A bússola biruta

FSP – ILUSTRÍSSIMA

RÉPLICA

Ninguém quer causar confusão, incomodar

RESUMO

O organizador da antologia “Geração Zero Zero” responde às críticas feitas por Paulo Roberto Pires (foto) na última edição da Ilustríssima (aqui); reivindica os méritos de seu trabalho e questiona os atributos que Pires valoriza numa boa antologia: referências literárias centrais e critérios claros.

POR NELSON DE OLIVEIRA

O ARTIGO DE Paulo Roberto Pires na Ilustríssima de 7/8, “A bússola e a biruta”, é uma curiosa “coleção de metáforas, metonímias e antropomorfismos” (como diria Nietzsche) a respeito de um abismo imaginário. Porém, quando até mesmo a bússola é uma ilusão, como escapar da miragem?

Apesar disso, é muito bom saber que a antologia “Geração Zero Zero: Fricções em Rede” [Língua Geral, 408 págs., R$ 45] recolocou em pauta o tema das antologias geracionais. Fazia tempo que um trabalho desse gênero não ganhava tanta atenção. Publicada bem antes da antologia de jovens escritores brasileiros anunciada pelos editores da revista “Granta”, “Geração Zero Zero” estimula um debate que beneficiará bastante a muito bem-vinda “concorrente”.

Os dois grandes méritos de minha antologia são a iniciativa e a precedência. Ela é a primeira a apontar os autores significativos em meio a uma infinidade de livros publicados na década passada. Assim, a antologia da geração zero zero funciona como outra maneira de legitimar esses ficcionistas, fora do mecanismo complexo de prêmios, escolha dos editores e resenhas. Enfim, a antologia joga luz sobre autores com pouca rodagem, quase sempre esquecidos pelo radar do mecanismo oficial de validação. Quando Pires faz sua lista discutível de problemas, além de pecar por inventar defeitos, peca por ignorar esses méritos.

Gosto de pensar que as antologias geracionais são um poderoso exercício de crítica literária. Por isso tão poucas têm sido organizadas ultimamente. Elas incomodam tanto quanto um longo artigo jornalístico ou um ensaio acadêmico sobre o assunto. Porém, ninguém escreve mais ensaios sobre o cenário contemporâneo, sobre a prosa e a poesia de hoje, dando nome aos bois, aos patos etc. Parece que a plaquinha na parede diz: “Não perturbe”.

DOR DE CABEÇA

Se um poeta publicasse hoje um balanço da nova poesia brasileira, apontando os melhores nomes da nova geração, a gritaria seria insuportável. É por isso que escritores e críticos não fazem mais balanços geracionais. Dá muita dor de cabeça. Ninguém quer incomodar, ninguém quer confusão. Ao menos o artigo de Pires deixou isso claro, ao aceitar que as antologias geracionais são um exercício de crítica.

Mas Pires cometeu pelo menos três erros. O primeiro foi comparar alhos com bugalhos. O bom-senso pede que a antologia da geração zero zero seja comparada com a antologia de jovens escritores brasileiros da revista “Granta”. Como essa ainda está sendo produzida, foi comparada com “Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol” [Alfaguara, 372 págs., R$ 43,90]. Escolha atrapalhada, no mínimo. Motivada, talvez, pelo proverbial complexo de vira-lata de que falava Nelson Rodrigues: para o brasileiro, tudo o que é estrangeiro é muito melhor.

O segundo erro foi acreditar nos parâmetros apresentados por Valerie Miles e Aurelio Major, editores de “Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol”, sem verificar sua validade. Pires recebeu um cheque sem fundos, em euros, e tentou passar adiante. Estou para escutar mistificação maior do que essa: “Os jovens escritores em espanhol lidam com uma questão central: a angústia de influência transcontinental, vinda por um lado do boom, Gabriel García Márquez à frente, e, por outro, da opressiva catedral imaginativa de Jorge Luis Borges”.

Para não se perder numa miragem confortável, Pires deveria ter conversado com os jovens escritores, antes de aceitar pacificamente a bússola imaginária oferecida pela dupla Miles e Major. Se conhecesse bem a nova ficção argentina, chilena, mexicana e espanhola, por exemplo, veria que Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Juan Rulfo e Gabriel García Márquez não provocam angústia nem taquicardia há mais de 20 anos. Essa “questão central” de que falam é um clichê da teoria. É uma miragem mais da crítica do que da prática literária.

ANÁLISE RESTRITA

O terceiro erro foi ignorar ela mesma, a prática literária, ficando apenas com a teoria. Das 1.300 palavras usadas por Pires em seu artigo, nenhuma foi destinada ao mais importante: a análise dos contos reunidos. Todo o seu discurso girou em torno dos dois textos de apresentação, que não ocupam mais do que 10% das duas antologias. Nada foi dito sobre os outros 90%.

Sinceramente, gostaria que me explicassem por que os ficcionistas e as ficções foram deixados de fora.

Concordo que uma antologia como a da geração zero zero é um grande problema para um resenhista apressado. Para avaliá-la com profundidade, é preciso ler não apenas os contos reunidos mas toda a obra dos autores reunidos. Deixar esse trabalho de lado e se concentrar apenas no texto de apresentação é uma forma preguiçosa e irresponsável de se livrar do encargo.

O abismo de que fala o artigo de Pires é imaginário, mas existe outro, bastante real. Enquanto o debate literário clama por mais e melhores antologias, Pires pede “referências centrais e critérios claros” na organização de uma antologia geracional. A feliz união desses dois apelos seria uma antologia de novos escritores brasileiros organizada por Paulo Roberto Pires. Sua posição numa grande editora e seu interesse pelo tema já representam meio caminho andado. Cuidado, apenas, com as bússolas mágicas ofertadas pelos gringos.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove + 18 =

ao topo