A carta de Maria Zerôncio

Por François Silvestre
NO NOVO JORNAL

Enfeitaram o salão nobre da Casa do Estudante. Festa de gente de fora, anunciando a vinda da Primeira Dama do Estado, que trazia uma Kombi e víveres de presentes para a instituição.

A Casa do Estudante guardava uma tradição de luta libertária, estuário e abrigo de todos que lhe procuravam, seja pelo empurrão da pobreza ou pela busca de aprender e libertar-se. Ofereceu ao sacrifício da resistência muitos dos seus abrigados. Emanoel Bezerra e Kerginaldo Rocha são os símbolos dessa luta.

Pois bem. Dona Aída Cortez vinha com doações para uma Casa refratária a esmolas. Os dirigentes de então negavam uma tradição irrevogável. Não daria certo. E não deu.

No meio da solenidade, eu peço a palavra. E ela me concede. Contra a vontade do Coronel comandante do evento. Comecei desejando ao filho de dona Aída, grávida, a sorte de uma vida feliz numa Pátria livre. Direito que nos roubam na Pátria estrangulada.

Aí, o militar desliga o som. Continuei, dizendo que aquele luxo era estranho a nós. Denunciei o governo Médici de praticar tortura e promover terrorismo nas escolas e faculdades. Chamei de fascista o regime brasileiro. Confusão. Dona Aída se despede e a solenidade é encerrada.

Tudo volta ao normal. No dia seguinte, cedinho, a casa é cercada. Me tiraram da cama, no 09, e me levaram sem permitir o banho.

No depoimento de dona Aída, na Polícia Federal, ela não me acusa. Diz que não se sentiu agredida e que “ele parecia estar declamando”. Tá lá.

Mas a Polícia Federal era um covil do fascismo. Preparou um inquérito terrível. (depois eu conto). E esse discurso me rendeu uma condenação de dois anos, pela Auditoria do Exército, em Recife. Não foi minha única prisão.

Posto em “sossego” na minha cela da Colônia Penal, chega um agente e manda vestir calça e camisa, pois tinha visita. “Visita na cela”? Pois é. Nunca houvera.

Era dona Aída Cortez acompanhada de vários assessores e do jornalista Adhemar de Almeida, irmão de Alcimar.

Ela entrou, fez perguntas e me disse que estava escrevendo um livro. “Mas não tenho tanto tempo vago quanto você”. E aí me explicou o motivo da vista. Tinha recebido uma carta belíssima da minha mãe, mas sentiu alguma ameaça nas entrelinhas. E pediu para eu informar a dona Mariana que ela, dona Aída, nada tinha a ver com minha prisão.

Minha mãe nunca escreveu essa carta. Foi dona Maria, mãe de Tota Zerôncio; uma mulher inteligente, brava, de bondade ímpar. Explicou que “escrita por mim a carta não faz efeito”. E pôs o nome da minha mãe. Que também não fez efeito.

Apenas levou a Primeira Dama à Colônia Penal.

Ao saber disso, minha mãe elogiou dona Maria, mas declarou: “Eu não perco tempo escrevendo para desconhecidos”. Té mais.

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. Tácito Costa 25 de abril de 2011 14:05

    DE ALOISIO LACERDA, POR E-MAIL:
    Olá,
    Tenho observado que o amigo iniciou uma série de artigos no NOVO JORNAL. Um resgate.
    Adelante!

  2. João da Mata 24 de abril de 2011 12:06

    François, tambem gostei da “declamação”. Quem senão nós, sobreviventes, para resgatar essas memórias. É nosso dever. É nossa obrigação.

    Lembro do primário quando o professor pedia para ler um trecho de uma obra.
    Lembro de uma linda colega de classe declamnado. Como era lindo!. Como se declamava nesse tempo.

    Lembro do meu amigo Alvamar no pe Monte se rebelando e reclamando da professora de ingles. Tambem entrei nessa . Tambem tive minhas rebeldias. Por pouco….

    Tem uma palavra François que to louco pra lembrar. Li em João Ubaldo. E Não lembro da danada. Me ajude!. Trata-se daquele poema, ou trecho
    literário que vinha entremeado nos livros de portugues. Existe um nome para isso.

  3. françois silvestre 24 de abril de 2011 11:34

    Lívio. A memória de dona Mariana se alegra com seu comentário. Geraldo. Juliano, Sérgio, Boanerges, Goreth, Rosana e vários outros foram chamados para depoimento. Mas só eu fiquei preso, na sede da Polícia Federal, sob a guarda de Hugo Póvoa, que se gabava de ser um lacerdista que havia prendido Lacerda. O certo é que Póvoa prometera ao coronel Bento elucidar um assassinato ocorrido em Natal. O morto havia assassinado meu pai há dezesseis anos. Póvoa e Bento usaram minha prisão política para desarquivar o inquérito na tentativa de me incriminarem. Como não conseguiram, foram obrigados a me soltarem. A Ditadura já estava moribunda.

  4. Jarbas Martins 24 de abril de 2011 11:11

    para os arquivos implacáveis da nossa história.abraços, François.

  5. Geraldo Alves S. Júnior 24 de abril de 2011 6:06

    Belo depoimento François, eu sempre soube desse fato através de várias versões, e agora por seu intermédio as coisas se completam, e faz com que minha admiração por voce permaneça onde sempre esteve, na mais alta conta. Será que é possível voce dizer alguma coisa sobre o episódio da carta ao povo Brasileiro que voce, Juliano Siqueira, Sergio Dieb, nos apresentou no D.A do CCHLA, episódio que se não me falha a memória levou a uma nova prisão sua e também de Juliano ? Um abraço.

  6. Lívio Oliveira 23 de abril de 2011 21:35

    François, você é mesmo a nossa redenção textual. E essa frase de sua mãe é genial. Genial! Li/ouvi, certa feita, em uma entrevista de Nelson Rodrigues, algo que dizia mais ou menos assim: “quando se escreve para quem não se conhece se tem resultados também desconhecidos.” Abraço.

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