A capela de Serrinha dos Pintos (RN)

“Deus” foi a primeira palavra a me meter medo de morte. Sempre achei “Deus” uma palavra muito imponente, dessas que castigam mais do que acolhem. Ironicamente, a primeira palavra que li em voz alta foi “domingo”, aos cinco anos, ao lado da minha mãe, num jornalzinho da igreja durante a missa.

Depois as palavras fluíram e fui sendo enredado naquela teia de cânticos e rezas que ora me acalmavam ora me assustavam. Na verdade, eu já sabia ler antes, um pouco antes, as palavras já pertenciam ao meu entorno, mas sempre cultivei mais o silêncio que os extremos da fala. Menino mudo, bicho do mato, que até hoje se recolhe no quarto, arredio, para ludibriar visitas.

Mas foi na igreja que decidi soltar as letras escritas que me povoavam a garganta e cantar o domingo pela primeira vez. Talvez fosse um sinal dos incômodos-palavras que me competiriam ao longo da vida: Deus existe ou não, Deus me ama ou não, por que Deus é um homem? A Deusa existe, prepara as roupas de Deus, cozinha sua comida?

Sempre me senti mais acolhido pelas mulheres do que pelos homens, por isso, ao sibilar a “Ave Maria cheia de graça”, eu me sentia parido por um ventre doce, parido pela Mãe da Terra, coberto de flores e mel. Maria me lembrava uma mulher de coração bom, dessas que vendem lanches em cantinas.

Mas nem a mãe de Cristo foi capaz de me salvar do meu temor exagerado por Deus, a própria geradora do corpo divino não evitaria o medo de que o demônio habitasse o meu próprio corpo. Eu seria errado se falasse o que sentia. Eu faria do meu próprio desejo um inferno ambulante vagando pela minha casa e pelas ruas em que cresci.

Depois me fiz homem, aprendi a descrer em tudo e a desprezar a crença principalmente no demônio e no pecado. E deus, deuses, deusas nunca mais fizeram parte dos meus cânticos e jamais habitaram o espaço diminuto da minha garganta. Meditei com versos, descobri a poesia e meus sonhos de reza eram imagens bonitas repetidas exaustivamente.

Depois, depois, o medo se dissolveu, sal em água, e parei de descrer em tudo com o tempo, fiz as pazes com a espiritualidade que talvez possa existir. Seria bom que ela morasse por aí, nos campos, como energia da natureza, porque viver às vezes pode ser muito difícil, doloroso. Respeito a fé e as orações como se fossem também um pedaço de um poema.

Hoje eu creio em tudo e ao mesmo tempo não creio em nada, e isso não é a mesma coisa de antes. Não pode ser a mesma coisa de antes. Dizem-me “fique com Deus”, e respondo “fique com Deus você também”. Perdi o medo, as amarras, hoje eu acho que ninguém me tira a coragem. Esses dias encontrei uma capelinha bela nesses muitos sertões de nós mesmos, singela e feita com esmero.

Talvez eu me permita acreditar em deusas que costurem afiadas lá do céu um altar doce e simples, como as divindades devem ser. Me pareceu um altar parido do ventre que se liga entre o céu e a terra. Algo assim abraça, jamais castiga.

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