‘A balada de Adam Henry’

Título original: Com Ian McEwan, falar em domínio da narrativa é chover no molhado

Novo livro do britânico, ‘A balada de Adam Henry’ qualidade rara que o autor possui

Por Marcelo Moutinho
O GLOBO

RIO — Em não mais que 200 páginas, “A balada de Adam Henry” ratifica: quando se trata de Ian McEwan, falar em domínio técnico da narrativa é chover no molhado. Poucos autores contemporâneos escrevem de forma tão envolvente, têm tanta capacidade de recriar, com cimento ficcional, universos peculiares. No caso do novo romance, o do Poder Judiciário.

Fiona Maye, a protagonista, é juíza do Tribunal Superior. Atuando na área de família, notabilizou-se pela meticulosidade de suas sentenças, que costumam decidir conflitos intrincados. Gêmeos siameses devem ser separados para que um deles sobreviva, ainda que o outro vá morrer? A mulher casada com um judeu ultraortodoxo pode matricular as filhas em colégio laico, à revelia do pai?

Ao tempo em que se depara com questões como essas, Fiona enfrenta a própria crise familiar. O marido, após 35 anos de casamento, decidiu sair de casa para viver uma “grande paixão”. “Ela já sabia o nome da mulher. Melanie. Bem próximo do nome de um tipo fatal de câncer de pele”, observa o narrador que, embora em terceira pessoa, reflete a consciência da juíza.

O descompasso entre a algaravia íntima e o ofício profissional — exercido com tanta serenidade e rigor — é acentuado quando Fiona se vê diante do processo que envolve um jovem de 17 anos. Adam Henry sofre de leucemia. Caso não se submeta à transfusão de sangue, perecerá. Mas os pais são testemunhas de Jeová e não aceitam o procedimento, que o hospital intenta fazer mesmo sem consentimento da família. Cabe a Fiona autorizar, ou não.

Na ânsia de tomar a decisão mais acertada, a juíza acaba por se aproximar demais de Adam. Explodem, então, as fronteiras entre ofício profissional e vida íntima, que passam a se retroalimentar. Marca dos romances de McEwan, o dilema moral se estabelece. E, como em “Amor sem fim”, desdobra-se num embate que é também entre racionalidade e fé.

Bem integrada à trama, a pesquisa sobre os meandros do mundo jurídico não impede, porém, que o enredo padeça de algumas reiterações desnecessárias. Exemplo: o fato de Fiona, que domina o piano, não conseguir tocar jazz devido à fidelidade quase cega à partitura. Por isso, estudara Direito, informa o narrador. “Respeito pelas regras”, ele insiste, lançando ainda mais luz ao que estava suficientemente claro.

Esse pequeno senão, contudo, não chega a macular o livro, que traz outro tema caro ao autor: a potência dos acontecimentos fortuitos. “Nenhuma crueldade, nenhuma vingança (…). Nada mais que um gene transcrito erroneamente, (…) um elo químico rompido. Processo de perda natural tão indiferente quanto sem sentido”, diz a passagem sobre o nascimento dos siameses. Um segundo — e o abismo. Com a história de Fiona e Adam, Mc Ewan expõe mais uma vez a lava que corre sob nossas certezas.
“A balada de Adam Henry”

Ian McEwan

Cotação: Bom

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