A crise visita a cultura

Por Vincent Katz
FSP

DIÁRIO DE NOVA YORK – O MAPA DA CULTURA

Notícias pouco alvissareiras do verão
tradução CLARA ALLAIN

NOS ANOS 1970, quando Nova York estava à beira da falência, a cultura underground floresceu -foi a era em que artistas e músicos viviam ilegalmente em lofts do SoHo, o período que viu o punk nascer, a época das exposições de jovens artistas nas fachadas de galerias pequenas do Lower East Side. Mais tarde, na década de 1980, a homogeneidade tomou conta, e tudo foi reformado e aburguesado.

Allen Ginsberg (1926-97) costumava dizer que, quanto mais repressão há, mais vultosas são as reações culturais. Acaba de me ocorrer que a crise atual pode ser um indício claro do desabamento do período mais recente de homogeneidade e consumo conspícuo.

A recessão econômica afetou fortemente um traço distintivo de Nova York: o acesso gratuito à alta cultura. A Metropolitan Opera cancelou os concertos nos parques em 2008, e neste ano, pela primeira vez desde 65, um dos programas prediletos do verão -os recitais ao ar livre da New York Philharmonic- não vai acontecer.

Alan Gilbert, diretor musical da orquestra, jura que as apresentações serão retomadas em 2012… Como se não bastasse, a New York City Opera, que divide o Lincoln Center com a Metropolitan, a filarmônica e o New York City Ballet, informou que não voltará ao complexo, reformado há pouco, porque não tem como pagar o aluguel.

Se as grandes naus culturais estão desacelerando suas operações, talvez seja o momento de olharmos em outras direções para medir o pulso da cultura. Manhattan se tornou um centro praticamente inviável para artistas jovens. Eles estão se mudando para Berlim, Los Angeles, qualquer lugar. Mas isso pode mudar se a economia sofrer um novo baque.

O fato é que a vida cultural nova-iorquina permanece vibrante; está apenas mais espalhada por distritos diferentes. As opções são muitas: há desde o Madison Square Music e o Celebrate Brooklyn! até o Shakespeare in the Parking Lot (Shakespeare no estacionamento) e o The Truck Project (teatro em caminhões).

QUIXOTE MEXICANO

Francis Alÿs está vivendo um grande momento neste verão, com uma exposição que se desdobrou entre o MoMA (porção já encerrada) e o PS1 (até 12/9; ps1.org). Ele nasceu em Antuérpia, na Bélgica, em 1959, vive na Cidade do México há 25 anos, e boa parte de sua produção trata das realidades políticas mexicanas. Seus trabalhos costumam assumir a forma de intervenções físicas ou ações, na tradição dos situacionistas e de Joseph Beuys (1921-86). Como eles, Alÿs acredita que transformações sociais podem ser instigadas por esforços hercúleos -e quixotescos.

Em uma de suas obras, um Fusca não consegue subir um morro em uma região próxima à fronteira entre EUA e México; em vez disso, como Sísifo, escala a colina constantemente, apenas para rolar para baixo e então tentar de novo.

Para um trabalho criado para a Bienal de Lima em 2002, Alÿs recrutou um exército de voluntários armados com pás; eles foram documentados deslocando uma gigantesca duna de areia para um lugar distante apenas alguns centímetros. Como boa parte da arte atual, a de Alÿs nasce fora de galerias e museus, sendo trazida de volta ao circuito tradicional por registros documentais.

O ROCK DE PATTI

Patti Smith foi poeta antes de ser roqueira; ela continua a fazer experimentos ativos na literatura e nas artes visuais, além da música. Na introdução a seu livro “Early Work” (primeiros trabalhos), ela escreveu que os anos 1970 foram a época em que todos seus amigos estavam vivos. Recentemente, prestou homenagens comoventes a dois ex-namorados: Jim Carroll (1949-2009), poeta e autor de “The Basketball Diaries” (adaptado para o cinema como “Diário de um Adolescente”), e o fotógrafo Robert Mapplethorpe (1946-89), lembrado na biografia “Só Garotos”.

Cada vez que discursa ou canta (o que faz com frequência em Nova York), Smith consegue regressar à fonte emocional de seu trabalho.

Neste verão, ela mostrou que ainda gosta de fazer rock barulhento, apresentando-se com sua banda no festival River to River, quando tocou alguns sucessos do início da carreira, como “Pissing in a River”, além de “Helpless”, de Neil Young, e da ode de Carroll aos mortos da cidade, “People who Died”.

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