A conquista da quietude

Por Dorrit Harazim
O GLOBO

Não é de hoje que profissionais de áreas criativas tentam conciliar a sedutora tirania da era digital com pelo menos um nanossegundo de tempo, espaço e silêncio para pensar.

Três anos atrás, nos Estados Unidos, um doutorando da Universidade da Carolina do Norte inventou um programa que permite ao usuário bloquear o acesso de seu computador à internet por um período de até oito horas . O marketing do software, espertamente batizado de Freedom (liberdade), tinha alvo certo. “Freedom te liberta das distrações, te devolve o tempo[de que você precisa] para escrever, analisar, criar”, proclamava o anúncio.

Ao contrário de outros programas de desintoxicação digital — um dos mais úteis congela a tela em intervalos variáveis para induzir o usuário a levantar e dar uma relaxada —, o Freedom interrompe a conectividade com a internet de forma xiita. Não basta um clique para desfazer o apagão. É necessário desligar e religar o computador, o que equivale a uma eternidade para quem está trabalhando.

Pois ninguém menos do que Nick Horny, Nora Ephron, Zadie Smith e Naomi Klein, para citar alguns escritores da safra de talentos da atualidade, aderiram com entusiasmo à ferramenta. E derramam-se em elogios à reconquista da liberdade de criar.

Em apenas uma geração, o estado de exaltação diante do inebriante ganho de tempo e expansão de conhecimento proporcionado pela era digital começa a ser mitigado por quem se sente sufocado ou distraído pelas demandas ininterruptas da conectividade. Segundo pesquisa recente, quem envereda pela pantagruélica massa de páginas da internet, dedica, em média, não mais de dez segundos a cada uma que acessa.

Em recente ensaio sobre a urgência de uma desaceleração em benefício de se ter mais tempo e espaço para pensar, o escritor e ensaísta britânico Pico Iyer observa que a revolução da informação veio sem manual de instrução. E portanto ainda não sabemos fazer uso adequado dessa ferramenta que alterou o ritmo de nossas vidas. Iyer aproveita para recorrer a Blaise Pascal, que atribuía todos os problemas do ser humano à nossa incapacidade de ficarmos sozinhos e calados num quarto. “Distração é a única coisa que nos consola de nossas misérias, embora seja ela a maior de nossas misérias”, filosofou o pensador francês já no século 17.

Para procurar um tipo de felicidade “que não depende do que está acontecendo”, Pico Iyer deixou a vida hiperconectada de Manhattan e mudou- se para o Japão. Ali concluiu seu livro mais recente, “The Man Within My Head”, que chega às livrarias americanas esta semana, acessando a internet somente após concluir seu período diário de criação literária. Versão moderna da técnica usada por Victor Hugo no século 19. O autor de clássicos como “Os miseráveis”e “Nossa Senhora de Paris” tinha por hábito escrever nu; cabia a seu mordomo esconder as vestimentas do patrão para impedi-lo de sair às ruas antes de concluído o tempo que ele se alocara para escrever.

Na área da educação, dúvidas também se amontoam. Poucos meses atrás, Diana Senechal, membro do Conselho de Ensino Público de Nova York, soou o alarme ao analisar o desempenho dos alunos de primeiro ano das faculdades públicas da cidade: 75% precisavam de aulas de reforço. Em um estudo recente, “A república do ruído”, Senechal fala da perda de quietude por parte dos estudantes — a perda da capacidade de pensar e refletir de forma independente sobre um tema , em meio a tantos aparelhinhos que piscam, vibram, chamam, cujas minitelas se alternam ininterruptamente e geram um vazio semelhante à saciedade.

“Os alunos não aprendem mais a lidar com momentos de dúvida, eles se habituaram a produzir algo o tempo todo. Somos uma nação grudada em smartphones e telas de computador, checando e-mails e alimentando tweets.”

Senechal não advoga jogar IPads e IPhones no lixo nem prega o isolamento sem rumo; apenas reivindica uma vida tecnológica que contemple a formação de ideias e a prática da quietude.

O americano Nicholas Carr, talvez o mais arguto observador da era digital, já havia tumultuado o coreto com seu provocativo ensaio “Is Google Making Us Stupid?”, publicado em meados de 2008. Sua obra mais recente , “A geração superficial — o que a internet está fazendo com nossos cérebros” (Editora Agir), que lhe valeu ser finalista do prêmio Pulitzer de 2011, aprofunda ainda mais as mudanças relacionadas à era digital.

Até aí pode-se dizer que são análises teóricas, experimentações e preocupações de intelectuais com nossa existência digital ainda em construção.

Coube à Volkswagen de Wolfsburg, Alemanha, maior montadora de automóveis da Europa, colocar algo concreto na mesa de negociações trabalhistas que começam a se formar em torno dessa equação. Pressionada pelo über sindicato IG Metall, a empresa aceitou permitir que 1.154 de seus funcionários munidos de Blackberry corporativos os desliguem 30 minutos após o final do expediente e só voltem a atender a chamadas 30 minutos antes da retomada do trabalho, no dia seguinte.

Assim, pela primeira vez desde a introdução da conectibilidade móvel na empresa, funcionários que se sentiam poderosos a bordo de seus smartphones (até se darem conta de que responder a e-mails de chefes à meia-noite era um atraso de vida) puderam cair na folia no fim de ano sem ficar de olho no aparelhinho. A alforria não se aplica aos executivos sênior nem ao grosso dos quase 190 mil funcionários da VW na Alemanha.

Outras corporações também buscam caminhos semelhantes, prevenindo-se contra o que por enquanto é apenas uma sigla — a ITSO, ou “incapacidade de desligar”, em inglês. Para as quatro letras adquirirem status de mais uma síndrome do mundo moderno, sujeita a tratamento médico e processos trabalhistas, é um pulo.

DORRIT HARAZIM é jornalista.

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