À beira da solidariedade

Por Janio de Freitas
FSP
A falta da devida reação do Brasil parece mais solidariedade à ditadura Mubarak

DITADURAS, como os jornais, têm morte lenta. E, talvez, não faltem semelhanças entre alguns dos motivos que as encerram e os fecham.

Mesmo um levante à maneira dos que reavivam o mundo árabe, ocorrido de um momento para outro, não é repentino. Vem de um processo de saturação lento e provocado pela contradição entre o proporcionado e o necessário ou desejado.

Nas ditaduras, como nos jornais, a morte acomete, a rigor, muito antes de sua ronda ser uma evidência fácil. Não que omita indícios: são sutis, apenas.

É curioso que, no caso das ditaduras, os governantes de outros países estejam sempre entre os últimos a perceber os sinais. Deve ser o sentimento de poder indestrutível, fruto de sua própria ilusão.

Não é novidade que o presidente dos Estados Unidos critique a CIA e os tantos serviços de espionagem militares e civis, por nem pressentirem na Tunísia e no Egito algo a informar às suas cidadelas. O mesmo se deu com os serviços europeus.

O governo brasileiro caiu em um torpor penoso. A nota afinal emitida foi tão insignificante que passou sem ser percebida, não mais que referência, quando chegou a sê-lo. Também no caso da Tunísia, mas sobretudo no do Egito, estarem os fatos no estrito âmbito interno, e portanto aquém de manifestações públicas do governo brasileiro, não é argumento sustentável factual, moral e historicamente.

Inúmeras razões integram os acontecimentos egípcios na política internacional, e mesmo nas relações comerciais que cruzam o planeta.

Não é justificável que, diante de um movimento com tais implicações, o Brasil se mostre catatônico – e quando já se pretende partícipe do pequeno círculo de decisões mundiais. E, afinal de contas, se o Brasil, que ainda lida com feridas deixadas por sua ditadura, tem com a democracia e os direitos humanos o compromisso citado por Dilma Rousseff na posse, a omissão é um desmentido do governo a si mesmo.

Sim, o Brasil tem interesses comerciais a considerar. Mas, antes de tudo, não têm tal dimensão, com o Egito, que representem necessidade de Estado, a ponto de sobrepor-se a tudo mais. E ter posição e iniciativa, na possível ação internacional para atenuar a gravidade humana do confronto egípcio, não excede a ação legítima de uma democracia.

A atitude do governo diante da hostilidade aos jornalistas brasileiros, por parte do governo do Egito, é consequência extrema da sua omissão. Não por serem jornalistas, mas por serem brasileiros em situação legal e manterem conduta correta como estrangeiros, os hostilizados, saqueados em seu equipamento e bagagem, invadidos em seus quartos, induzidos a deixar o Egito, em nenhum caso levaram o governo brasileiro à reação forte e eficiente, que é de sua obrigação.

Já como jornalistas, estavam todos em exercício profissional sujeito a princípios internacionais. Não os transgrediram, e o governo egípcio nem os acusou de tal, para tratá-los como delinquentes. A falta da devida reação do governo brasileiro assemelha-se a solidariedade à ditadura Mubarak.

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