[CONTO] “A brincadeira”, de Tácito Costa

I

No dia que demorou cinco anos para acabar, eu acordei mais cedo do que de costume, com uma ressaca braba. Fui dormir, pra variar, tarde e bêbado. Fiquei até quase duas horas da manhã no “Bar da Porteira”. Tomamos duas garrafas de Caranguejo. Como tira-gosto um peba, cevado por dois meses dentro de um tonel grande de ferro.

Com a cabeça latejando e sem disposição para nada fui fazer hora na bodega de Zé do Carmo. Ficamos conversando na calçada. Não fazia muito tempo que eu havia chegado, quando ele precisou entrar para atender a rezadeira Maria Evangelista. Zé mantinha uns tamboretes forrados de couro lá nos fundos do comércio. Quando chegavam conhecidos ele os colocava na calçada para papear e ajudar o tempo a passar.

Lá de fora deu para ouvir a conversa dos dois. A velha pediu um pacote de café, meio quilo de açúcar e quatro pães. Em seguida soltou uma frase solta e enigmática. Ultimamente, como se não estivesse bem da cabeça, lançava essas frases em situações que nada tinham a ver: – O dia de hoje só acabará daqui a muitos anos… – Satanás prefere os inocentes para se vingar de Deus. Persignou-se e citou a bíblia: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito”. Em seguida, saiu apressada.

Já acostumado com aquelas leseiras dela, Zé do Carmo não deu cabimento e a despachou o mais rápido que pôde. Tirando esse palavrório esquisito era uma boa freguesa. Muita querida na cidade, Evangelista já tinha “curado” quase todos os moradores de alguma mazela.

Chegando lá fora, Zé comentou comigo: – Essa velha tá cada dia mais destrambelhada, já amanhece o dia com esses agouros. Deus me livre!

Estávamos no início de março, mês de São José, aguardando sinais e notícias de chuvas. Não era 8 horas ainda, mas o sol já estava quente e o calor começava a incomodar. O ano anterior, 1966, tinha sido de seca e a ansiedade sobre se 1967 seria bom ou ruim de inverno era grande e dominava boa parte das conversas. “A barra está bonita”, disse Zé do Carmo. Olhar o céu em busca de pistas de chuvas era o seu passatempo preferido e esta frase era pronunciada várias vezes ao dia, a diferentes clientes e amigos que apareciam no seu estabelecimento comercial.

II

Era como sempre faziam uma a duas vezes por semana. Colegas de classe, no Grupo Escolar Paulo Freire, melhores amigos, “Dedé de Doca da padaria” e Macedinho gostavam de caçar passarinhos nas terras de “Tião do Mulungu”. O sítio Mulungu ficava por trás da parede do açude Pajeú. Tinham a mesma idade, 9 anos, sendo que o primeiro aniversariava em fevereiro e o segundo em novembro.

Quando acabava a caçada de passarinhos os dois meninos apostavam uma corrida para ver quem chegava primeiro à parede do açude, de onde pulavam ao encontro da água sem esperar pelo outro. Mais ágil e forte, Dedé sempre ganhava as corridas e se atirava primeiro no açude. Essas caçadas eram mais desculpas para eles comerem frutas no sítio Mulungu e tomar banho no açude.

No dia que começou e não teve fim, eles chegaram praticamente iguais ao local onde sempre se banhavam. Foi Macedinho quem viu a canoa de “Manoel do Peixe” amarrada a um tronco a uns 20 metros de onde estavam e propôs irem nela até o “Cacimbão”, que ficava no meio do açude, na parte mais funda. Como no ano anterior o açude havia tomado pouco água, devido ao fraco inverno, o cacimbão estava parcialmente exposto. Quando o reservatório estava em seu limite máximo de água, o cacimbão não era visível.

Dedé não achou boa ideia o passeio até o cacimbão. Sabia que se seu pai soubesse da aventura proibiria suas saídas de casa por um bom tempo. Mas o amigo insistiu: – Deixa de ser frouxo, vamos lá, não tem perigo.

Convencido pelo entusiasmo do amigo entrou na canoa. Pegou o remo e começou a remar em direção ao Cacimbão. Na metade da travessia, resolveu fazer uma brincadeira. Soltou o remo e com as duas mãos deu um balanço forte na canoa. Macedinho, que estava em pé na proa, de costas para ele, desequilibrou-se e tentou se apoiar na lateral da canoa, que virou. Na queda, enroscou um dos pés na tarrafa que estava presa no canto e afundou junto com a canoa.

