“A comoção seletiva das pessoas”

Na foto, o marceneiro José Antônio

Por Tácito Costa

É provável que se Clodoaldo Damasceno não tivesse chamado atenção para a desproporção da repercussão nas redes sociais dos desaparecimentos e mortes violentas do marceneiro José Antônio (aqui) e do estudante Máximo Augusto (não precisa de link, todos acompanharam) eu não tivesse me ligado na questão.

O marceneiro ficou mais tempo desaparecido, mas coincidentemente seu assassinato foi desvendado praticamente no mesmo dia que o do estudante.

A desproporção da repercussão dos dois casos foi repetida nas edições dos jornais impressos desta quinta-feira, 07. O que mostra que o problema não está na cabeça dos jornalistas, como uma leitura mais apressada pode julgar. Mas na da maioria das pessoas que faz as redes sociais e, porque não estender à sociedade, visto que as redes hoje são um espelho dela, refletindo suas coisas boas e ruins.

Eis o registro de Clodoaldo: “Há dez dias esse marceneiro está desaparecido. Essa notícia também está nas páginas policiais dos jornais locais. Não vê-la repercutir e ser compartilhada nas redes sociais merece análise sociológica.”

O post mereceu curtidas, compartilhamentos e comentários. Um comentário curtinho chamou-me atenção, o de Elinne Barros: “Eu estava justamente pensando nisso hoje, sobre a comoção seletiva das pessoas.”

Não foi a primeira e nem será a última vez que veremos essa “comoção seletiva” da sociedade Elinne. Embora sem ser sociólogo arrisco o palpite de que essa comoção tem relação direta com preconceito. Principalmente de classe.

Mas também racial e contra minorias em geral. Há poucos dias mesmo uma moça negra foi massacrada nas redes por ser… negra. Uma moça linda, diga-se de passagem.

O estudante Máximo Augusto era homossexual. Mas, branco e de classe média, o que faz muita diferença na cabeça das pessoas. Pra comoção popular e o sensacionalismo da imprensa serem completos faltou o envolvimento de algum menor no crime. Daria também um gás danado aos que defendem a redução da maioridade penal aos 16 anos.

O número de homossexuais assassinados no Rio Grande do Norte é alto. Segundo o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais no Brasil (LGBT) do Grupo Gay da Bahia (GGB) foram 15 mortes em 2013 no RN. Número que deve ter se mantido no ano passado, ou seja, mais de um assassinato por mês. Alguém tem notícia de alguma comoção com relação a uma ou outra dessas mortes? Eu não tenho. E quem se der ao trabalho de pesquisar vai constatar que a maioria dos assassinados era formada por pobres e pretos.

Entendam bem, não estou minimizando e nem sendo insensível com a morte do estudante. Apenas chamando atenção para nosso preconceito, insensibilidade e falta de comoção com a morte de tantas outras pessoas em circunstâncias parecidas.

Por isso, destaquei mais acima que o preconceito maior é mesmo o de classe social, o que faz, por exemplo, com que o tratamento para homossexuais e negros pobres e ricos sejam diferentes.

Por fim, revolto-me e lamento as mortes de José, o marceneiro, e de Máximo, o estudante. Revolto-me e lamento a morte dos homossexuais anônimos que morrem todos os anos no RN e não viram “comoção”.

O relatório Grupo Gay da Bahia pode ser acessado aqui: https://homofobiamata.files.wordpress.com/2014/03/relatc3b3rio-homocidios-2013.pdf

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Luis Sávio dantas 10 de maio de 2015 16:06

