A carne mais barata do mercado

É negra toda tristeza dessa vida. Se não tivesse sido imortalizada por Cartola, a sentença poderia facilmente ser encontrada nalgum romance de Walter Mosley. Quer dizer, ao menos nas suas histórias urbanas, de crimes, ambientadas numa Los Angeles até hoje segregada, nos últimos anos do século 20[1]. Nelas, o blues é mais um estado de espírito que um gênero musical, ainda que seja as duas coisas.

Mosley começa o romance Uma Volta com o Cachorro com(o) um blues.

“Sócrates ergueu-se bruscamente na cama, arregalando os olhos ao máximo. Teve medo de que a música que escutara no sonho fosse de fato o hino fúnebre daquele anjo vagaroso; medo de ter morrido durante a noite e que fosse tarde demais para compensar todo o sofrimento que causara em anos maus.

Sentou no sofá-cama aberto. Tinha um leve chiado na garganta no final de cada respiração, um chiado que misturava às altas notas do trompete tocado em algum lugar fora da casa.

A música era como choro. Um longo suspiro quebrando-se numa cascata de lágrimas e, em seguida, em notas arquejantes, suplicantes, que pareciam implorar pela morte.”

São tempos selvagens e solto neles está Sócrates Fortlow. O ex-presidiário (que também protagoniza Sempre em Desvantagem) atravessou incólume 27 anos de xilindró, mas pena para encarar a vida em liberdade. Seu mundo deixou de existir, está velho e não tem estudo para conseguir um bom trabalho. E olha que não são bem esses os problemas dele.

Sócrates, em Uma Volta com o Cachorro, está numa situação melhor que na sua ‘aventura’ anterior. Ele é grande e forte, mesmo beirando os 60. Tem uma namorada bonitona, que cozinha bem e gosta de sexo. Trabalha num supermercado e ganha pouco – mas o suficiente para ter seu próprio quartinho, ainda que bastante estropiado. Seu chefe, um mexicano boa-praça, quer promovê-lo, mesmo sabendo do passado dele.

Então, o que atormenta Sócrates? Não se sabe ao certo – e parece que nem ele sabe, e isso o deixa muito, mas muito puto. Ele vê e, muitas vezes, sofre injustiças e entende que elas acontecem porque ele é negro, bem como as pessoas com quem vive. Sócrates se pergunta por quê. E não encontra resposta.

Quanto mais deixa de entender o mundo que o rodeia, mais ele reage da única maneira que aprendeu: com ódio. Aí realmente começam os problemas do personagem. O ódio já não oferece respostas a Sócrates, pois só lhe trouxe remorso e perdas. E faz com que ele queira se afastar ainda mais das pessoas. O romance é cheio destes momentos. Como quando Sócrates recebe seu afilhado, Darryl, e o padrasto do garoto, Howard, após levar uma surra de uns policiais:

“Sócrates ainda estava tonto, procurando um motivo para se zangar. Queria que Howard fosse embora. Queria que Darryl fosse embora também, mas depois não quis. Nunca se sentira um velho antes de sair da cadeia. Mas agora só levantar parecia uma tarefa pesada.

– O que é que você quer Howard, uma medalha?

– Pelo menos um obrigado.

– Se eu estivesse tão doente que fosse parar no hospital e uma enfermeira precisasse limpar o meu rabo, eu ia ter que agradecer a ela também? – Sócrates observou as costas de Howard se endireitarem. Howard era forte e rijo. Mas com todo o seu peso e juventude, não teria sido capaz de derrotar vinte e sete anos de estudada violência.

Sócrates podia sentir a briga amontoando-se em seus ombros. O tique-taque percorrendo sua espinha que quase o fizera investir contra a polícia estava latejando de novo. Não havia tonteira ou fraqueza agora. Sócrates só precisava se endireitar como Howard e não haveria mais qualquer questão de quem estava certo ou no controle.”

Aos poucos, percebemos que Sócrates está sempre a ponto de explodir. É um momento, no entanto, que nunca chega. Para um homem como ele, momentos assim só significam morte. E assim, vão se passando os dias de Sócrates Fortlow e esse é o único mistério do romance ‘policial’ de Mosley.

Explico as aspas: ele trabalha, se mete em algumas encrencas, conhece umas pessoas – estamos mais numa novela urbana que numa história de gênero atenta a uma série de clichês narrativos. Nem mesmo a guinada narrativa que altera o cotidiano do protagonista, numa espécie de clímax, é tão envolvente quanto o dilema insolúvel que o atormenta. Todos que cruzam o caminho de Sócrates oferecem um relance de um aspecto do problema.

Mas quem se atreverá a formulá-lo? E tentar respondê-lo? O que impressiona em Mosley é colocar um dúvida tão universal nas costas de um tipo de homem bem particular, um negro, pobre e fudido. Alguém com quem você talvez cruzasse receosamente pela rua. E talvez nem se questionasse por quê.

***

Você encontra fácil, fácil os dois livros de Mosley citados nesse texto numa dessas queimas de estoque do Submarino. Comprei ‘Uma Volta com o Cachorro’, por R$ 9,90. Fique de olho.

***

Ler livros assim me levantam algumas lebres, como por exemplo a questão de gênero ou de raça na literatura. Será que um branco conseguiria mergulhar numa personagem negra com a mesma competência de Mosley?


[1] Mosley transita por outros gêneros além dos romances policiais, publicando histórias de terror e de ficção científica.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Lívio Oliveira 11 de Dezembro de 2010 2:12

    Gostei do texto, Gostei do tema. Somente não achei sentido para o questionamento final acerca de “gênero ou de raça na literatura”. Não faz sentido.

    Se fosse assim, um escritor homem teria imensas dificuldades em criar personagens femininas e vice-versa.

    Acredito, caro Alex, que não perdura tal dúvida. O escritor tem que mimetizar os seus personagens. Só. E, sem isso, não há saída. Nem entrada.

    Abs.

  2. Alex de Souza 11 de Dezembro de 2010 21:26

    Certamente, Lívio. É por isso que fiz uma indagação, não uma afirmação. Existem vários exemplos para comprovar o contrário. Mas há o que se pensar sobre o assunto.

  3. Sheyla Azevedo 13 de Dezembro de 2010 16:26

    Você resenha tão bem (como em outras paragens literárias que faz) que fiquei com vontade de correr e comprar o livro para compartilhar ainda mais das suas ideias e indagações.

    Aproveitando: gostei muito do seu texto na sessão “Gente que pensa” da Palumbo. Deveria ser anexado na pauta de discussão nessa nova gestão que se aproxima.

    Um cheiro, S.

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