A crise de 2008, contada por Henry Paulson

Por Elio Gaspari
Folha de São Paulo

A ekipekonômica de Bush entrou na crise perdida como cego em tiroteio, até que viu a Bolsa da Viúva

QUANDO UMA economia vai bem, quem quer discutir maus números estruturais, como um setor público que come 37% do PIB e drena a capacidade de investimento do país, parece ave de mau agouro. Pior ainda se essa pessoa teme que uma onda de protecionismo ou uma contração da economia chinesa venham a travar as exportações brasileiras. Falar do risco de uma possível inflação americana que jogue os juros mundiais para cima passa a ser verdadeiro mau olhado, coisa antipatriótica num país que voltou a sorrir.

Os profissionais do otimismo do mercado e dos palácios ganharam um presente. É o livro com as memórias da crise de 2008, escrito pelo então secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, um sacerdote da banca (comandou a casa Goldman Sachs de 1998 a 2007) e apóstolo do mercado. Em “On the Brink”, ou “Na Beira do Precipício”), ele mostra como os sábios de Washington e os banqueiros de Nova York chegaram a um passo da explosão da economia mundial sem saber o que estava acontecendo, muito menos o que deveriam fazer. Salvaram-se quando tiveram uma ideia herética: ir buscar o remédio na Bolsa da Viúva.

Paulson comove pela honestidade com que conta seus próprios erros. Na primeira reunião que teve com Bush e sua equipe, previu a possibilidade de uma crise cíclica (mantra astrológico dos economistas) e deixou de mencionar os riscos das hipotecas imobiliárias. De suas memórias emerge um homem comum, religioso, frugal e apaixonado por uma mulher excepcional, despretensioso o suficiente para revelar que durante a crise teve oito acessos de vômito seco.

As lembranças do homem público mostram que a ekipekonômica de Bush esteva mais perdida que cego em tiroteio. Quando salvaram a Bear Sterns, não sabiam como resgatar a Lehman Brothers. Quando quebrou a Lehman, não tinham ideia do que fazer com a seguradora AIG. Como se sabe, a casa Morgan Stanley esteve a dez dias da quebra, e a própria Goldman Sachs arriscava ir à garra antes do fim de 2008. Tiraram do chapéu uma sopa de planos e de letras: Hera, Hope, PDCF, Talf, TLGP. O que deu certo mesmo foi a Tarp, codinome da Bolsa da Viúva.

Paulson mostra Chuck Prince, o principal executivo do Citi, pedindo a intervenção do governo para conter a farra papeleira em reuniões fechadas. Em público, ele sustentava que o mercado devia dançar enquanto houvesse orquestra tocando. Surpresa: o experiente John McCain, candidato republicano à Presidência, revelou-se um irresponsável. O inexperiente Barack Obama, um craque, ainda que ingrato.

Para quem gosta de teorias conspiratórias, Paulson diz duas vezes que só durante as crises é possível tomar medidas audaciosas. Apesar dessa frase ser uma platitude, leva água para a teoria segundo a qual a turma que não sabia de nada sabia de tudo e deixou a Lehman quebrar para dar um choque na opinião pública mundial. Para quem quer mais conspiração, quando a crise amainou, a Goldman Sachs tornou-se a maior casa de Wall Street.

Graça, Henry Paulson não tem, mas gostou de contar que, durante uma reunião do G20, em Washington, o presidente Bush entrou na sala, disse algumas palavras e ia ouvir o ministro da Fazenda brasileiro, mas Guido Mantega informou que falaria na sua língua nativa (o doutor não fala inglês). Bush aliviou-o: “Vá em frente, eu mal falo a minha”.

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