A Bossa Nova , Noel Rosa e outras Velhas Bossas

A Bossa Nova cinquentona já tem as histórias
dos seus protagonistas e grupos  resgatadas num belíssimo e
antológico livro escrito pelo jornalista Ruy Castro. É mais que urgente
não esquecer de outras bossas e de outras batidas que marcaram para sempre
a linha evolutiva da música popular brasileira. Em 1958, João Gilberto
gravaria um disco-compacto que continha a música Chega de Saudade. O LP
com esse mesmo título era lançado no ano seguinte, 1959. Em suas
bodas-de-ouro podemos dizer que a bossa-nova teve um belíssimo casamento
com o público e a qualidade, atestada e consagrada internacionalmente.
Grandes músicos e interpretes da música universal gravaram a música de
João Gilberto e do seu maestro soberano, Tom Jobim. A bossa nova continua
viva e bem presente no repertório de grandes intérpretes da verdadeira
MPB. Uma prova disso é o recente disco da cantora amapaense Fernanda
Takai, cantando as músicas consagradas pela eterna musa da Bossa Nova,
Nara Leão (1942-1989) Novos arranjos e cantores surgem a cada ano. A
música popular é a prova mais autentica da nossa criatividade e
musicalidade. A Bossa Nova é resultado de uma linha evolutiva que teve
grandes intérpretes e músicos fabulosos. Em 2008, também se comemora o
centenário de um dos nossos maiores músicos e poeta: Cartola.
O brasileiro, sempre muito criativo no seu jeito de ir batucando a vida,
tem sido muito pródigo na criação de novos ritmos e instrumentos para
expressar a sua bossa, ginga e musicalidade.
Mário Reis, cantando as canções de Sinhô – “O Rei do Samba” -, no final da
década de 1920, inaugurou um novo jeito de cantar o samba, sem as
impostações e malabarismos dos cantores da época, que revolucionaria a
interpretação brasileira. Seu modo de cantar elegante e com uma voz cheia
de nuances, inflexões e muita bossa, antecipou em 30 anos os padrões
musicas da bossa nova.
Noel Rosa, um dos mais importantes compositores da música popular
brasileira, mostrou com muita graça, ironia e bossa que é possível cantar
sem muita voz quando o samba “nasce do coração”. Em coisas nossas o “Poeta
da Vila” já mostrava que a bossa é muito nossa:

“O samba a prontidão e outras bossas
são nossas coisas… são coisas nossas…”

Na gravação de “gago apaixonado”, em 1931, Noel teve o acompanhamento
originalíssimo de Luiz Barbosa, batendo um lápis nos dentes:

“Mu… mu … mulher em mim fi… fizeste um estrago
Eu de nervoso esto… tou fi… ficando gago”

Esse mesmo Luiz Barbosa que acompanhou Noel na gravação de “gago
apaixonado”, foi um dos introdutores do “breque” no samba e criador de um
dos instrumentos de percussão mais singulares da MPB, o chapéu de palha.
Com muita bossa e balanço, Luiz Barbosa, mostrou uma nova forma de
interpretar o samba que faria escola. Uma de suas grande interpretações,
foi o samba Risoleta, de Raul Marques e Moacyr Bernardino.

“Eu vou mandar prender
essa nega Risoleta
que me fez uma falseta
e me desacatou
porque não lhe dei o meu amor
( isso é conversa pra doutor) ”

