A biografia de Bob

Por Marcia Tiburi
NA REVISTA CULT

A questão biográfica faz parte da história de vida do músico em um sentido essencial

Mais do que motivo de festa para os fãs, os 70 anos de Bob Dylan, completados neste ano, fazem a ocasião para avaliar o sentido de uma vida como biografia. Não me refiro à biografia como peça de mercado, seja na forma de livro, seja na de audiovisual (os fãs podem se emocionar lendo e assistindo ao disponível nas melhores lojas), mas à biografia como aquilo que, da vida, constitui o que pode ou merece ser contado.

Biografia significaria a chance de algo para contar em tempos de morte da narrativa sobre alguém ou sobre si mesmo. De que é feita essa narrativa? O que nos diz uma vida que pode ser narrada quando a produção industrial da tagarelice, do dizer vazio de quem muitas vezes ainda nem viveu, extermina o sentido de uma vida que pode ser contada? A desvalorização do que, ao ser vivido, poderia constituir um sincero testemunho para quem não sabe muito da vida desaparece diante do endeusamento de quem fala demais sem ter nada a dizer.

Pode parecer trocadilho, mas é fato que a desvalorização das histórias de vida – inclusive pela valorização das histórias sem vida e das vidas sem história – que mesmo assim são contadas corresponde a uma desvalorização da vida como história.

Dylan – o artista cujas canções em grande medida são, elas mesmas, narrativas – é um bom exemplo para pensar no caráter fundamental da biografia como modelo de vida. Não como curiosidade, cuja versão decadente é a fofoca, nem como mero paradigma a ser imitado por aqueles que não descobrem a si mesmos, mas como compreensão de um testemunho por meio do qual somos capazes de pensar a nós mesmos.

Uma pergunta pode servir de dispositivo reflexivo neste momento: o que temos a dizer sobre o que experimentamos no tempo de nossas vidas? No futuro, teremos algo a dizer?

Dylan Thomas

A questão biográfica faz parte da história de vida de Bob Dylan em um sentido essencial. Quando ele decide assumir o nome do poeta Dylan Thomas e abandona Robert Allen Zimmerman, seu nome de família, o que acontece é uma espécie de batismo. Do artista que procura um nome mais semelhante ao que se expressa por meio dele sabendo que o nome é como uma tatuagem que marca e simboliza.

Tão especial quanto o nome que “marca” a relação intensa com a poesia na vida de Dylan é também a pessoa que marca. E Dylan tem uma história importante com um ídolo juvenil, o músico folk Woody Guthrie. Como na troca de casca da cigarra, Robert Allen Zimmerman tornou-se Bob Dylan por meio de sua admiração pelo músico que ele queria ser. Woody Guthrie é o exoesqueleto de Bob Dylan.

A biografia de Dylan implicava que, de certo modo, ele continuasse o que Guthrie fazia com seu violão, uma espécie de instrumento autoexplicativo pela legenda usada por Guthrie: “máquina de matar fascistas”. De certo modo, foi isso o que Dylan fez ao longo de sua vida.

Estamos diante da função mimética da influência. Um ídolo, alguém que se admira, é alguém que se copia consciente ou inconscientemente. A adoração que alguém tem por outra pessoa, bem aproveitada, pode ser um bom caminho de autocompreensão: “Diz-me quem contemplas e dir-te-ei quem és”.

Mas nem tudo é sempre tão bonito como foi para Dylan, fã de Guthrie. Aquele que se coloca na posição de fã muitas vezes precisa ser ajudado a ultrapassar sua própria condição, pois a fixação na personalidade de outrem pode deixar de ser um caminho de autoconstrução e tornar-se autodestruição da própria potência de ser quem se é.

A relação da palavra fã com o fanatismo não deve ser esquecida. Assim como o ódio por alguém que não conhecemos é autoprojeção, o amor como fixação também o é e, na verdade, não é amor nenhum, mas mero estranhamento de si que se explica na falta de autovalorização.

O exemplo de Dylan em relação a Guthrie define uma história de continuidade e superação. História de respeito em que a autossuperação vem significar uma vida que vai além de si mesma. O discípulo passa a ser herói de sua própria individuação.

É a experiência única da própria individuação e suas metamorfoses que precisa encontrar palavras nos dias de hoje. E essas palavras estão longe da tagarelice fabricada e consumida como verdade nestes tempos antibiográficos.

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