A Bíblia de Crumb

crumb - a bibiliaDe Moacy Cirne, em seu Balaio Vermelho:

“Rio de Janeiro, 1971: através das páginas da revista francesa alternativa Actuel, estabeleci o meu primeiro contato com os então quase desconhecidos comix, um dos ícones da contracultura americana, ao lado de outros símbolos que marcaram toda uma época, na música, no cinema, na literatura. E os quadrinhos que surgiam – HQs de Crumb, Shelton, Moscoso, e sobretudo Corben (este, dentro de uma perspectiva diferenciada) – me faziam repensar a grafia dos comics. Depois, o contato com a mitológica Zap, incluindo o seu famoso número “0”, era mais do que um simples contato: era a descoberta de um novo mundo.

Por vários motivos, então, esperava-se com ansiedade o Gênsesis de Robert Crumb. E é verdade: o seu grafismo peculiar (com pinceladas neogrotescas e mulheres “avantajadas”), a sua sutileza temática e o seu clima eventualmente irreverente (na época da contracultura, muitíssimo mais irreverente) marcam presença, em partircular formatação gráfica. E uma adaptação de obra literária, sobretudo de uma obra literária tão complexa quanto o Gênesis, escrita por autores anônimos (entre os quais uma possível e misteriosa Javista), não é para qualquer um. Mas Crumb soube enfrentar o “o problema” com galhardia.

Só que, analisando de forma mais fria, de forma mais equilibrada, há também uma certa frustração: Gênesis está longe dos melhores momentos quadrinhísticos de Crumb. Seu grafismo, para quem conhece a obra crumbiana, já se faz repetitiva, sem a ousadia icônica dos velhos tempos; a leitura do primeiro livro da Bíblia é mais literal do que em princípio deveria ser (cf. o episódio de Sodoma e Gomorra); a própria figura de “Deus” é por demais “bíblica”, é por demais “humana”. Neste particular, o Mr. Natural, do próprio quadrinhista alternativo, era muito mais interessante. Resumindo: há, aqui, um “respeito” decepcionante ao texto original, apesar de certas variações pouco ou quase nada convencionais. Mas, a rigor, são variações tímidas. Enfim, o melhor Crumb ainda é o dos anos 60 e 70, quando realizou alguns quadrinhos antológicos.

Gênesis, de Robert Crumb. Trad. Rogério de Campos. São Paulo: Conrad, 2009, 226p.”

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