Este samba também fez muito sucesso nas vozes de outros cantores de bossa
e da malandragem: Jorge Fernandes e Moreira da Silva. Luiz Barbosa faleceu
em 1938, com apenas 28 anos de idade, mas a sua invenção não ficou
esquecida. Outro grande intérprete do samba carioca, cheio de picardia e
muito molejo, chamado Dilermando Pinheiro, adotou o chapéu de palha como
instrumento de percussão para acompanhar com muita bossa as suas
interpretações. Comprou um “chapéu de palhinha”, que chamou de
“stradivarius”, e saiu cantando por mais de 20 anos. Junto com Ciro
Monteiro, formaria uma das duplas mais famosas de sambistas do Brasil: “A
dupla onze”, assim chamada devido a magreza de ambos. Depois Ciro
engordou, e a dupla passou a se chamar “Dupla 10”.
Para finalizar essa pequena mostra da bossa brasileira, um destaque para
uma das figuras mais bondosas e queridas da Música Popular Brasileira,
Ciro Monteiro. Ele não usou o chapéu de palha de Luiz Barbosa e
Dilermando, mas de acompanhava de uma inseparável “caixa de fósforos”. O
seu primeiro grande sucesso, lançado em 1938, se tornaria um dos grande
clássicos da MPB, “se acaso você chegasse”, música dos compositores
Lupiscínio Rodrigues e Felisberto Martins. A sua forma alegre de cantar,
descontraída e com muito ritmo, influenciou muitos outros cantores. Na
opinião de Vinícius de Moraes, ele foi o maior cantor brasileiro de todos
os tempos e, junto com João Gilberto, foram não somente os descobridores
máximos de divisões e síncopes inéditas na música popular carioca, mas os
artífices pacientes e laboriosos de um modo de cantar o samba que dá a
impressão a quem os ouve, de que qualquer pessoa pode cantar. “Eles
trabalharam o ponto mais próximo da perfeição, que é aquele onde mora a
simplicidade”.
O octogenário Miltinho é um verdadeiro herdeiro desse jeito de cantar e
bossar. No seu mais recente disco, pode-se comprovar a beleza das
síncopes e divisões eternizadas pela bossa nova, e que teve em Mario Reis
e no próprio Miltinho os seus precursores.

Noel Rosa e seus amores

“ quem é você que não sabe o que diz / meu Deus do céu que palpite infeliz. ”

Noel Rosa, assim como Braz Cubas, não deixou aos filhos que não teve o legado da sua pobre existência física. “Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém / eu vivi devendo a todos, mas não paguei a ninguém/ meus inimigos que hoje falam mal de mim / vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim”.
De Braz Cubas sendo comido pelos vermes é também a certeza que as morenas sestrosas vão ser comidas pela terra. Noel era assim – mesmo- uma apaixonado pela vida e um grande humorista da MPB que ele ajudou a consolidar. E quem ri melhor, é quem ri por fim.

Nascido a fórceps com um defeito no queixo. Foi apelidado
de “queixinho” e viveu a vida – boêmio em menos de 27 anos.

A partir de uma paródia ao Hino Nacional, compõe “Com Que Roupa?”, seu primeiro grande sucesso. Aos 19 anos já é famoso e vende milhares de discos. Torna-se ídolo do rádio, é aclamado “filósofo do samba”.
O grande sambista Wilson Batista apelou quando o chamou de “Frankstein da Vila” em música que fez parte da celebre disputa musical travada entre dois dos maiores sambistas brasileiro. Boêmio de muitos amores, Noel trocou a medicina pelo samba e compôs quase três centenas de clássicos da MPB. Dos seus conhecimentos como acadêmico de medicina ele compôs o anatômico samba “Coração”.
Foi diplomado em matéria de sofrer e no samba. Em o “X do problema” ele mostra as suas credenciais: eu fui educado na roda de samba, eu fui diplomado na escola de samba, sou independente conforme se vê.
Participa de uma linha evolutiva que tem início com o “Boca do Inferno”, passa pelo Sargento de Milícias e deságua na melhor musica popular universal brasileira. Como cronista canta a alma feminina e, décadas depois, terá um herdeiro da estatura de Chico Buarque de Holanda.
Sua primeira composição foi Minha Viola (Minha Viola ta chorando com razão / por causa de uma marvada / que roubou meu coração ). Influencia da música nordestina que chegava ao RJ. Rio de Janeiro, cidade mulher, cantada por Noel – um dos grandes cronistas de uma época em rápidas transformações. O cinema falado estava chegando e Noel canta as transformações que aquilo ia provocar na fala do malandro e seus Alô Boy.
O poeta da vila teve grandes parceiros da estatura de Cartola, Braguinha (João de Barros) e Lamartine Babo . Com André Filho fez Filosofia. Com o grande poeta Orestes Barbosa compôs Positivismo. Com o pintor e sambista Heitor dos Prazeres ele fez Pierrot apaixonado.
Um dos seus mais profícuos parceiros foi o paulista do Braz Oswaldo
Goliano ( Vadico ), com quem compôs os célebres “Feitiço da Vila”,
“Feitios de Oração”, “ Só pode ser você” , etc.
Quem nasce lá na Vila/ nem se quer vacila / ao abraçar o samba, / que faz dançar os galhos do arvoredo/ e faz a lua nascer mais cedo.

