A bússola e a biruta

O norte nem sempre claro das antologias

RESUMO

Apontar caminhos está entre os objetivos críticos das antologias de literatura contemporânea, que no entanto falham caso seus organizadores não mencionem referências centrais e critérios claros que balizam suas preferências. Seletas de autores brasileiros e hispânicos mostram êxitos e impasses do gênero.

PAULO ROBERTO PIRES
FSP

LUTA LITERÁRIA

Eu é que presto
Francisco Alvim

CONVIDADO A PUBLICAR na popular série “Os Melhores Poemas de”, Hélio Pellegrino (1924-88) recusou-se com uma lógica irretocável e pândega: se topasse, os que ficassem de fora seriam “os piores poemas de Hélio Pellegrino”.

Para bom psicanalista, meio chiste basta: estava dito o que parece se passar na cabeça das hordas de escritores excluídos de antologias que pretendem representar o melhor do tempo: não estando entre os melhores, formariam o bloco dos piores?

Avaliar exclusões e inclusões é, além de atividade clubística, a forma mais estéril de discutir duas antologias que, publicadas quase simultaneamente, têm, pelo menos em teoria, a mesma disposição em mapear o presente.

“Geração Zero Zero” [Língua Geral, 408 págs., R$ 45] é a terceira organizada por Nelson de Oliveira, que desta vez usa o enigmático subtítulo “fricções em rede”, para oferecer um apanhado não dos melhores contos, mas “dos melhores autores” dentro do recorte que propõe.

“Os Melhores Jovens Escritores em Espanhol” [Alfaguara, 372 págs., R$ 43,90] quer repetir, na versão hispânica da “Granta”, o que a revista britânica já fez por seus compatriotas e por americanos -e, como se anunciou na Flip deste ano, o fará em 2012 pelos brasileiros.

Ambas têm a marca de uma época que, como lembra o crítico de arte Boris Groys, abomina generalizações, à exceção de uma delas, grosseira: a “diversidade” da produção. “Tudo é vário”, poderia ser o adágio de uma vida literária cacete. Por isso, mais vale discutir os critérios que cada uma delas utiliza para olhar em volta.

Nem Nelson de Oliveira, nem a dupla Valerie Miles e Aurelio Major, os editores da “Granta” em espanhol, prestam nenhum tipo de vassalagem teórica. O que de imediato nos poupa de páginas e páginas para dizer que do presente não se pode dizer nada. A discussão do que é “o contemporâneo” é hoje uma infestação teórica como o blá-blá-blá sobre o futuro do livro, um e outro pujantes subgêneros acadêmicos dedicados a afirmar que o que importa está alhures.

O trabalho desses antologistas é, portanto, de natureza mais física do que metafísica. Nelson de Oliveira diz que, para chegar aos 21 nomes, penou três anos entre mais de 150 autores que passaram pelo crivo de ter estreado em livro na primeira década do século 21 e publicado até o momento dois ou mais títulos.

Valerie Miles e Aurelio Major formaram um júri com quatro escritores e contam que, depois de atravessarem mais de 300 obras de diversos países, chegaram a 22 escritores -todos nascidos depois de 1975 e tendo pelo menos um livro publicado.

INTERNET

A “Granta” usa o principal critério geracional, o ano de nascimento, para flagrar o que pensa ser a produção relevante da segunda língua mais falada no mundo; Oliveira anuncia um recorte geracional, mas o baliza pela data de publicação, sendo desimportante para ele a idade dos autores. Ambos fazem protocolares ressalvas sobre a diversidade de vozes, a arbitrariedade de seus próprios critérios e choram pitangas pela incontrolável multiplicação de textos na internet.

Para Nelson, “a maçaroca líquida da web” afeta a geração “apenas superficialmente”; para a dupla de editores, há uma explosão de informação que se traduz “nas mil formas de promoção autista que, como fogos de artifício, nos distraem da concentração mínima para uma leitura ponderada”.

Assim, “Zero Zero” e a “Granta” procuram botar-se à parte da rede com uma profissão de fé nas formas tradicionais de publicação e circulação. Embora ressaltem que a maioria dos autores atua no universo virtual, os editores da revista advertem para a multiplicação de “epifenômenos” e explicam que não fariam uma “apologia da internet” por lhes bastarem “os entusiasmos do futurismo de um século atrás”.

O brasileiro recorre a outro porto seguro crítico, lembrando o lugar-comum de que “O Jogo da Amarelinha” de Cortázar dá “de dez a zero em qualquer experiência on-line”. Afirma-se assim a precedência do livro e, principalmente, de um circuito convencional de produção, difusão e consagração num momento de convivência entre as duas lógicas -a da vida literária tal como a conhecíamos e de outra, conectada, acelerada, precária e muito interessante.