Em pânico, Dedé tentou ajudar o amigo. Mergulhou três vezes. Mergulhava e voltava à superfície para respirar, tentando livrar o pé do amigo da rede de pescar. Na última tentativa, percebeu que ele parara de se debater. Cansado e chorando sem parar, começou a nadar e boiar em direção à margem.

“Manoel do Peixe” não havia saído para pescar naquele dia, o que era raríssimo, porque amanhecera doente. Morava numa velha casa, com a mulher e seis filhos, a cerca de um quilômetro do local onde guardava a canoa. Da porta dos fundos da sua casa tinha uma visão privilegiada do açude. Por volta das 9 horas, saiu à porta e percebeu que alguém nadava em direção à margem. Notou também que a canoa havia desaparecido. Isso nunca havia acontecido. Saiu apressado e não disse nada à mulher. Chegou ao local onde ancorava a canoa instantes depois do retorno de Dedé.

Chorando muito, o menino contou o que tinha acontecido. Não falou da brincadeira. Mentiu, dizendo que a canoa virou após Macedinho se levantar para pegar o remo com ele, que já estava cansado de remar.  

– Fique aqui que vou nadar até o cacimbão ver se encontro alguma coisa – disse o pescador. Uns cinco minutos depois que “Manoel” saiu, o fazendeiro Romildo Trajano passou na sua camionete em direção à cidade. Inteirou-se do acontecido e foi diretamente à casa do pai do menino desaparecido. Dona Francisquinha, mãe de Macedinho, desmaiou quando recebeu a notícia. 

Por volta das 10 horas da manhã, quase toda a cidade já sabia do acontecido e a romaria para os lados do açude Pajeú reunia jovens e velhos, cegos e aleijados, doidos e bêbados. O comércio fechou as portas. Quem entrasse na cidade naquele momento pensaria se tratar de um lugar fantasma.

As buscas não pararam mais e o prefeito, por volta das 13 horas, após consultar o pai de Macedinho, Olavo Macedo, mandou um telegrama à capital, pedindo ao governador o envio imediato de uma equipe de mergulhadores do Corpo de Bombeiros.

Às 17 horas, o caminhão vermelho do Corpo de Bombeiros entrou na cidade com a sirene de emergência ligada e foi direto para o local onde a criança havia se afogado. O encantamento das crianças foi tocante. A maioria só tinha visto um carro de bombeiros nos seriados exibidos no Cine Veneza.

As buscas entraram pela madrugada. Seja gente, visagem, cachorro, gato ninguém dormiu nesta noite. Os galos se desorientaram e cantaram bem antes da hora marcada. Os cães ladraram desde o começo da comoção, como sentindo a tragédia que se abateria sobre a cidade. Padre Mateus comandou a vigília na matriz, que manteve-se aberta, com as beatas em permanentes rezas, acendendo vela atrás de vela e fazendo promessas aos santos de sua devoção. 

Macedinho foi achado e resgatado pela madrugada. Era precisamente 2 horas da manhã, quando um dos bombeiros veio à superfície e anunciou que havia localizado o corpo.

III

Insisti, chorei, mas pai não me deixou acompanhar o resgate do meu melhor amigo. Também não consegui dormir, preocupado, pensando que poderia ser preso. Dei uns cochilos até o amanhecer. Pai saiu com escuro para a padaria e mãe ficou tomando conta de mim. Pastorando-me porque temia que eu fugisse e fosse acompanhar o trabalho dos bombeiros.

A hora das refeições era a dos sermões lá em casa. Mal colocou os pratos na mesa para o café da manhã mãe começou:

– Poderia ter sido você, quantas vezes eu não te disse que essas besteiras atrás de passarinho não davam certo, Dedé. Mas, você é teimoso, olhaí o resultado. Agora, por você ser pobre e negro vão dizer que a culpa é sua.

Desde que o dia amanheceu, mãe resmungava e falava aquelas coisas. Parece que só sabia dizer aquilo. Repetiu umas dez vezes a mesma conversa. Eu já estava que não aguentava aquela ladainha.

Ela não me deixou sair de casa, mas prometeu que me levaria ao velório. Ao enterro não, que cemitério não era lugar de criança.  O velório, na Igreja, começaria às 11 horas e o enterro estava marcado para as 17 horas.

Mal acabamos de almoçar e comecei a caningar para ir ao velório. Pai foi taxativo, só iríamos às 16 horas, quando seria realizada a missa de corpo presente. Foi o jeito eu me conformar.

