A comicidade da vida

Os palestrantes otimistas – aqueles seres engraçados e sorridentes que escondem suas frustrações – costumam levantar a auto-estima da platéia com argumentos pifeis como “você venceu milhões de espermatozóides e alcançou o primeiro lugar na cadeia da vida; você é um vencedor”. Ora, amigo leitor, é preciso reconhecer o quanto somos miseráveis. Se quisermos mesmo levantar algum sorriso basta rir desta nossa condição de quase nada.

Se olharmos a vida em seus pequenos detalhes, tudo parece bem ridículo. É como uma gota d’água vista num microscópio; uma gota cheia de protozoários. Achamos muita graça como eles se agitam e lutam tanto entre si. Agora, imagine essa gota em um oceano. Deu pra imaginar nosso papel irrisório no todo universal? Esse alvoroço todo produz mesmo um efeito cômico, sobretudo naqueles dias mais agitados do cotidiano. Olhamos pra nosso umbigo e pensamos: pra que o estresse? Somos quase nada!

Visto por outro preâmbulo, podemos enxergar um universo dentro de nós mesmos. Uma visão mais egoísta e responsável. Afinal, temos lá nosso papel no mundo. De cá, prefiro essa coisa mais abrangente e o senso mais real do ridículo. É uma maneira de tirar uma com as armadilhas da vida. E a vida é curta e sofrida, amigo leitor.

Penso também que aceitar essa condição mísera colabora para um aperfeiçoamento da mais nobre das qualidades: a simplicidade. Mesmo milionários e poderosos, ao reconhecer a brevidade da vida e a nossa posição na história do universo, no mínimo daríamos boas risadas e saberíamos gastar melhor o dinheiro; saberíamos viver com instantes mais longos de alegria. É Schopenhauer quem diz: “Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é uma vida heróica”. Ou mais relaxada, diria.

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