A Carnaubeira Abaporu

Uma das visões mais bonitas d’O Guardado fica em frente à casa grande. É a área em declive que começa na calçada e segue até à beira do açude. É lá, dentro do açude e depois da porteira azul, onde fica a Carnaubeira Abaporu.

Todas as porteiras da fazenda são azuis, mas as referências são: primeira porteira, segunda, terceira, considerando o caminho que leva da entrada à casa principal. Assim, como antes do açude à frente de casa só existe uma porteira, essa, para mim, é a ‘porteira azul’ símbolo de todas as porteiras.

E é lá no açude, dentro d’água, que eu reconheço o símbolo natural da fazenda, a imagem para mim mais representativa dos encantos do lugar, a Carnaubeira Abaporu. Não apenas eu, mas todas as pessoas que aqui passaram e viram a carnaubeira, e que também já pousaram os olhos no quadro da artista modernista Tarsila do Amaral, mesmo que tenha sido nas cópias retratadas nos livros da escola, faz logo a associação das imagens. Eu também o fiz, quando vi a carnaubeira do açude pela primeira vez.

Leia a crônica “Pereiro, favela e oiticica”, de Enoleide Farias

Gosto da imagem da carnaúba. Seu tronco me remete à robustez inaparente do sertanejo; sua resistência à resiliência de homens e mulheres do sertão; e a sua palma, aberta e sempre verde, à esperança que nunca morre para esse povo singular e tão plural.

“Seu tronco me remete à robustez inaparente do sertanejo; sua resistência à resiliência de homens e mulheres do sertão; e a sua palma, aberta e sempre verde, à esperança que nunca morre para esse povo singular e tão plural.”

A Carnaubeira Abaporu não é mais uma planta vigorosa, já o foi um dia, mas perdeu muito do viço. Ainda assim resiste ao carinho das águas do açude, um carinho manso mesmo em tempos de cheias. Por outro lado, parece que não perdeu a ternura. Alimenta carinhosamente um cardeiro inquilino, enroscado em sua cintura, que mais parece um menino saltando dos braços da mãe para mergulhar na água do açude nas horas de muito calor.

Por certo, também é alimentada pelo calor e alegria dos pássaros que nela procuram abrigo. Todos os dias são dezenas, de muitos tamanhos e cores. Uns pousam nos seus talos ressequidos, ainda dependurados a meio tronco. Outros, preferem pousar nos galhos do cardeiro inquilino. E há, ainda, aqueles que preferem pousar na coroa, do tronco desfolhado, no topo alto, de onde podem olhar tudo ao redor. Alguns, até parecem que lá se encontram para namorar.

Dia desses a cor amarela dos concrizes, saltitando alegre entre os espinhos do cardeiro inquilino, enfeitavam a velha árvore. E outro dia, era a garça branca que quase sempre fica pousada às margens do açuude, que se bulia entre as folhas da palmeira.

Assim, dada a impressão de todo mundo sobre os encantos da carnaúba do açude e sua semelhança com a obra de Tarsila do Amaral, vou batizá-la Carnaubeira Abaporu d’O Guardado. O registro oficial é esta crônica, escrita em 6 junho de 2020, que segue acompanhada de algumas imagens da árvore.Tenho dito.

Comentários

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  1. Bernadete Cavalcante 8 de junho de 2021 22:26

    A gente se sente ” de volta para casa” em crônicas como essa. Amei. A carnaúba do Guardado é monumental, mesmo, e a foto está linda. É mesmo uma obra de arte. O nosso curral era feito com “linhas” de carnaúba. Assim se chamava o caule quando utilizados para telhados e currais. Eu ia brincar na margem ( beira) do rio, onde tinha oiticicas e carnaúbas e dizíamos: vamos correr até a árvore da providência, pois a carnaúba para nós também se chamava assim, pois era (é) 100 por cento utilizada: folha, tronco e fruto. A gente batia as folhas no chão, para cair o pó, e sentávamos num pano, com o outro puxando, para dar brilho ao cimento queimado.

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