para responder: “gosta daquelas pedras tanto quanto eu”.
O filme é dirigido, produzido e co-escrito por Billy Wilder, que ainda toma parte na finalização da montagem. Portanto, Wilder tem domínio absoluto sobre o filme. O filme tem poucas locações; a montanha e os arredores, o posto de gasolina e a redação do jornal. Uma bela tomada panorâmica dos passageiros descendo do trem para se juntar aos outros curiosos, e a visão do circo de cima da montanha.
A Montanha dos Sete Abutres é um filme atualíssimo e um clássico sobre ética e jornalismo. Um filme didático sobre o fazer jornalístico que devia ser obrigatório em todos os cursos de jornalismo. O filme ocupa um lugar pioneiro na longa linhagem de obras que versam sobre a falta de escrúpulos da imprensa, sempre pronta a explorar uma tragédia, de preferência pessoal em busca de audiência. “Um homem preso numa mina é melhor do que 84 ou 840. Você lê sobre 84 pessoas, ou sobre um milhão, como na fome da China, e esquece. Mas, um homem é diferente: você quer saber tudo sobre ele”.
O desfecho da história é surpreendente, com a desolação e sombras que caem sobre a pequena e desolada Escudero. O pai de Leo é um ator coadjuvante com um desempenho estupendo, assim como a mulher de Leo, Lorraine (Jan Sterling), e Kirk Douglas numa de suas maiores atuações, no papel do jornalista Tatum.
Além de ter uma história atualíssima, o filme é perfeito do ponto de vista da técnica cinematográfica. Um filme em preto e branco, com um jogo de sombras e luzes deslumbrantes, excelente fotografia, roteiro e atores, dirigido e produzido por um dos maiores mestres do cinema de todos os tempos. Os diálogos de Wilder são perfeitos e nenhuma fala está fora do lugar ou tempo. Poderíamos analisar o filme só do ponto da narração e diálogos wilderianos de uma história muito bem contada e interpretada, mas estaríamos dizendo pouco. O filme é antológico e tecnicamente perfeito. A composição dos personagens e diálogos não deixa dúvida que se trata de um filme com a assinatura de Billy Wilder. Tatum, o personagem principal, é um escroque inescrupuloso com tremendo faro para notícias. Ele não precisa de mais do que alguns segundos para reconhecer o potencial noticioso do caso, ao parar para abastecer o carro durante uma viagem longa e chata. Enquanto manipula o xerife e a esposa interesseira (Jan Sterling) do mineiro soterrado, ele é corroído lentamente pelo remorso. Wilder ilustra este remorso de forma magistral, visualmente, através do figurino. Tatum passa a usar simultaneamente, da metade do filme em diante, cinto e suspensórios, fazendo uma relação direta com a frase que pronuncia para convencer o chefe honesto a contratá-lo, logo na primeira cena. O uso dos dois utensílios demonstra que ele, aos poucos, se tornou “um sujeito precavido e com algum senso moral”. O personagem passa por uma transformação, ao contrário do que ocorre com a protagonista feminina. Para Tatum tecer e melhor vender a história, manda a mulher rezar para que seja fotografada. A mulher responde, “eu nunca rezo, porque isso desfia minhas meias”. E ele responde: “você terá bastante dinheiro para comprar outras”.
Impossível não lembrar de Barbara Stanwick, em Pacto de Sangue (1945), que usando uma peruca loura, induz o marido a fazer um seguro de vida para matá-lo em cumplicidade com o próprio agente de seguros.
Gosto como você fala de mim nos jornais, diz a loura Lorraine para Tatum; “uma figura de cabelos dourados à sombra da maldição”. O marido enclausurado pergunta a Tatum se a mulher se lembra dele. Confessa que eles estavam passando por dificuldades no relacionamento, e que tinha um presente guardado para ela. Tatum entrega a echárpe para a esposa de Leo e ela não gosta, diz que é de couro de rato. Ele a obriga a usar e aperta o seu pescoço com a echárpe. Ao se descuidar é ferido mortalmente com uma tesoura pela mulher. Num final shakesperiano, na redação do jornal em que o jornalista havia sido contratado por mil dólares ao dia, Tatum ensangüentado diz, tombando: “eu valho mil dólares, pode ficar comigo por nada”.
Em 1951, Billy Wilder era um diretor de sucesso em Hollywood, já havia feito A Mundana (A Foreign Affair), Pacto de Sangue, Farrapo Humano, Valsa do Imperador (The Emperor Waltz). A Montanha dos Sete Abutres não logrou sucesso de público e de critica. A grande imprensa não quis se olhar no espelho e criticou veementemente o filme, chamando-o de “antiamericano”, de “mentiroso” e “cínico”.
O filme foi lançado com o nome Ace in the Hole, e depois ganhou o título The Big Carnival. Uma tentativa de disfarce que não funcionou, e o filme continuou sendo um fracasso de bilheteria, apesar de ser um dos maiores clássicos do cinema.

Ficha Técnica

Direção: Billy Wilder
Produção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, Walter Newman e Lesser Samuels
Estúdio: Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures
Diretor de Fotografia: Charles Lang
Música: Hugo Friedhofer
Cenografia: Sam Comer e Ray Moyer
Direção de Arte: A. Earl Hedrick e Hal Pereira
Figurino: Edith Head
Montagem: Doane Harrison e Arthur P. Schmidt
Elenco: Kirk Douglas (Charles “Chuck” Tatum), Jan Sterling (Lorraine Minosa),
Robert Arthur (Herbie Cook), Porter Hall (Jacob Q. Boot), Frank Cady (Sr. Federber), Richard Benedict (Leo Minosa), Ray Teal (Xerife), Lewis Martin (McCardle), John Berkes (Papa Minosa), Frances Domingues (Mamma Minosa), Frank Jaquet (Sam Smollet), Harry Harvey (Dr. Hilton), Geraldine Hall (Nellie Federber), Gene Evans (xerife auxiliar), Harry Harvey (Dr. Hilton), Frank Jaquet (Smollett), Bop Bumpas (apresentador de rádio), Geraldine Hall (Sra. Federber), Richard Gaines (Nagel), Paul D. Merril (garoto Federber), Stewart Kirk Clawson (garoto Federber), John Stuart Fulton (garoto), Robert Kortmann (escavador), Edith Evanson (Srta. Deverich), Ralph Moody (mineiro)
Gênero: drama, preto & branco, 111 min.

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Comments

There are 3 comments for this article
  1. Marcos Silva 31 de Agosto de 2010 14:52

    João:

    Eu não gosto do critério “é o maior” mas Billy Wilder é bom demais. Quem fez “Quanto mais quente melhor”, “Se meu apartamento falasse” e “Crepúsculo dos deuses” merece a máxima atenção.
    Abraços:

    Marcos Silva

  2. João da Mata
    João da Mata 31 de Agosto de 2010 15:12

    “No cinema como na vida ninguém é perfeito. Billy Wilder foi quase perfeito. Um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos.”

    do texto acima

  3. Maria Aparecida Anunciata Bacci 22 de Agosto de 2014 14:44

    Gostei muito do texto,acho que o tema é atualíssimo,todo a manipulação jornalistica da imprensa marrom é muito real ,já estragou com a vida de muita gente, quanto ao filme é realmente bom, o diretor Billy Wilder dirigiu magistralmente, e quanto ao ator é de primeira grandeza Kirk Douglas dispensa comentários, e ótimo em qualquer papel.

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