A Copa do Cu do Mundo

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Quando escrevi, no sábado passado, o artigo “O touro à unha”, falando sobre as camadas de Brasil real que a perspectiva da realização da Copa do Mundo trouxe inesperadamente à tona, com tudo o que o país tem de difícil, eu não esperava que Caetano Veloso escrevesse no domingo um artigo, intitulado “O cu do mundo”, em que falava das entranhas expostas de uma nação onde emergem sinais inquietantes da prática e da admissão pública de linchamentos. Nos dois textos estava em jogo a violência brasileira, ancestral, crônica, sintomática, e seu recrudescimento neste momento conturbado em que ela parece se voltar sobre si para obscurecer mas também para revelar, talvez, sentidos. Naquele mesmo domingo, à noite, um fato sinistro confirmava a junção dos dois temas: um grupo de torcedores do São Paulo trucidava um torcedor solitário do Santos que estava num ponto de ônibus qualquer da cidade. Enquanto isso, como num estranho alinhamento de planetas maléficos e benéficos, eu me deparava, num espetáculo do Teatro Oficina, com uma formulação iluminante do problema — aquela que dá nome a este artigo.

Imagens ligadas à execução do torcedor foram mostradas segunda-feira no “Jornal Nacional”. Uma câmera de prédio capta, à distância, o movimento de dois carros parando próximos a uma esquina, dos quais descem dois grupos evidentemente aliados e armados de instrumentos contundentes. Sorrateiros e ostensivos como quem compartilha um segredo público, covardes conscientes, fingindo mal, entre si, de valentes, dobram a esquina e desaparecem da vista para retornar minutos depois e fugir nos dois carros. Pode-se considerar banalizado, diante da repetição de brigas de torcidas e casos de mortes em estádio e seus entornos, sem falar nos assaltos cotidianos, o assassinato inominável que está fora da cena, e que acontece quase cinematograficamente nos minutos de ausência.

Mais que isso, no entanto, as imagens expõem o grau de gratuidade sórdida a que chega a violência ali documentada (não sei até que ponto as imagens estão permitindo agora a localização e o enquadramento do grupo infame). Não se trata propriamente, aqui, de linchamento: linchamento é um simulacro perverso e inaceitável de julgamento sumário. Briga de torcidas, por sua vez, se faz a quente, na base do corpo a corpo, na panela de pressão do estádio ou da rua. Aqui temos a predação fria, em estado quimicamente puro, digamos assim, que parasita o jogo de futebol para buscar através deste a imagem regressiva de um outro a liquidar. Existe nisso o próprio modelo de uma faccionalização da vida que pode ser reconhecido em muitos campos, e que supõe a massa podre de um enorme ressentimento acumulado.

Ninguém como Zé Celso Martinez Correa (FOTO), por sua vez, tem assumido ao longo das décadas o princípio vivificante do teatro como aquela experiência em ato que dá voz e corpo à doença social, tocando nela. O espetáculo em questão é o quarto da série das “Cacildas!”, que tem como mote o estado de coma de Cacilda Becker, que antecedeu sua morte, em 1969, tomado como um imenso fluxo onírico, à maneira do “Vestido de noiva” de Nelson Rodrigues, através do qual se vai repassando e transfigurando toda a carreira da atriz, e com ela a história do teatro brasileiro. Desigual e fulgurante como sempre, nas suas seis horas de duração, a peça tem passagens sublimes como nunca, sem deixar de ter como alvo de seu mergulho no passado as urgências do presente.

Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo. Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome. Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa “I love Brazil” na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa no Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo. O espetáculo de Zé Celso eleva esse conteúdo a uma outra potência: não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 5 de Março de 2014 11:54

    …A educação é a saída da gente, para eles é bem diferente, povo culto é barra pesada e os políticos brasileiros, não querem perder a mamada…

  2. Edu 5 de Março de 2014 15:33

    Mal escrito e com último parágrafo desnecessário.

  3. Marcos Silva 5 de Março de 2014 23:47

    Depois do Soneto do olho do cu, de Rimbaud e Verlaine, pensei que o cu merecesse maior respeito. é preciso relembrar que não existe organismo humano sem cu?
    Essa indignação prêt-à-porter não significa nada, nada.

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