    Por causa dessa comoção seletiva é que as pessoas não se sensibilizam com o que acontece na África, terra de muita miséria e violência, que em sua maior parte foi ocasionada pela colonização horrenda que os ocidentais fizeram. Agora mesmo, os facínoras da OTAN destruíram um país que tinha o nome de Líbia, e os seus cidadãos desesperados tentam chegar em barcos precários as costas da Itália, num jogo de desespero onde se tem uma chance em uma de se continuar vivo, por que lá, é nenhuma chance em nenhuma. Ao invés de proporem um ajuda tipo bolsa família para que os africanos não fujam dos seus países, o que se vê é uma atitude fascista, pois os EUA e a Grã Bretanha acabaram de anunciar que vão bombardear as costas da Líbia para tentar conter o tráfico humano, essa atitude é idêntica a ajuda humanitária que os EUA mandaram para o Haiti na época do terremoto, soldados armados com fuzis e metralhadoras. Um outro exemplo emblemático dessa mentalidade fascista, foi recentemente depois da contaminação do vírus Ebola, quando um parlamentar dos EUA, sugeriu que a única forma de conter o avanço do vírus, era matar todos os infectados. A humanidade corre sério perigo, por causa do poder que a elite fascista dos banqueiros internacionais conseguiram.

  2. Célio Santana 9 de maio de 2015 16:09

    Congratulações ao Brilhante Jornalista Tácito, pela profundidade do texto produzido. Entretanto um fato me chamou atenção foi a responsabilidade, a competência, o elevado espírito público da Polícia civil em desvendar ambos os casos, com autoria e materialidade, e em especial ao caso do Pedreiro onde não houve comoção social, mas o empenho foi efetivo, fato que com todo respeito não me impressiona pois as investigações no caso do pedreiro foram conduzidas pelo Experiente Delegado Raimundo Rolim, que soma em seu currículo um sem números de êxitos, profissional este que não se importou se era uma pessoa que não dispunha de “redes sociais”, mas que acima de tudo nos faz acreditar que a polícia cumpriu sei papel, faltando agora o papel da justiça.

  3. Ubiratan 9 de maio de 2015 10:44

    Arichelly disse tudo…

  4. Arychelle 8 de maio de 2015 15:15

    Nesses dois casos em tese, não acredito na comoção seletiva das pessoas! O estudante era muito conhecido, a família era muito conhecida, tinham muitos amigos, é óbvio que a notícia do desaparecimento se propagou de forma mais rápida. A maioria dos compartilhamentos foram de pessoas do convívio da família, independente da classe social deles. Provavelmente o marceneiro não tivesse tantas relações sociais quanto o estudante, o que dificulta a propagação da notícia de seu desaparecimento! A polícia investigou os dois casos. O do estudante, devido a ajuda de um maior número de pessoas em sua procura, teve um desfecho mais rápido, com pistas e depoimentos acerca do caso. Creio que são dois casos que merecem atenção da segurança pública sim, mas não que exista preconceito de classes, cor ou ou opção sexual.

    • Tácito Costa 8 de maio de 2015 16:46

      Arychelle, pertinentes suas observações. Concordo em parte com elas. O estudante, família e amigos, dadas suas condições sociais de classe média estão totalmente integrados às redes sociais. Já o marceneiro talvez nem tivesse Facebook, o que por si só já sugere uma certa exclusão. Nesse caso seria “natural” seu assassinato ter tido menos visibilidade e não causado nenhuma comoção, apesar de ter deixado esposa e três filhos, sendo dois adolescentes. Seu comentário me remete também ao abismo social existente entre o estudante e o marceneiro. O que obviamente reflete-se nas redes sociais. Um teve mais visibilidade devido sua condição social, disso não tenho a menor dúvida. A sociedade brasileira é excludente, machista, racista e preconceituosa. Não tem como as redes sociais serem diferentes, refletem esse coquetel indigesto.

  5. thiago gonzaga 7 de maio de 2015 17:31

    Caro amigo Tácito Costa, eu cada dia mais só admiro seu trabalho como jornalista.
    Esse seu texto merecia estar em todos os jornais do Estado.
    Precisava chegar ao maior número possível de leitores.
    Uma ótima reflexão.
    Um abraço de admiração.

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