REFERÊNCIAS

Mesmo assim, antologias do presente cumprem papel importante, especialmente num momento em que boa parte da crítica se contorce para evitar a assertividade. E esse papel é tanto mais importante na medida em que seus organizadores consigam determinar parâmetros para compreender melhor o momento literário. É precisamente aí que abre-se um abismo entre o resultado da “Granta” e da “Zero Zero”.

Os jovens escritores em espanhol lidam com uma questão central: a angústia de influência transcontinental, vinda por um lado do “boom”, Gabriel García Márquez à frente, e, por outro, da opressiva catedral imaginativa de Jorge Luis Borges. Hoje, lembram Valerie e Major, a dualidade foi quebrada pela energia libertadora de Roberto Bolaño mas também pelo novo animal da floresta hispânica, o espanhol Carlos Ruiz Zafón, narrador que aparece como alternativa comercial inteligente ao “déjà-vu” de uma Isabel Allende. Ou ainda pelo extraordinário rigor de Javier Marías e o antídoto irônico de Enrique Vila-Matas.

Os escritores de 30 e poucos anos manobram com liberdade as associações entre literatura e política que pareciam exigências nas gerações anteriores e veem a língua em que escrevem romper barreiras num mercado internacional dominado pelo inglês, mas sensivelmente mais aberto. Com essa bússola em punho, fica mais fácil guiar-se entre autores tão diferentes quanto o mexicano Alejandro Zambra e a argentina Samanta Schweblin.

“Geração Zero Zero”, ao contrário, pouco propõe. Como contextualização geral, Nelson de Oliveira cita, na pág. 16, Lula, Obama, genoma, aquecimento global, papel digital. No que chama de “era do clique”, “o universo nunca foi tão conturbado, tão humano e desumano”. No Brasil, informa, são publicados anualmente quase 20 mil livros, dados da Câmara Brasileira do Livro que pouco dizem se não forem interpretados além da observação “é livro demais” (na mesma pág. 16).

Nas três páginas seguintes (uma delas dedicada a agradecimentos), frustra-se quem busca as “fricções críticas”. Para o autor, a crítica ou a atividade do antologista consiste no “reconhecimento de padrões”, “procedimento que faz vista grossa para as diferenças e amplia consideravelmente as semelhanças” -o que é desmentido à larga pelo esforço interpretativo dos organizadores da “Granta”.

INTERPRETAÇÃO

Quando propõe interpretação, Oliveira o faz rápida e confusamente: afirma que o “ponto de contato” entre os autores da geração que nomeia é “o bizarro”. O antologista refere-se, citando um texto que publicou em 2008, a uma “atmosfera bizarra” que, “tendo em vista apenas a estrutura formal” das obras, manifesta-se em diversas formas: “ora em linha reta, ora em zigue-zague, ora fragmentada, ora pulverizada e misturada, mas sem jamais perder a consistência bizarra”.

“Bizarro” pressupõe, claro, excentricidade e, obrigatoriamente, uma referência central que a configure como desvio ou distorção. É essa referência que não fica clara, assim como “Geração 90 – Os Trangressores”, a antologia de 2003, não esclarecia o que aqueles escritores transgrediam nem como o faziam.

As duas têm em comum a ideia de que a qualidade literária está identificada com uma “margem” e que o criador é sempre desviante. Noção que, por ser vaga, pouco ajuda a compreender o momento literário -pois, convenhamos, toda antologia é uma tentativa de interpretação.

BANDEIRA

“O princípio editorial de toda antologia é a consagração”, afirma Oliveira, citando como exemplo a laboriosa atividade de antologista de um Manuel Bandeira. Se recorresse ao próprio poeta, constataria que a questão é infinitamente mais complexa. Em carta endereçada a Antonio Candido em 1946, Bandeira discutia as restrições que o jovem crítico fizera à sua “Apresentação da Poesia Brasileira”. “Uma antologia, ainda adotando de saída um critério único e rígido, resulta sempre imperfeita”, escreve o poeta, afastando o entendimento de que uma seleta seja sinônimo de um panteão.

E argumentava ainda que cada autor deve ser contemplado com seus textos mais representativos, mesmo que já sejam conhecidos, o que parece lógico e é ignorado quando “Geração Zero Zero” reúne textos inéditos “dos melhores autores” -critério que, na prática, faz com que pelo menos três reconhecidos talentos sejam representados por contos que não lhes fazem justiça. Voltando a esta carta que é uma declaração de princípios em favor do contemporâneo, é bom lembrar a crença de Bandeira em uma pluralidade de antologias. “Organizadas por sujeitos de gosto diverso”, ressalva ele.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove + dezenove =

ao topo