A craibreira mal assombrada e as coisas do outro mundo

Todas as vezes que um dos filhos ia sair era a mesma recomendação: não voltar com escuro ou chegar antes do anoitecer porque depois que escurecia era perigoso passar no caminho da craibreira mal assombrada.  “Não é invenção, aquele caminho é mal assombrado mesmo”, diziam meu pai, minha mãe e os pais de todos os meninos e meninas do Alto da Alegria, o bairro onde eu morava.

O caminho a que se referiam, para quem vinha da rua para nossa casa, começava depois do calçamento, dobrava no curral do vigário e seguia até o sangradouro da barragem de João Horácio.  Era bem ali, onde a água corria entre pedras, que ficava a craibreira. Era bem ali, diziam os mais velhos, que apareciam as coisas do outro mundo.

A craibreira mal assombrada era um ipê amarelo, árvore frondosa, com uma copa alta e galhos espalhados. Quando março chegava trazendo as chuvas primeiras a árvore ficava viçosa, renovava a folhagem e oferecia sombra aos passantes e banhistas. E quando chegava agosto trazendo o calor e os ventos a craibreira começava a despregar as folhas e depois as flores amarelas, que se espalhavam e coloriam o chão. 

Contudo, por mais bonito e tranquilo que fosse aquele lugar, passar pelo sangradouro da barragem era coisa que só se devia fazer durante o dia, de noite jamais. Mesmo que fosse noite de lua cheia.

O meu pai dizia que muitas coisas estranhas já tinham acontecido naquele caminho, ao pé daquela árvore. Coisas que só de falar dava arrepios e que já botara muita gente para correr: homens, mulheres, e mesmo as pessoas mais velhas ou mais corajosas, acostumadas com tudo. Como Sebastião Capão, um compadre seu que, certa vez, ao passar embaixo da árvore ouvira aquela voz, aquele lamento…

Ele dissera que não entendeu o que dizia a voz, era algo incompreensível mas, também, era assustador. Ou não seria uma voz, mas um longo gemido? Não importa, seu compadre ficara ficara com tanto medo que fazia confusão quando contava a história, dizendo que correra até chegar em casa. Então, continuava meu pai, Sebastião, se tremendo todo, contou para a mulher o ocorrido e a mesma respondeu já ter ouvido falar do mal-assombro. Até ensinou o que o marido devia fazer: 

– Você tem que responder esses chamados Bastião. É alma penada pedindo reza. 

– Eu perdi a fala, mulher.

– Mas tem que falar: – Quem pode mais do que Deus? Se for alma penada, ela pára de gemer e responde: – Só Deus e mais ninguém. É assim! Aí você pergunta do que ela precisa. 

– E se for anjo – continuava a mulher – quando você fizer a pergunta, ele chora. 

Depois explicava que além de almas, anjos eram outras presenças naquelas paragens, a área ao redor da craibreira. 

Maria de Sebastião aprendera com seus pais, na infância, o que eles já tinham ouvido de seus avós, a descrição de todo tipo de assombração. E dependendo do lugar e de quem a via, a assombração se manifestava de diferentes maneiras: alma penada, anjo azul ou aquela pessoa toda de branco, andando acima do chão.

Se era alma penada, gemia; porque no outro mundo estava a precisar de reza. Então era chegar em casa e recitar ao menos um Pai Nosso e uma Ave Maria. E pra quem não sabia ela dizia que podia rezar o Bendito, aquela oração pequena da hora do almoço, que servia do mesmo jeito.

E, se por acaso, a pessoa ouvisse um choro de criança ou alguma mancha azulada a mulher explicava que era anjo a precisar de luz. Talvez não tivesse sido batizado, talvez morrera pagão. Então era acender as velas às seis horas da noite ou às seis da manhã, que são as horas em que as crianças adormecem ou despertam. 

Na próxima ida à bodega Sebastião tinha que lembrar de comprar as velas, porque isso não é o tipo de coisa que se tenha em casa por necessidade. Naquelas paragens, onde morávamos, a lamparina e a caixa de fósforo é o que ficava do lado da cama ou da rede, para atender a precisão. 

E ninguém duvidava de uma mulher como comadre Maria ou de um homem como compadre Sebastião, dizia meu pai. E nenhum dos meninos lá de casa ou das outras casas do Alto da Alegria se atrevia a andar pelos lados da craibreira depois das seis horas da noite. Mesmo nunca tendo visto nada, nem de dia e nem de noite, todos lembrávamos logo das histórias que nossos pais e os mais velhos contavam, como a história de Sebastião Capão. 

Então, todos rezávamos para que tudo ficasse como estava: nós em nossas casas e pros lados da caibreira mal assombrada as coisas do outro mundo.

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