A caixinha rosa

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

1) Todo mundo já esteve em alguma confraternização em que, tão logo os convidados começam a preencher os espaços, observa-se uma orgânica e espontânea (?) divisão por gênero, isto é, pegando o churrasco de domingo como um exemplo extremo, teríamos: homens ao redor da churrasqueira (de pé), mulheres perto das saladas (sentadas). Os assuntos dos dois grupos, naturalmente (?), são distintos um do outro. Homens citam números enquanto mulheres citam regimes. Há uma grande chance da pergunta “qual é seu signo?” surgir no grupo das mulheres à guisa de explicação para certo traço de personalidade (“ah, eu tinha certeza, geminianas são assim”) mas nunca no dos homens. Mais que um churrasco de domingo, uma festinha do condomínio ou um amigo secreto da firma, isso é uma visão de mundo (e, no caso, a que está vencendo). Dentro dos limites bem estabelecidos dessa concepção, não existem assuntos de interesse comum, e todos os tópicos têm necessariamente uma filiação ao feminino ou ao masculino. Além disso, parte-se do princípio de que eu, mulher, tenho necessariamente mais afinidade com outra mulher (qualquer que seja) do que com um homem (além do cônjuge ou prospecção de cônjuge). E, assim, o Clube do Bolinha e o Clube da Luluzinha, não é preciso dizer, reforça o famoso mito da incompreensão entre os gêneros.

2) O universo ficcional de alguns escritores é exatamente essa festinha descrita no item 1. Se alguns protagonistas, na solidão e dureza deste mundo contemporâneo, conseguem estabelecer relações humanas, ainda que frágeis, elas geralmente são mais calorosas e verdadeiras na camaradagem da companhia masculina. As relações conjugais, por outro lado, parecem sempre fadadas ao fracasso, em parte porque as mulheres ficcionais são representadas como um tanto diabólicas e/ou imprevisíveis. Ao homem, portanto, resta ficar à mercê dos caprichos de sua amada.

3) Nunca há comunhão entre um homem e uma mulher nessas relações conjugais representadas, ou ao menos não no tempo presente da narrativa. Mas como poderia haver, se partimos da premissa de que não existe diálogo possível entre os gêneros?

4) Talvez uma saída à la Brokeback Mountain fosse algo legal de se ver. Mas vamos ficar bem sentadinhos esperando um protagonista gay em algum grande romance brasileiro.

5) Muitos poetas que louvam a mulher estão apenas encarando-a e descrevendo-a como um belo pôr-do-sol ou um barquinho ao sabor das ondas.

6) Certos cronistas tiram quase toda sua inspiração das supostas diferenças de gênero. Assim, suas sentenças, como era de se esperar, são bastante categóricas. O homem isso, a mulher aquilo. A mulher faz dieta assim, o homem assado. A mulher fala tal coisa quando está apaixonada, o homem tal outra. A mulher abre a porta fazendo pim, o homem fazendo blam. É claro que muitas mulheres ficam profundamente encantadas com tamanha sensibilidade (sic) do cronista. Mas o derretimento feminino por um homem que, enfim, “compreende as mulheres”, só mascara o velho problema das caixinhas dos gêneros. O cronista que ama amar as mulheres está na verdade apaixonado por si mesmo ou, melhor dizendo, por essa construção, alimentada semanalmente, de heartbreaker irresistível com escavador de almas femininas.

7) Como se o funcionamento das caixinhas não fosse redutor o suficiente, deixando de lado tanto o que nos une (como seres humanos) quanto o que nos separa (como indivíduos diferentes um do outro), ocorre que a caixinha rosa é muito mais apertada que a caixinha azul. Em um post de 2012, fiz algumas considerações sobre isso, evocando cenas do documentário La domination masculine (2009). Não sei se ainda concordo com todas as conclusões que esbocei na época, mas continuo acreditando que uma espiada numa loja de brinquedos nos ajuda a entender questões complexas como “por que há menos mulheres escritoras do que homens escritores?”. Primeiro, visitamos a seção para meninos, depois a seção para meninas. (…) Na seção dos meninos, há dinossauros, caubóis, astronautas, super-heróis, piratas, carrinhos. É bem comum – diz o vendedor – que os meninos misturem todos esses universos na mesma brincadeira. Na seção das meninas, há basicamente princesas e cozinhas em miniatura. Com variações sobre o tema, claro. Do tipo barbies e pequenas tábuas de passar. A menina brinca – diz o vendedor – com um universo bastante limitado, que com frequência é uma representação do universo materno. Então ele mostra as fantasias. Para os meninos, há todas aquelas coisas que citei ali em cima, e mais uma infinidade de “papéis” possíveis. Para as meninas, princesas, princesas, princesas.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu novo livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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