A bela mania de ser quem se é

Num mundo cheio de tangibilidades escassas, é de dar gosto encontrar alguém que celebre a mania de ser o que se é. Dostoiévski diria em um dos seus romances mais famosos, O idiota, que o pior xingamento do mundo não é “burro”, mas, sim, “comum”. Realmente, segundo o autor, ninguém mesmo gosta de ser ordinário, mais um entre tantos.

Acredito, no entanto, que o belo da vida é poder ser quem se é e encontrar a sua própria felicidade (nossas pequenas felicidades transitórias, nenhuma felicidade é permanente) a partir disso, sem preocuparmo-nos se estamos sendo ordinários ou não, se reproduzimos clichês, se nossos gostos musicais são demasiadamente comuns. Há muitas maneiras de construir o nosso “eu”, é claro, mas o interessante mesmo é levar o que nos cabe com leveza.

Curiosamente, é nesse mesmo livro, O idiota, que encontramos numa passagem o preço às vezes caros por ser quem se é: o Príncipe Míchkin olha ao seu redor e se sente alheio a tudo, porque é extremamente autêntico. Por ser tão verdadeiro, para alguns poucos, ele é belo de coração; todavia, para muitos outros, um completo tolo. Recordo-me da música A Revolta dos Dândis, de Engenheiros do Hawaii, em que o eu lírico “sente-se um estrangeiro, passageiro de algum trem, que não passa por aqui, que não passa de ilusão”.

Jefferson Turibio me parece estar pronto para anunciar o “eu” mais bonito que lhe compete. O preço que pagará não sabemos, mas na poesia certamente não será nenhum, apenas colherá o belo. E um belo senciente, capaz de não confundir “a mania de ser” o que ele é com a “mania que tentam criar” dele. Está disposto a renegar o seus “não-eus” e recomeçar, acolhido por versos de Marize Castro e pela poesia, essa musa redentora, essa mania, sim, plausível e completamente brilhante.

Nada na vida, no entanto, é totalmente rápido e a descoberta de si mesmo pode nos levar a chorar “sem saber o porquê” e às vezes mergulhar “dentro do oceano” que mora em nossa testa. Os processos às vezes demoram um pouquinho, Jefferson, e está tudo bem. A poesia e o poema são mesmo “cismantes em não habitar dentro de suas caixas” e às vezes escorrem, escorrem. Mares e mares. Melancólicos. Mas também bonitos.

Faça sempre o exercício de “trocar as coisas de lugar”, troque os livros, os móveis, rebobine o cérebro, viva bastante, coma a “janta no café” e mesmo assim beba o café. Não sinta “fome com o inverso” e tome “um banho dentro de um copo d’água”. Sem preocupar-se em ser ordinário ou não, apenas seja. Porque você é uma Melanomania intensa.

Não tenho o cacife de Dostoiévski, mas, deixando um pouco de lado os xingamentos, particularmente adoro dois elogios: “você é corajoso”, “você é brilhante”. E Jefferson, sua poesia cumpre esses dois papéis.

Ilustração: Elizabeth Wong

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Ana Clara Pinheiro 20 de dezembro de 2020 17:24

    Palavras incríveis sobre esse trabalho maravilhoso. Muito emocionada de ver isso acontecendo.

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