A crise nos jornais impressos

Estava escrevendo algo sobre o fim do Diário de Natal no formato impresso, mas seu texto, Tácito, o artigo de Everton e o de Di Franco, que postei mais abaixo, resumem quase tudo o que pretendia dizer.

A internet matou e não matou o DN. O jornal, já há um bom tempo, não tinha mais relevância alguma: decisões empresariais e editoriais equivocadas, o saco de gatos que os Associados se tornaram ao longo das três últimas décadas, a queda de faturamento e de circulação… Vários fatores que fechariam qualquer empresa de comunicação confluíram para o que ocorreu e o atual estado das coisas apenas precipitou o que parecia – e foi – inevitável.

O fato é que a massificação da internet é uma realidade, no Brasil, há pelo menos uma década – mas é uma tendência que se mostrava irreversível há mais tempo de que isso, chuto uns 20 anos, bastaria alguém mais antenado ter colocado o ouvido no chão e prestado atenção.

Engraçado que, entre os impressos, o Diário foi justamente o primeiro a se preocupar em ter uma versão digital, implantada pelo amigo Wagner Costa lá no comecinho da primeira década deste século. Porém, como tudo que a empresa fez de lá pra cá, também mal conduzido editorialmente.

A questão é que os jornais – como instituição, não como suporte – ainda estão procurando onde se encaixar nesse contexto: ou se mantém presos ao mesmo esquema de produção de notícias e aí migram definitivamente para o ambiente digital no tal formato de ‘portal’, ou se transformam em outro tipo de veículo, seja em papel ou em telas de cristal líquido, cuja filosofia esteja voltada para o cultivo do hábito da leitura (seja como for que essa leitura esteja configurada num tempo futuro, empregando os recursos audiovisuais/sensoriais disponíveis) e de ponto de convergência de uma esfera pública em mutação.

O fato é que, da mesma forma que o DN, não vejo nenhum outro veículo tradicional da cidade despertando para essa necessidade. Apenas há alguns anos, por exemplo, as rádios FMs locais perceberam o próprio potencial jornalístico – e o fazem ainda de maneira muito tímida e conservadora.

Entre os jornais locais, só o Novo Jornal apresenta-se, aqui e acolá, preocupado em preencher essa lacuna. Ainda assim, em várias edições, o jornal só é legível até a quinta página do primeiro caderno – seja para concordar ou não com as ideias e propostas que ele apresenta. Os outros, coitados, mal conseguem chamar atenção à leitura das manchetes – se bem que, nesse quesito, gasta-se uma quantidade razoável de tempo a mais nos títulos intermináveis do Jornal de Hoje.

Uma dúvida para qual não vejo resposta: para onde diabos está indo o volume considerável de publicidade mobilizado pelas mídias impressas? Para a tevê? Para o rádio? Porque na internet ainda não chegou, pelo menos não por aqui.

Enquanto isso, há um problema estrutural que pega o campo profissional desprevenido e atônito e para o qual, mais uma vez, ninguém vem se preparando a contento. Trata-se do perfil profissional que se deve exigir do jornalista num cenário como esse. De minha parte, por exemplo, quando percebi a onda quebrando, tratei de cair fora, justamente por saber que, bem, não saberia o que fazer.

E é um lance bem simples: aquele papo sobre o fim do emprego vem se instalando a galope em nosso ambiente profissional. Além disso, quem trabalha com jornalismo parece-me fadado a precisar dominar diversas habilidades diferentes, muito além das técnicas básicas de apuração e reportagem ou do correto estilo de escrita. Decerto que aqueles que forem excepcionais escritores terão seu lugar ao sol, mas convenhamos que não se trata propriamente de um ambiente coalhado de gênios das letras.

Aliado a esses fatores, o declínio do emprego formal exige de quem trabalha na área uma preparação no tal do ‘empreendedorismo’ – mas não vejo, por exemplo, as universidades de olho nisso. Na verdade, nem inglês o cara aprende na UFRN, imagine essa ruma de coisas. E, enquanto isso, os sindicatos – ah, esses poços de corporativismo – se apegam à quixotesca batalha pela obrigatoriedade do diploma.

É bronca.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. carlos de souza 4 de Outubro de 2012 10:23

    acho perfeita a análise. mas uma coisa ainda me incomoda. o diploma não precisa ser obrigatório. porém não acredito no profissional que não passa pela universidade, seja curso de comunicação social ou floricultura, e seja capaz de dominar as técnicas dessa profissão tão ingrata que esta nossa. é….

  2. Alex de Souza 4 de Outubro de 2012 10:55

    sim, também acho formação essencial para o exercício de quase toda profissão, inclusive a nossa, agora obrigatoriedade por lei, não.

  3. Anchieta Rolim 4 de Outubro de 2012 11:35

    Beleza de texto Alex. Concordo também com seu comentário abaixo. Em minha opinião a obrigatoriedade e a exclusividade são para pessoas que se privam da própria liberdade.

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