A Casa de Zéfiro

Foto: vista aérea do Recife – Fonte: Google)
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Por Fernando Monteiro

Queria porque queria reconstruir a casa onde “havia sido feliz”.

Era o que ele acabava de dizer ao arquitecto sentado à sua frente – não menos que o melhor ou, pelo menos, o mais celebrado dos profissionais do país.

O velho arquitecto era, mais que isso, uma instituição da cultura nacional: havia construído a capital aérea, de arcos musicais e linhas puras, saídas do lápis para levantar abstrações concretas, soerguer desenhos sustentados pelo cálculo de um poeta.

A cidade fora arrancada da sua imaginação para aterrissar sobre um nada no meio do planalto central: uma espécie de nave à espera, talvez, do dia de rumar para algum futuro coletivamente menos infeliz…

“Infeliz? A casa na qual o senhor foi infeliz?”

Aos 102 anos, ninguém pode ouvir muito bem. Corrigiu, então, com um sorriso de saudade dos cigarros:

“Feliz. A casa onde eu fui feliz.”

“E como era essa casa?”

“Antes, eu precisaria contar como era a mulher que, então, vivia comigo naquela casa clara e escura, grande e pequena – ou talvez muito pequena para uma descendente da família Garcia d’Àvila, da mais antiga aristocracia do sertão estranho [fez uma pausa]… Que não é mais estranho, mas cheio do papaguear de televisores nas praças das cidades e das almas.”

“O senhor é um fazendeiro-poeta.”

“Eu? Que nada! Poesia não serve para coisa alguma, que eu saiba”…

“Está servindo para o senhor tentar descrever uma mulher que amou.”

“Ah, isso eu amei! – e amo. Ainda agora espero…”

O arquitecto interrompeu:

“A poesia é o amor, é uma cidade, é uma infância que volta no gosto de um doce.”

“Não gosto de doces. Gostei de poucas coisas na vida, e dessa mulher eu gostei mais do que de tudo.”

“Devo supor que era bela” – o arquitecto arriscou esse tipo de lisonja deslocada naquela conversa como o homem que pensava na mulher que havia amado “mais do que tudo”.

“Não, não era bela. Ou digamos que não fosse bela, no sentido usual da palavra ‘bela’. Era uma mulher de personalidade forte e, talvez, parecida (até fisicamente) com Eliza Lynch, a “Marechala”…

“Quem?”

“A mulher de Solano Lopez, o Marechal que reduzimos a pó, em Cerro-Corá”…

“Lynch, o senhor disse?”

“Uma irlandesa de cabelo nas ventas, mas uma mulher inesquecível, também”…

“Nunca ouvi falar dela.”

[E é tido como um homem culto – ele não pôde deixar de registrar para si mesmo.]

“Não importa. A minha Eliza chamava-se Eloá. Eloá Garcia d’Ávila de Zéfiro. Nome que não lhe fazia justiça, nem se parecia com ela”…

Teve a impressão de acender-se olhar cinzento do arquiteto? Ou de algo a se agitar lá dentro, fugaz reluzir do fio de cimitarra de alguma recordação?

O camarada tinha remotas origens levantinas, gostara de charutos e de belas mulheres – na sua época –, quando se podia desfrutar de coisas hoje perdidas num mar de cuidados com a saúde que mal postergam o túmulo certo, incontornável, definitivo. Os faraós tristes bem que poderiam falar a respeito, hirtos nas suas tiras de linho desatadas pelos ladrões…

Bem, pensara nos reis, nas pirâmides, porque estavam em São José do Egito, aonde trouxera o arquitecto em avião particular, comprado com o dinheiro do fumo de Arapiraca, o lugar de onde arrancara Eloá, porta afora da parte reservada de um bordel de coronéis de Sergipe e baianos da Ihéus do cacau, antes da praga dos anos setenta.

Estava tergiversando – mentalmente tergiversando. O que queria mesmo era reconstruir, detalhe por detalhe, a casa em que fora feliz com Eloá e seu mistério, suas pernas longas e seu jeito de sentir frio nos ombros descobertos, às duas horas da madrugada, diante do Bósforo tão distante de São José que parecia mentira estar na antiga “Constantinopla” citada pelos repentistas da Serra do Navio como se fosse a Lua do Jardim de Carlos Magno e dos Cavaleiros de França, Oropa e Bahia…

“O senhor é um homem muito rico”.

“Sou, de fato.”

