A busca de Pessoa

Por José Castello
O GLOBO

Em “Diário da Tarde”, livro de notas avulsas de Paulo Mendes Campos (Companhia das Letras), encontro um brevíssimo artigo sobre Fernando Pessoa que me chama a atenção. Estanco, em particular, em uma frase: “É possível que Pessoa tenha passado a existência toda a pretender-se um gênio, a posar de gênio, sem ter a certeza do que era de fato um gênio”. Tomo a liberdade de imaginar um pequeno lapso de revisão e transformo o final da frase em: “sem ter a certeza de que era de fato um gênio”. Nas duas versões, a frase é assombrosa.

Primeiro preciso explicar o que é “Diário da Tarde”. Depois de se aposentar, nos anos 1980, Paulo Mendes Campos se transferiu para um sítio na serra de Petrópolis. Lá, para preencher seu vazio, imaginou um jornal, o “Diário da Tarde”, de que era o editor-chefe, o único redator e o único repórter. Naquela altura já famoso pelas crônicas que publicava na grande imprensa, Paulo se divertia fazendo seu próprio jornal, no qual escreveu artigos, comentários de futebol, análises literárias, crônicas e aforismos. A nota literária que leio é apenas um desses textos avulsos. Que formam um livro inspirador.

Volto à frase de Paulo sobre Pessoa. Primeiro penso no “pretender-se gênio”. Ainda hoje, na era dos grandes bestsellers internacionais, na época em que parece ser melhor ganhar uma adaptação para o cinema, ou uma tradução em língua estrangeira, do que ser lido – ainda hoje, apesar disso, muitos escritores ainda se alimentam da ideia do “gênio”. O Houaiss me ajuda a defini-lo: “extraordinária capacidade intelectual, notadamente a que se manifesta em atividades criativas”. Existem gênios sim. Pessoa foi um gênio, assim como Virginia Woolf – citada por Paulo no mesmo texto – também foi. Uma coisa é ser, outra bem diferente é pretender-se. O impasse começa no conceito exagerado a respeito de si mesmo. Ali não se avança mais.

O risco dessa pretensão é impedir que o escritor reconheça, de fato, quem ele é. Impedir que ele chegue a si e à sua voz. Gênios só existem “a posteriori”. Primeiro o escritor se debruça sobre a obra, se desdobra, dá o melhor de si. Só depois, muito depois, a posteridade afirmará, ou negará, sua genialidade. Chego aqui, então, ao segundo momento da frase que me interessa: “posar de gênio”. Esse parece ser um efeito ainda mais disseminado em nossos tempos. No século 21, o escritor _ mesmo que não seja lido, ou em geral sem que seja lido _ se tornou uma figura popular, um astro pop. Não é mais sua palavra que vale, mas sua imagem. Sua pose. Muitos escritores cultivam uma postura genial que não corresponde a suas obras. No mundo de imagens e de flashs em que vivemos, essa postura costuma valer mais do que mil palavras.

Chego, enfim, ao momento da frase em que, graças à troca de um “do” por um “de”, o significado vacila. “Sem ter a certeza do que era de fato um gênio” indica, antes de tudo, uma aceitação da própria ignorância. Você faz a pose _ mas não sabe o que ela significa. Você simula um status _ mas não sabe a que ele exatamente corresponde. “Sem ter a certeza do” indica uma valorização da ignorância – isso apesar da pretensão ou da arrogância. Pessoa quer ser algo que não sabe o que é. Mas ainda assim deseja ser. O importante aqui é que ele desconhece o destino grandioso que planeja para si mesmo.

Experimento, porém, a segunda versão: “sem ter a certeza de que era de fato um gênio”. Aqui a frase nos traz um “de” e não um “do”. Em consequência, ela já não fala mais da ignorância, mas da dúvida. Nesse caso, Pessoa sabe o que é ser um gênio _ mas não sabe se ele mesmo se encaixa, ou não, nessa classificação. Não tem dúvidas a respeito do que deseja ser, só não sabe se conseguiu, ou conseguirá. A hesitação dele se apossa. Ao contrário do que acontece na versão anterior, ele tem certeza do que deseja ser. Só não sabe se é. Exibe, com isso, sua insegurança. Forte sentimento que não o impediu, ao contrário, o alimentou. Que se tornou capital em uma obra cheia de heterônimos, de assinaturas, de cisões nunca completadas.

Seja como for, fica um desejo vago, mas insistente, de se superar. De ir além de si, quando um escritor deve, antes de tudo, sustentar a si mesmo _ o que significa, também, chegar aquém de si. Assinala Paulo, nessa frase (e em qualquer uma das duas versões, a real ou a imaginária), o desejo de Pessoa de ultrapassar-se _ seja para a frente, ou para trás. A frase fala, portanto, de uma insatisfação do poeta consigo mesmo. Eis onde quero chegar: nesse sentimento de insatisfação, cada vez mais incomum em nosso mundo de pessoas “cheias de si”. Talvez a genialidade de Pessoa comece justamente aí: em seu descontentamento consigo mesmo. Ou quer ser um gênio, mas não sabe o que é ser um gênio. Ou quer ser um gênio, mas não tem certeza de que é. Nos dois casos, há um poeta insatisfeito – há um sentimento incompleto que entrava, mas também estimula. Que foi, no fim das contas, o combustível de sua escrita.

Se não houvesse o que buscar, Pessoa nada teria escrito.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Horácio Paiva 27 de Setembro de 2014 17:05

    Gosto desse livro (“Diário da Tarde”) de Paulo Mendes Campos, também poeta. Ocorre, entretanto, que Fernando Pessoa, quando, explicitamente, aborda o tema da genialidade, o faz com ironia. A propósito, são de sua lavra esses versos que subscreve como Álvaro de Campos, num de seus mais importantes poemas (“Tabacaria”):
    “Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.”

    Horácio Paiva.

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