A coragem de Tezza

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Abram com cuidado, muito cuidado, mas também com muitas esperanças, “Beatriz”, o novo livro de Cristovão Tezza (Record). Poucas ficções nos levam, com tanta lucidez, aos interiores do mundo contemporâneo. Muito poucas desnudam, com arte e ferocidade, a própria literatura — pelo menos tal qual nós hoje a praticamos.

Território da liberdade interior, a literatura se vê envolvida por uma incômoda camada de protocolos sociais, estratégias de marketing, interesses. Não só os livros são atingidos, mas os próprios escritores. Estes vestem, a contragosto, uma espécie de casca, que os protege, mas também expõe aos efeitos da fama e da detração. Aos efeitos de nosso inacreditável presente.

Detenho-me nas explosivas primeiras 28 páginas de “Beatriz”. Elas agrupam em que Tezza, contrariando as superstições que cercam a figura dos escritores, se desnuda diante de seu leitor. E um primeiro relato, “Beatriz e o escritor”, verdadeira devassa na alma enfraquecida, mas fértil, dos escritores contemporâneos.

Salvo exceções nobres, escritores não conseguem viver de seus direitos autorais. Para sobreviver, cultivam uma segunda identidade, a do performer, ou homem que vende a si mesmo.A sociedade do espetáculo os convoca para bienais, feiras, mesasredondas. Ali vende não só sua fala, mas sua imagem.

Não é fácil sustentar o duplo papel. Ele expõe conflitos e feridas, que Tezza encarna em seu escritor-protagonista, Paulo Donetti, o homem que se envolve com a inquieta Beatriz. Há, sim, uma encenação — ainda que, muitas vezes, se trate da encenação da verdade. Quando fala de si, em uma contorção interior, o escritor fala também de um outro — alguém que é mais efeito de sua obra do que expressão de sua sinceridade. Em resumo: mete os pés na cisão de que somos feitos. Expõe-se, mas também se esconde, ainda que sob a máscara do “verdadeiro”. Atua: a literatura se transforma em uma cena e o autor, em ator.

Já em seu prólogo, Tezza desmascara o mito de que “a ficção fala por si”, sob o qual tantos escritores medrosos se escondem. Verdade insuficiente, “porque depois, nas entrevistas, (eles) tentam dizer tudo o que disseram no livro, com aquele ar gaguejante, meio fraudulento, de quem afinal não sabe bem o que escreveu”.

Ocorre que, nesse gaguejar, não há propriamente uma fraude: o que se abre é uma ferida. O Autor (figura tão festejada) não é o sujeito de carne e osso que escreve seu relato. Ao contrário: no simples ato de “sentar para escrever”, a ficção dele já se apossa. O Autor é alguém que o escritor inventa para escrever em seu nome. Entre ele e seu texto, fenda atroz, surge uma terceira figura: o narrador.

A literatura resulta de u m a e x p e r i ê n c i a e m abismo. Uma aventura de que pelo menos quatro personagens participam: o Eu, o Autor, o Narrador e o Protagonista. Terreno instável, tão propício às fraudes, quanto aos mal-entendidos. Nosso tempo — em que, diz Tezza, “ninguém sabe mais exatamente o que é literatura” — não é, porém, um tempo de derrota, mas de potência. É aqui, na ferida enfim rasgada, que a literatura rascunha seu futuro.

Confessa Tezza — o que seus relatos desmentem — que se considera “um escritor de pouca imaginação fabular”. Sofreria da dificuldade de chegar a personagens que “falem por si”. Mas será que tal autonomia é possível no m u n d o e m q u e v i v e mos? “Beatriz e o escritor”, o relato em que o prólogo se desdobra, é a história de um escritor, Paulo Donetti. Em uma mesa-redonda, ele despe sua fantasia de Grande Autor e passa a falar tudo o que pensa. A experiência de purgação, contudo, é também uma experiência de ficção.

Esquece-se Donetti que o Autor que ele apresenta é, ele também, uma invenção. Ficção assinada não por um (ele), mas por vários autores, já que os leitores também são autores dos livros que lêem. Em seu corajoso prólogo, Tezza chama Paulo Donetti de “paranoico”. Mas será? Ao rasgar as entranhas, não estaria ele, ao contrário, acercando-se da lucidez? É verdade: em um mundo fascinado pelas imagens, o desnudamento sincero se parece sempre com a loucura. Não deixa de ser — pelos riscos que inclui. O que não lhe rouba, porém, um segundo caráter ficcional.

Em seu surto — vamos aceitar provisoriamente isso —, Paulo Donetti despe uma performance para vestir outra. Deixa de ser “o escritor que faz pose”, e se torna o “escritor sincero”. O caráter moralizante da transformação é indisfarçável. Em seu monólogo, ele busca uma regra universal. Ele quer Tudo — em um terreno, a literatura, regido pelo Um. Sua avidez pelo Todo esmaga as singularidades, inclusive sua própria.

Destila desprezo pelo leitor, a quem chama de “crédulo”. Reduz seu parceiro de mesa a simples “romancista municipal”. Transforma seu “discurso verdadeiro” não em uma aproximação amorosa da verdade, mas em um ataque feroz a ela. Apesar disso, diz coisas importantes: quando afirma, por exemplo, que “escrever é sempre a expressão de um fracasso”. Em vez de tomar, porém, a aceitação do fracasso como uma condição da ficção, Donetti, o grande moralista, sofre porque os escritores (ele inclusive) não são perfeitos.

Chega a dizer: “se escritores fossem boas pessoas, exerceriam alguma atividade decente”. Seu esforço de aproximação da verdade se torna uma destruição da verdade. Chicoteia-se: “Eu errei o tom porque estava, de fato, acreditando em cada palavra que dizia”. Buscou a grande Verdade, mas continua a ser falso. Em nome da perfeição inexistente, duvida de si e ataca os outros. Julga-se, enfim, uma vítima do “pecado mortal de acreditar em si mesmo”; não entende que esse esforço, apesar de comovente, não é garantia da verdade.

Quando arranca sua máscara de escritor, sob ela surge o semblante de um moralista. Ao inventar Donetti, Tezza rasga a cortina que encobre a solenidade da literatura. Ocorre-me o título de uma peça de teatro em cartaz: “Te quero como queres, me queres como podes”. Ele resume as condições em que não só escritores, mas todos nós vivemos: a insuficiência do possível. A coragem de Tezza não está desmascará-la, mas em aceitá-la.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 14 de dezembro de 2011 10:37

    Muito bom o texto de José Castello, prezado Lívio, porém ainda continuo preferindo as ‘poses’ de Corbière, que em alguns dos poemas dele, aborda essas situações bem melhor do que esses trechos do livro de Tezza e da resenha. De qualquer modo, agora fiquei curioso e, na primeira oportunidade, quero conferir esse novo livro de Cristovão Tezza.

  2. Lívio Oliveira 14 de dezembro de 2011 8:58

    Aqui: algo inteligente sobre o livro de Tezza. Aqui!

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