Faltando uns quinze minutos para as 16 horas a gente saiu de casa em direção à igreja. Quase não conseguimos entrar, tinha vindo gente até dos sítios e povoados vizinhos para o enterro. “Seu” Olavo Macedo, o pai de Macedinho, era dono do único cartório da cidade. Tinha feito registros de nascimento de quase todos os que nasceram no município. Era letrado, tirava muitas dúvidas em relação a testamentos, inventários e por isso mesmo muito considerado e querido.

Mãe me pegou pela mão e levou-me para ver o corpo. Tive um choque medonho. Aquele ali, deitado com as mãos em cima dos peitos, não era o meu amigo. Macedinho era magro e bonito. O que estava no caixão era gordo e tinha a cor roxa. Para completar estava com o nariz fechado com algodão.

Ainda dentro da igreja falei para mãe que aquele não era Macedinho e ela me mandou calar a boca se não quisesse levar uns puxavantes de orelha. Calei-me, com medo, sabia que ela tinha a mão pesada, mas não me conformei.

 Nos dias seguintes, na escola e na rua de casa, brincando com os amigos, repeti que tinham enterrado a pessoa errada e que iria procurar Macedinho até achá-lo. “O ‘papa figo’ carregou ele e deixou outro menino em seu lugar”, disse. Para reforçar o que falava, lembrava que minha mãe vivia dizendo para não ir muito longe de casa para não ser levado pelo “papa figo”.

Dias após o sepultamento a família ergueu uma capelinha próximo ao local onde acharam o corpo. Todos os dias dona Francisquinha ia rezar lá. As pessoas comentavam que ela ficou aluada depois do que aconteceu. “Tenho muita pena de dona Francisquinha, nunca mais foi a mesma”, ouvi minha mãe comentar com a vizinha.

Eu às vezes também ia à capela, escondido dos meus pais, que proibiram minhas caçadas de passarinho e de chegar próximo do açude. Certa vez, dona Francisquinha estava lá rezando e acendendo velas e quando fui me aproximando ela pegou umas pedras e jogou em mim. Aquilo aumentou a minha preocupação. Será que ela sabia de alguma coisa? Eu nunca contei nada para ninguém, com medo da surra que levaria de pai e de ser preso.

IV

Cinco anos depois, a cidade superara o trágico afogamento de Macedinho e retornara a sua modorra e ao mesmo assunto: se o ano seria bom de inverno ou não. O mutismo e luto fechado da mãe do menino durante esse tempo era o que ainda levava alguns a lembrarem do episódio.

Dona Francisquinha jamais parou de chorar. Havia quem garantisse que, quando todos os lenços da casa foram usados, ela passou a enxugar as lágrimas nos lençóis e tolhas de banho.

Era por volta das 13 horas, sol e calor insuportáveis, hora em que a cidade ficava deserta, quem já almoçara tirava um cochilo em casa, quando na esquina das ruas do colégio com a maternidade, Romildo Macedo, irmão de Macedinho, atropelou e matou Dedé de Doca. Não houve testemunha do acidente.

Romildo bebia diariamente e já fora chamado à delegacia em duas ocasiões pelo delegado por dirigir alcoolizado e em velocidade. Estranhamente, no dia do acidente, ele não havia tocado em bebida. 

Como sempre fazia todos os dias, Dedé se dirigia para almoçar em casa, em sua bicicleta, após o expediente da manhã na padaria, onde substituiu o pai como padeiro, quando foi colhido pela camionete dirigida por Romildo. Foi o único acidente de trânsito com morte na cidade, desde a chegada do primeiro carro, há mais de 30 anos.  Naquela tarde, Zé do Carmo estava sentado na calçada do seu comércio, de onde acompanhava tudo e de tudo sabia, quando chegou a notícia do acidente. Recordou, na hora, das palavras da rezadeira Maria Evangelista cinco anos antes. Sua memória, sobretudo em relação aos fiados, era lendária. O comerciante, que era temente a Deus e morria de medo de almas, sentiu os pelos dos braços se arrepiarem. Benzeu-se rapidamente e beijou o crucifixo que trazia pendurado por um fino cordão de ouro no pescoço. Finalmente, aquele ciclo trágico chegara ao fim. Em seguida, levantou os olhos às nuvens carregadas ao Sul, para os lados da serra da Onça Pintada,  e soltou a frase que, independentemente do tempo e clima que estivesse, ele gostava de falar: “a barra está bonita”.

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