A casa de dona Nanu

Era a festa de São José, o padroeiro da cidade, e eu estava sentada na praça da igreja olhando o movimento que era intenso àquela hora, porque havia pouco terminara a procissão.  De repente alguém me toca o ombro e pergunta:

– Lembra de mim?

Não, eu não lembrava daquela mulher um pouco mais velha do que eu, mas ainda cheia de vigor. Ela, no entanto, lembrava de mim, dos meus irmãos, da minha irmã e disse alongando a conversa:

– Você era muito pequenininha naquele tempo. Eu sou a filha de Nanu.

Bastou isso para que uma torrente de lembranças me acudisse à mente e eu voltasse no tempo, voltasse à casa de dona Nanu. A casa era uma das mais antigas naqueles arredores, feita de tijolos vermelhos largos e descascados pelos anos e com uma cumieira mais alta que as demais. À frente, uma pequena varanda recebia a sombra das muitas plantas que ela tinha no quintal, inclusive aqueles pés de sete-copas. A minha mãe às vezes ia à tarde por lá, só para conversar, junto com madrinha Zulmira e Maria de Sebastião, outra comadre sua.

Ela, minha mãe, dizia que não gostava dos pés de sete-copas, que aquela era uma planta que não trazia sorte, e que quando a sétima copa caía o homem ou a mulher da casa desaparecia, por isso ela sempre preferiu o pé de algaroba. 

Coincidência ou não, Dona Nanu era viúva. Mas, a sua casa atraía muito a meninada e todo mundo sabia que era por causa dos muitos bichos e das muitas aves que ela criava. Tinha muitas, muitas mesmo: mais de um galo, muitas galinhas, pintinhos, patos e pombos. Tinha aquelas aves maiores, com um papo vermelho que quando elas mexiam fazia um barulho muito feio, eram os perus. E tinha, também, aquelas aves com um rabo enorme, que quando elas sacudiam virava um leque colorido e muito bonito, eram os pavões. Lá tinha até galinha nanica, ninguém mais tinha galinha nanica nas redondezas.

Às vezes a gente até brincava de “Na casa de Dona Nanu”. Era quando a minha mãe perguntava:

– Vão prá onde?

– Vamos brincar.

– Brincar de que?

– Na casa de Dona Nanu. 

Às vezes a gente brincava de correr atrás dos bichos e às vezes de correr com medo deles. E se acontecia de não podermos entrar não perdíamos a vigem: a gente  jogava pedras por cima da cerca, só prá ver as aves correrem prá lá e prá cá.

E se acontecia de naquelas tardes em que a minha mãe ia conversar com dona Nanu trazer ovos de galinha para casa, a gente comia ovo batido com farinha, uma receita simples e muito comum no sertão: num prato de ágata, primeiro minha mãe batia a clara com um garfo, até virar o prato e não desgrudar do fundo; depois botava a gema e batia mais um pouco, e por último acrescentava açúcar e farinha, fazendo uma mistura que era uma delícia. 

Agora me digam, tinha como eu não lembrar da casa de dona Nanu?  

De repente, a mulher toca meu ombro novamente. 

– Quem lembra de mim é Chico, seu irmão.

Aí eu pensei comigo mesma: Mas meu irmão Chico já era grande, não brincava como a gente na casa de dona Nanu.  

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