“Mas, não se sente feliz.”

“E por que eu deveria me sentir feliz?”

O arquitecto tão famoso respondeu apenas com um dar dos ombros magros, chupados para dentro do caro casaco branco. Sempre sentia frio.

Não respondeu ao homem com estas palavras, mas pensou, olhando acima daquela cabeça ilustre:

Doutor Arquitecto, o dinheiro não existe quando ultrapassa de muito e se alcançam as cifras dos zeros ocos como a boca de um bebê sem cabeça;

o dinheiro é o que faz os ricos serem diferentes (não quer dizer que tenham de ser felizes ou infelizes apenas pelo fato de possuírem dinheiro), porque nada nos pode tornar mais loucos do que somos, todos, na vida que decorre sem sentido entre uma Lua e outra, o Sol que só é jovem uma vez e a Morte que nos iguala na catacumba romana e nas valas comuns dos vietcongues;

o dinheiro é um papel impresso com arabescos em quase deboche, e o ouro é um metal que se derrete a determinados graus de temperatura, na cave onde saqueadores aniquilam tesouros arqueológicos que cingiram testas de rainhas e peitos de reis-esquecidos. Eu vou perguntar, agora, com minha voz ainda forte: por quanto reconstruirá a casa na qual fui feliz?”

“Como era essa sua casa?…”

“Era uma casa”.

“Sim, mas como era?”

Realmente, como era aquela casa?

O que ele poderia responder sobre uma casa que havia se tornado uma espécie de ruína sob um lixão, numa rua degradada, cheia de mendigos, seringas e excrementos?

A pobreza havia tomado conta do seu país (nunca da sua conta bancária, por artes mais ilegais do que mágicas, digamos).

A pobreza era o destino do mundo. A pobreza era pobre, o mundo só era rico de tristezas, e ele, Zéfiro, fora feliz somente uma vez, naquela temporada de viagens e retornos para a casa que, agora, era impossível recordar como era, nos exatos detalhes em torno de Eloá (uma Mercedes de Acosta do lado de cá)…

Estava pasmo: não se recordava, não possuía fotos, havia rasgado ou queimado tudo (quando enlouquecera de ciúmes, num mês de agosto sombrio como são quase todos os agostos brasileiros).

Depois, muito depois, havia comprado o lixão a um homem que se tornara proprietário do terreno afundado da Casa (tentava erguer a dita cuja com a maiúscula mental, dourada), e não estava conseguindo ultrapassar dos pórticos da mente cansada, não havia formas, portas, colunas, janelas precisas na Casa da recordação dos anos de emoção, tudo era um vazio refletido nos olhos do arquiteto, que ficou esperando, até perguntar astutamente:

“O senhor destruiu a casa?”

Estava perplexo. Olhou para ele, meio sem compreender, porém respondendo:

“Talvez eu tenha mandado destruir, sim.”

“E, agora, quer reconstruir, em busca do quê?…”

“Não sei. Ou sabia, antes do senhor chegar.”

“Bem, o tal lixão…”

“Virou um lixão. Há muitos lixões nas cidades da pobreza”…

“Nem todos sobre as casas”…

“O senhor acha?”

“É apenas uma…”

“Não, é importante que me diga! Há tantos lixões e milhares de pessoas vivem do que pegam lá naqueles monturos do resto daquilo que sobra de quem é menos miserável do que os miseráveis”…

“Não gosto de pensar na miséria.”

“Mas o senhor é um sábio, construiu uma cidade inteira”…

“Construí uma ilusão.”

“De meio século.”

“E que nem é mais a mesma ilusão, com o lixo das cidades-satélites que infelizmente…”

“O senhor é um homem mais triste do que eu.”

Eles ficaram ali sentados, ainda um longo tempo, contemplando as suas tristezas de qualquer modo diferentes – e sem poder fumar os havanas de que gostavam, entre tantas diferenças. O arquitecto estava ainda mais frio por dentro, porque tinha certeza de que também havia conhecido a mulher – Eloá – sob outro nome, no cerrado do projeto que estava no centro da sua vida.

Foi embora com essa impressão. E nem se despediu de Zéfiro com o olhar perdido no meio da decepção.

Depois, o arquitecto ficou sabendo que uma estátua – parecendo de sal – fora plantada no lugar do lixão arrasado (se é que se podia arrasar um lixão) e transformado num parque deserto, com um espelho d’água refletindo o céu que não nos protege, em Tânger ou em Trieste.

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