A Batalha de Oliveiros com Ferrabrás como elemento fecundador da literatura de cordel e da imaginação.

Caro amigo Alex:

Gostei muito de sua resenha. O cordel da “Batalha de Oliveiros com Ferrabrás’, de Leandro Gomes de Barros, é um cordel pioneiro da nossa rica literatura de Cordel. Leandro foi o maior escritor de literatura de cordel e o Klévisson Viana um excelente cordelista moderno que soube verter igualmente bem o Quixote e a Batalha de Oliveiros como Ferrabrás, como parte da grande novela do Imperador Carlos e os Dozes pares da França. Esse livro é citado no D. Quixote e sobre isso escrevi em artigo publicado nominuto do qual o nobre amigo era um dos editores. Pena que meu artigo não foi referenciado. Essa novela fecundou a imaginação de muitos escritores brasileiros que tinham esse livro como uma de suas bíblias. Zé Lins do Rego disse que aprendeu a temer mais a Deus lendo o Carlos Magno do que lendo o catecismo.

Volto ao meu texto.

o Romanceiro Ibérico, a literatura de cordel do Nordeste recebeu forte influência. A literatura de cordel está, inicialmente, ligada a Romances ou novelas de Cavalaria, histórias de amor, narrativas de guerras, etc. Posteriormente foram incorporados fatos recentes e acontecimentos sociais.

Na Espanha, a literatura de cordel era chamada de “pliegos sueltos” (folhas volantes). Na França, literatura de colportage. Das novelas citadas por Cervantes, o Bernardo del Carpio fez muito sucesso no Brasil e vinha como capítulo final do Carlos Magno e os 12 pares de França (Flaviense RJ s/d ). Tenho uma edição em ‘tres pliegos’, do séc. 19, da História Verdadera Del Valiente Bernardo Del Carpio (Madrid 1879).

Ainda no século 19, eram editados em ‘pliegos sueltos’ o Orlando Furioso, Los siete Sabios de Roma, Bastardo de Castilla, Historia de Oliveros de Castilla, El Cid Campeador e outros. O que mostra a vitalidade e perenidade do gênero de cavalaria na Espanha.

No século 20, foram impressos no Brasil muitos folhetos de cordel com as histórias de cavalaria, principalmente o Carlos Magno, cuja história alimentava o imaginário das crianças e estimularia futuros escritores, como aconteceu com José Lins do Rego, que com Carlos Magno aprendeu a temer mais a Deus do que com o catecismo. “Que grande coisa era ser cristão, filho legítimo de Deus, e brigar com os mouros, turcos, os infiéis” (Rego em Doidinho, 1976).

Dom Quixote cita a princesa Megalona na história de Pierres y la Linda Megalona. No entremez (farsa burlesca) Pedro Urdemallas, escrito por Cervantes, esse personagem corresponde ao nosso Pedro Malazarte. O Retábulo das Maravilhas é inspirado num conto folclórico antigo. Um enganador profissional que exibia para diversas pessoas uma pintura capaz de identificar os que fossem bastardos. A propriedade desta pintura era ser invisível apenas para os bastardos. Os personagens simulam o tempo todo dizendo ver o que não vêem.

No ano do quarto centenário do Quixote (2005), saíram dezenas de edições novas, inclusive em cordel. O renomado escritor e ilustrador J. Borges (1935) escreveu uma versão do Quixote, com ilustrações do também pernambucano Jô Oliveira. Começa assim o Quixote de J. Borges:

Existia uma grande aldeia
igual a outras que havia
e lá tinha um fidalgo
magro, mas sempre comia
carnes, fritos e lentilhas
ovos e tudo que existia.

Lia tanto que ficava
delirando a vida inteira
e via em sua frente
bruxos, dragão, feiticeira
combates e desafios
que terminavam em asneira.

Dom Quixote luta com os cangaceiros do nordeste e Dulcinéia (sua amada imaginada) vira Maria Bonita.

Lutou com os cangaceiros
perdeu na luta maldita
pensou ser a Dulcinéia
que seu coração palpita
mas quando levantou
era Maria bonita.

Dom Quixote pede para que lhe passasse o ungüento de Ferrabrás, pois tava todo ferido da luta com os cangaceiros. Depois, D. Quixote luta com o cavaleiro da Branca Lua, em Campina Grande. Nesse episódio, um dos mais comoventes, D. Quixote perde a batalha.

O cavaleiro da Branca Lua era o seu amigo Sansão Carrasco, que lutou para que o Quixote vencido voltasse para casa, como havia sido o trato que é cumprido rigorosamente pela cavalaria andante. D. Quixote volta para casa e passa ser novamente Alonso Quijano. Logo morre, pois sua vida era o pelejar e lutar contra as injustiças do mundo.

Outra versão cordelizada, adaptada do Quixote, foi feita pelo cearense Antônio Klévisson Viana, poeta popular, cartunista e tesoureiro da Academia Brasileira de Cordel.

As aventuras de D. Quixote em versos de cordel (Klévisson Viana):

Espanha belo país
foi lá que viveu Miguel
De Cervantes, que escreveu
Com nanquim, pena e papel
A história de Dom Quixote
Que eu refiz em cordel.

O Autor pergunta quem foi D. Quixote, para concluir que:

– Quem ler o livro / tira algumas boas lições.

Quem foi esse Dom Quixote?
Foi um louco, um sonhador?
visionário ou lunático
em um mundo enganador?
ou foi alguém que buscava
Pra vida um real valor?

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Alex de Souza
    Alex de Souza 6 de Novembro de 2011 11:28

    Caro João,

    Perdoe aí a inguinorãça sobre seu artigo, mas jamais foi minha intenção ser exaustivo sobre qualquer assunto, imagine esse aí, com uns sete séculos de fortuna crítica.

    Ademais, para isso está aí a internet, este monstruoso repositório de comentários e conhecimentos, no qual você pôde contribuir para o tema com esse mundão de informações.

    Abraço.

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