A conjura moderna segundo Vila-Matas

Por Antonio Gonçalves Filho
ESTADÃO

O escritor catalão Enrique Vila-Matas sempre foi um admirador do poeta, novelista, músico e enxadrista francês Raymond Roussel (1877-1933). Não é crime nenhum. Também os autores do nouveau roman francês viram no precursor dos surrealistas franceses um evangelista do modernismo literário, um profeta das rimas pobres – ele rimava “billiards” com “pilliards” – que iria “salvar” a literatura da mesmice.

Vila-Matas, que disputa o posto de melhor escritor espanhol com Javier Marías, estava fascinado por Roussel em 1983, quando começou a escrever História Abreviada da Literatura Portátil, cuja tradução é lançada pela Cosac Naify. Muitos intelectuais antes dele o reverenciaram – entre outros, Gide e Foucault, cujo único ensaio de crítica literária é dedicado a Roussel, endeusado pelo filósofo como um autor que criou mitos modernos para liberar o inconsciente. Pode ser.

O fato é que Roussel acabou aprisionado no próprio labirinto verbal. O mesmo acontece com Vila-Matas nesse pequeno livro portátil que já denuncia o gosto do escritor pelo jogo de palavras e pela literatura autorreferencial, explorados em livros posteriores e melhores – Bartleby e Companhia, O Mal de Montano, Doutor Pasavento. Publicado em 1985 pela editora Anagrama, de Barcelona, História Abreviada da Literatura Portátil ganhou o prêmio Rómulo Gallegos e projetou internacionalmente o nome do autor, fascinado pela vanguarda dos anos 1920 e pela correspondência entre a invenção visual e o discurso verbal – daí a escolha de Marcel Duchamp e Walter Benjamin como personagens de uma sociedade secreta, a Conspiração Shandy, fundada em 1924 e dissolvida três anos depois por ação do satanista, alpinista, enxadrista e drogadito inglês Aleister Crowley. Cabe ao leitor cruzar a fronteira do anacronismo para saber onde começa a ficção e acaba a realidade.

Vários outros personagens do modernismo literário e visual juntam-se a essa conjura portátil de Vila-Matas, do fotógrafo Man Ray ao pintor Francis Picabia, passando pela pintora norte-americana Georgia O”Keefe e o poeta dadaísta francês Jacques Rigaut. Duchamp, porém, é sua referência maior – e isso não só por ser o inventor da boîte-en-valise (uma caixa-maleta em que o criador do ready-made exalta o portátil na arte, enfiando nela miniaturas de obras suas). Duchamp reuniria, segundo Vila-Matas, todas as qualidades necessárias de um “shandy”: era extremamente sexualizado, insolente, nômade infatigável, um pouco vagabundo, simpatizante da negritude e obcecado pelo colecionismo, como Benjamin, que gostava de velhos brinquedos e cartões-postais. Os “escritores portáteis”, assim como Duchamp, deveriam, a exemplo dos sem-teto e exilados, carregar apenas uma maleta em que caberia toda a obra de uma vida. Miniaturizar, afinal, seria abolir o caráter utilitário da literatura, como defendia Roussel.

Reordenar as ruínas das vanguardas artísticas dos anos 1920 não é, evidentemente, uma tarefa fácil. Vila-Matas não só aceitou o desafio como ainda tentou investigar a razão de os adeptos do shandismo serem suicidas (como Rigaut e Roussel), concluindo que essas “máquinas solteiras” se recusaram a deixar descendentes justamente pelo “apetite de não ser” e evitar o universo dos “imbecis” – daí a atração pela morte entre os vanguardistas. É uma explicação simplista, quase tanto como o uso de uma frase extraída do Tristram Shandy de Laurence Sterne para batizar os conjuras do shandismo e separar esses seres “cultos” dos mundanos: “A seriedade é uma misteriosa atitude do corpo para ocultar os defeitos da mente”. Vila-Matas concorda. Para ele, o humor vem antes de tudo. O pastiche, na esteira.

Num capítulo dedicado aos odradeks (referência ao protagonista de um conto de Kafka, também shandy, segundo o livro), Vila-Matas brinca com o conceito de doppelgänger, fazendo com que os “odradeks” sejam “inquilinos negros” dos escritores portáteis, duplos voluntariosos dispostos a desestabilizar os corpos dos mesmos com inesperados movimentos espectrais. É como se os vanguardistas dos anos 1920 fossem tomados por espíritos que se infiltrassem entre os dadaístas e surrealistas para subverter a ordem artística do mundo – imagem um tanto brega e indigna de um escritor familiarizado com as artes visuais como Vila-Matas.

Há um mundo de referências literárias e artísticas em seus livros, dando razão ao crítico americano Frederic Jameson quando este argumenta que a pós-modernidade substituiu a paródia convencional pelo pastiche por ter perdido a conexão com o passado e a capacidade crítica. A intertextualidade, na literatura de Vila-Matas, seria um sintoma dessa falta de autonomia ficcional, dependente que se tornou de referências para construir seu credo literário. Não é um problema só dele, mas de toda uma geração desencantada que, paradoxalmente, usa referências eruditas e inacessíveis para afastar leitores “indesejáveis” – isto é, não submissos ao catecismo de Joyce, Kafka e companhia (vale dizer que Vila-Matas criou a Ordem dos Finnegans, cujos membros são obrigados a venerar Ulisses e seu criador).

Pastiche é um recurso proeminente na cultura de massa. Vila-Matas cruza o acadêmico e o popular – até Pola Negri é evocada nessa conjura pós-moderna – para atrair a crítica, graças a essa contradição, típica da cultura fragmentada, cubista, do mundo globalizado. Esse tipo de literatura híbrida, em que o ensaio literário encontra a ficção para subverter a história, nem sempre funciona. Mas há quem insista.

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