A crítica como ficção

Atriz Audrey Hepburn

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Parto, logo, de uma pergunta incômoda e até perturbadora: será a crítica literária uma forma de ficção? Decido testar essa hipótese, por mais estranha que ela seja. Críticos _ mesmo os mais dogmáticos mestres da universidade _ partem, sempre, de uma relação subjetiva com os livros. Apaixonam-se por esse ou aquele romance, por razões absolutamente íntimas e singulares. Transformam essa paixão, depois, em um objeto de estudos. Submetem, então, a literatura à triagem severa das teorias, ao rigor dos conceitos, aos grilhões das classificações e das escolas. Espremem, espremem, lutando para chegar ao osso da escrita _ e, enfim, arrancando apenas alguns nacos, escrevem sua crítica literária.

Nesse esforço para chegar ao centro das ficções, críticos, sem desejar isso, destilam também o sumo de suas paixões literárias. Todo livro _ desde aquele que você lê na praia, até aquele que você elege como objeto de uma dissertação acadêmica _ traz, em seu interior, os vestígios de uma paixão. Lemos, sempre, “intimamente”. Uma ficção é o resultado do confronto direto entre as palavras registradas em um livro e as emoções, memórias, fantasias, inquietações do Sujeito que lê. Essa luta se trava não no papel, mas na mente de cada leitor. Portanto: em um terreno de radical intimidade.

Todo livro se passa, antes de tudo, na mente (caótica, arbitrária, emocionada) de um leitor singular. Sim: UM leitor, este, ou aquele leitor, e não vários leitores. Mesmo quando lidos em voz alta, em círculos de leitura, é na mente de cada um dos leitores, de um modo próprio e inconfundível, que uma ficção se constitui. Livros não existem, dizia Augusto Roa Bastos: cada leitor lê um livro diferente, ainda que tenha nas mãos o mesmo livro. A ficção se constitui, portanto, no confronto entre um texto e as imagens mentais (fantasias, memórias, sonhos – ficções!) que se guardam no interior de quem lê.

Essa leitura original e singular _ leitura apaixonada _ é o ponto de partida de todas as outras leituras secundárias que se produzem de um livro. A partir dela, os críticos desenvolvem suas leituras de segunda ordem: leituras acadêmicas, leituras críticas, leituras especilaizadas, teses e dissertações. Essa leitura original _ ficção (escrita) contra ficção (mental) _ é o ponto de partida de toda leitura. Mesmo da mais ortodoxa e dogmática leitura crítica.

Sob a capa escura e severa dos conceitos, das teorias, da objetividade, da “ciência”, o crítico literário luta para descartar, ou pelo menos para esconder, a leitura original que marcou seu primeiro contato com o livro que examina. Combate como se ela fosse uma ferida indigna, um laço despudorado, uma mancha de sangue. Contudo, essa mancha persiste e contamina _ de modo submerso, mas forte _ seus escritos. É ela que lhes empresta não só a potência, mas o sentido de verdade.

Na mais severa e fria crítica literária se guardam, portanto _ como em um lençol ao amanhecer _, as nódoas de uma paixão. Na leitura mais autorizada, estão, ainda assim, as marcas delicadas de uma aventura pessoal. No trato mais científico da literatura, encontramos sempre as nuances de uma subjetividade e de uma “maneira de ler”. Eis onde crítica e ficção se encontram: no mesmo espaço íntimo e secreto que define um leitor. UM leitor _ é bom sempre acentuar, usando o singular.

Se consideramos que todo Sujeito é, inevitavelmente, fruto de um relato e de uma ficção interior. Se levarmos em conta que toda leitura vem sempre contaminada por este Sujeito que é, ele também, falsificação e invenção. Se ousarmos enfrentar a idéia de que toda leitura é, necessariamente, o resultado de uma fantasia pessoal. Bem: aceintando isso, podemos dizer, sim, que a crítica literária é um gênero literário. Mais ainda: que a crítica literária é uma espécie disfarçada, envergonhada, arrogante, de ficção.

Um Sujeito (fantasioso, relativo, singular) se esconde, todo o tempo, no peito do mais severo dos críticos. Quando alguém pratica a crítica literária, não o alija, não o mata _ ele continua ali. Você pode enxotá-lo, desprezá-lo, não lhe dá ouvidos, mas esse Sujeito insiste em dar as cartas. Não as cartas mais visíveis e bem arrumadas dos conceitos, teses e avaliações. Mas aquelas cartas mais secretas que nos levam, por razões obscuras e indecifráveis, e no entanto definitivas, a amar, ou a odiar, um livro.

Isso está presente em qualquer avaliação crítica, por mais “neutra” que ela se pretenda. A sombra do Sujeito persiste ali onde, cheio de vaidade e pretensão, e simulando frieza e perícia, ele acredita que porta a voz de uma ciência. Um olhar singular, uma certa perspectiva, um ponto de vista íntimo _ tudo isso está presente na experiência literária. Por isso, agora, sinto mais coragem para afirmar, embora ainda cheio de medo: a crítica literária é um gênero de ficção.

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