A crítica de mal com a literatura

Por Sérgio Rodrigues
O Globo

O interessante artigo de Flora Süssekind publicado na última edição do Prosa & Verso, sob o título “A crítica como papel de bala”, investe contra o “conservadorismo” e o “beletrismo” que sua autora julga hegemônicos no atual cenário da crítica literária brasileira — ou talvez devêssemos chamá-lo de ambiente de recepção de livros, pois o pensamento crítico anda mesmo um tanto anêmico. Esse ambiente, argumenta ela, vive um momento de certa efervescência com seus festivais, prêmios, oficinas, blogs e resenhas breves, eminentemente jornalísticas, mas falta-lhe o tutano de um pensamento articulado e independente que resgate a “dimensão social” da literatura. O curioso é que, num caso clássico de ponto cego, Süssekind parece sincera ao deixar de perceber que o grande elemento faltante nesse ambiente, a crítica universitária de fôlego que ela própria representa, retirou-se do debate porque quis.

Como bom exemplo do pensamento literário hoje dominante na universidade, inclusive no estilo árido e calibrado para afugentar leigos, Süssekind, reconheça-se logo, está de mal com a literatura contemporânea. Brigou com ela. Os exemplos de novidade estética que aplaude em seu artigo incluem, ao lado do poeta Carlito Azevedo e seu notável “Monodrama” (7 Letras), uma diretora de teatro, um músico e um artista plástico, expondo com candura essa malquerença ao propor quase como uma via de mão única, de fora para dentro das letras, o trânsito de fronteira entre linguagens que é sem dúvida o território artisticamente mais fértil do mundo contemporâneo. É uma pena que a autora de estudos literários clássicos — embora difíceis de ler — como “Cinematógrafo de letras” e “O Brasil não é longe daqui” (Companhia das Letras) encare de forma tão pouco generosa a tarefa de separar o joio do trigo na literatura brasileira de hoje.

A birra não é só dela. Embora mais sofisticada que a maioria de seus pares, Süssekind é produto de um meio que, há pelo menos quatro décadas, vem assistindo à progressiva hegemonia dos chamados estudos culturais. Parte do tsunami politicamente correto, tal predominância transformou em truísmo a ideia de que a literatura como a conhecemos é apenas um instrumento de dominação de classe. Em movimento análogo ao de certas feministas, que viram no próprio ato sexual um emblema de invasão e revoltaram-se contra a anatomia, o passo seguinte foi condenar a literatura e seus circuitos internos — gêneros, técnicas, modos de aferição de valor e, claro, os famigerados autores canônicos — como um complô ancestral de “machos heterossexuais brancos”. De tal ponto de vista, afirmar a especificidade do literário, do jogo que desde Homero gerações de escribas se dedicam a levar adiante a partir dos lances precedentes — um jogo que parece longe de terminar — é o suficiente para embasar denúncias de um artifício “demarcatório” e, claro, conservador.

Beletrista, ofensa suprema, seria aquele que, no atarefado comércio que a esfera literária sempre estabeleceu com outros saberes, saindo mais forte das múltiplas contaminações, reafirma no fim das contas o que a literatura tem de irredutível à política, à antropologia, à psicanálise ou a qualquer outro discurso. Eis o mérito de Wilson Martins, cujos elogios fúnebres, inclusive uma notinha de minha autoria, foram o estopim do artigo de Süssekind: o homem era careta demais para caber no figurino de paradigma da crítica, concordo, mas nunca desistiu do que há de propriamente literário na literatura. Se ao morrer andou sendo saudado por aí como um gigante, em evidente exagero, isso parece se dever menos à sua estatura do que ao cenário liliputiano construído ao seu redor.

Experimente-se, no raciocínio de Süssekind, trocar a ideia de conservadorismo pela de resistência, sutilmente distinta, e teremos um quadro mais condizente com a realidade. A literatura que se faz hoje — e seria um despautério dizer que vivemos no Brasil uma época de ouro, mas o momento é de febril e promissora atividade — tem sido obrigada a lidar com um novo inimigo, que veio se somar àquela velha lista de predadores na qual se incluem desde uma população pouco letrada até a brutal dificuldade intrínseca de produzir algo que preste. Grande parte da universidade, em geral com as ferramentas da indiferença e do silêncio, tem jogado contra.

No lugar do discurso informado que tenta arquitetar o novo levando em conta a tradição, visto como comprometido na raiz, essa crítica passou a valorizar dois novos modelos textuais para a literatura contemporânea, ambos virginais. De um lado, em rendição incondicional à antropologia, o das “vozes” dos despossuídos literários: mulheres, negros, gays, favelados. Do outro, pelo qual parece se inclinar Süssekind, o da “transgressão” que “rompe com tudo o que está aí”, em geral sem ter lido uma fração minimamente aceitável de “tudo o que está aí” — e aqui a rendição do crítico se dá frente ao mito de corte religioso da pureza refundadora. Escrever “mal”, ser incapaz de construir um personagem, reinventar a pólvora modernista, aborrecer o leitor desavisado, tudo isso é considerado preferível a ser mais um a perpetuar aquele jogo ideológico chamado literatura.

Trata-se de uma tomada de partido estético que, a princípio, é tão respeitável quanto qualquer outra. Resta ver aonde nos conduz. A trama se adensa — e neste ponto cabe apontar um traço de desespero no artigo de Süssekind, facilmente enquadrável na categoria de “disputa por posições” que ela busca denunciar — quando se leva em conta que as novidades mais instigantes dos últimos anos no campo das letras não partiram de “despossuídos” nem de “refundadores”, mas de escritores imersos até o último fio de cabelo em cultura literária, como Roberto Bolaño, W.G. Sebald, Enrique Vila-Matas, Pierre Michon e David Foster Wallace. Conservadores ou heróis da resistência? E como explicar uma coisa dessas?

Simples: a literatura, condenada à morte por tantos catedráticos, não morreu. Continua sendo escrita e lida, boa e ruim, mais ou menos experimental, hibridizando-se com o ensaio, o jornalismo e outros discursos, exibindo alguns rasgos brilhantes de novidade em meio às doses costumeiras de mesmice. Sua velha aura de prestígio e nobreza foi para o vinagre no mundo inteiro, paciência, mas o leitor, esquecido leitor, não a desertou de todo. Bem ou mal, ela tem tido força suficiente para movimentar a tal roda de festivais, prêmios, blogs, oficinas etc. que Süssekind menospreza. Só o que não vem aparecendo com muita frequência na arena, lamentavelmente, é a boa crítica universitária, vítima de escolhas que, conscientes ou não, ameaçam encurralá-la num beco sem saída de autismo e irrelevância. Está fazendo falta.

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