Noel Rosa – Poeta da Vila.

Primeiro filme do designer e cineasta Ricardo Van Steen foi um dos filmes exibidos no 18º FestNatal. A história de um dos maiores compositores brasileiro de todos os tempos. Noel nasceu com um defeito no queixo e carregou essa chaga por toda a sua breve vida de boêmio vivida em menos de 27 anos. O grande sambista Wilson Batista apelou quando o chamou de “Frankstein da Vila” em música que fez parte da celebre disputa musical travada entre dois dos maiores sambistas brasileiro. Boêmio de muitos amores, Noel trocou a medicina pelo samba e compôs mais de duas centenas de clássicos da MPB: Pierrô apaixonado, Pastorinhas, O orvalho vem caindo. Feitio de oração. Não tem tradução. Pra que mentir. Conversa de botequim. Três apitos. Dama do cabaré. Palpite infeliz, Último desejo, Fita Amarela, etc. Com o seu grande parceiro Vadico ele compôs “Feitiço da Vila”;

Quem nasce lá na Vila/ nem se quer vacila / ao abraçar o samba, / que faz dançar os galhos do arvoredo/ e faz a lua nascer mais cedo.

Um elenco primoroso de atores conhecidos e desconhecidos. Noel Rosa é vivido pelo excelente ator Rafael Raposo e Ceci (a dama do Cabaré) é protagonizada pela esfuziante e bela Camila Pitanga. Noel conhece o compositor Ismael Silva (Lazaro Ramos) – jogando chapinha, e entra definitivamente no mundo do samba e da malandragem. Conhece Cartola e outros grandes sambistas.

Noel foi um estudante de Medicina, e com base nesse conhecimento adquirido compôs o grande samba anatômico “Coração”. Tocou no famoso Bando dos Tangarás, um regional com jovens do seu bairro. Nesse conjunto participava o grande compositor e violonista norte-rio-grandense Henrique Brito.

Uma de suas interpretes mais famosas e queridas foi a cantora Aracy de Almeida que gravou dezenas de sucessos do genial compositor.

Um de seus últimos sucessos é a antológica canção “Último Desejo”, em homenagem ao seu grande amor, Ceci.

Último Desejo / Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço, e que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete, sem retrato e sem bilhete,
sem luar, sem violão
Perto de você me calo, tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga pedir que você
lhe diga
Se você me quer ou não, diga que você
me adora
Que você lamenta e chora a nossa separação
Às pessoas que eu detesto, diga sempre que eu não
presto
Que meu lar é o botequim, que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida que você pagou pra mim

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 8 de setembro de 2014 23:42

    Os nossos grandes sambista vem de um tempo,muito germinativo,para nossa musica,como Noel Rosa, Cartola e muitos outros cantores e sambistas como, Miltinho que acabamos de perder, e com eles foi construído tudo o que temos de melhor na nossa musica , e a bossa nova está nessa linha evolutiva da musica popular brasileira, continuou criando maravilhas,tendo como inspiração os ossos maravilhosos sambistas.

  2. Maria Aparecida Anunciata Bacci 15 de agosto de 2014 19:56

    Belo texto,e muito bem lembrado dos nossos maravilhosos,sambistas que Marcou e marcam a glória de nossa musica e seus geniais interpretes, e a bossa nova que fizeram e fazem, gerações cantar e apreciar a boa musica.Tudo com muito espírito do povo brasileiro,mulheres ,fatos,amores,protesto e humor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo