A Barraca de Maria e Simplício

Nesse final de ano fez anos da morte de Maria. Dei uma passada na praia de Ponta-Negra e tudo muito sujo. Por onde andamos umas tristezas. Na via costeira esgotos a céu aberto e cinza saindo de um hotel. Nas calçadas da Roberto Freire todas arrebentadas temos que rezar para não tropeçar nas pedras portuguesas soltas.

Maria fazia rendas com seus bilros mágicos. Era uma das tantas Marias irmãs, tias e mães. Mulher de fibra curtida pela praia de Ponta-Negra. Moradora da vila era a Maria do Simplício. A sua barraca em Ponta-Negra era uma das minhas preferidas. Ali me sentia abrigado e feliz. Muitas vezes deixava a bolsa e ia caminhar. Depois tomava uma. Quantas horas passadas em sua sombra com as bênçãos de Maria. O caranguejo, o caldo de ostra e peixe eram regalos divinos. Rejubilávamo-nos com a sua culinária feita com muito carinho ao som das marolas e sol de Ponta-Negra.

Há pessoas que fazem parte da nossa culinária existencial. Maria era uma delas. O peixe-frito com macaxeira era o almoço. Ali onde a vista não cansava de ver as meninas. Passava os dias naquele vai-e-vem. A toalha ou esteira estendida na areia da praia era a cama dos meninos queimados de sol e sal. A barraca do Simplício era
ponto de encontro de amigos. Nem precisava agendar. Era só ir e encontrar. O final de semana estava garantido. Maria era como uma mãe. Quantas e quantas gargalhadas Maria não ouviu. Quantos segredos e briguinhas. Tinha também umas feiúras. Um dia uma amiga senta no meu colo e faz xixi.

Beliscões aos olhos indiscretos. Maria viu nossos filhos crescerem. Simplício era baixinho e célere no atendimento. Atendia tão rápido quanto tomava umas e outras. Morreu muito novo. Uma beleza de pessoa. A barraca ficou. Maria ficou só. Não, Maria ficou com seus bilros e segredos. Maria enganava as horas rendando. Encontrava-a nas feiras de artesanatos e eventos culturais. Sempre tranqüila e sorridente. Quando passava ela chamava, Joooããzinhooooo. Era como se estivesse chamando um tempo que passou.
A renda era a sua companhia de todos os momentos. Tecia flores e armava labirintos. Nem sabia que ela estava doente.

Uma amiga falou de sua doença e eu ia passar no quiosque de Simplício para saber notícias. Abro o jornal e vejo um daqueles quadrinhos-anuncio de morte. Simplício (in memorian) e familiares chamavam para missa de sétimo dia de falecimento ocorrido no
último dia de 2008. O dia em que a praia de Maria se encheria de gente para saldar o ano novo. Com Maria foi uma parte de mim e de Natal. Na próxima feira de artesanato não vou mais encontrá-la e as feiras perderá um pouco seu encanto, assim como a praia de ponta-negra não é mais a e mesma sem aquelas belas barracas.

O quiosque de Simplício ainda está lá perto do Morro. Lindalva era uma outra barraqueira que morreu há pouco tempo num acidente de carro. Meu querido Toinho morreu. Ponta-Negra definitivamente não é a mesma. E eu fico sem graça. Sem Maria. Natal e Ponta Negra esta mais triste!

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