A cura

Por Demétrio Diniz

Os transtornos de Geraldo, que o médico diagnosticou como angústia, talvez viessem de muito longe. Do tempo em que se enchia de medo diante da palmatória do professor Silvino, lembrado pelo seu carrancismo e pelas duas filhas, que faziam as vezes de manicure para que os namorados gastassem as tardes com as mãos em suas coxas.

Um dia o professor ameaçou o mais afoito e gabola deles na frente de uns velhos que jogavam gamão na farmácia: daria um murro no alto da sinagoga em quem ousasse introduzir o membro nas coxas de Naldeci. Para segurar o riso dos parceiros um dos anciãos trapaceou com os bozós e jogou na mesa a surpresa de duas senas. Sabiam que o estrago já tinha sido feito.

Especulou-se também que as esquisitices de Geraldo tivessem matriz nas surras de cinturão do pai, quase sempre acompanhadas de um banho com água de sal e uma prisão caseira de trinta dias, além da proibição expressa de não chegar à janela. A prisão era decretada por escrito, o grafite feito com carvão preto nas paredes pintadas de amarelo-ovo.

Uma dessas surras, e ele já era um rapazote, apanhou porque no meio de um baile, numa casa de família, e cuspindo conhaque, pediu de uma vez só a mão e a xiranha da moça com quem dançava. Brigou com a dona da casa, que de repente apareceu à sua frente com uma trave de janela, com o sargento que quis prendê-lo na hora, e passou duas semanas escondido nas moitas, tratando com raiz de mato uma febre sem explicação.

Desses e outros motivos parece que o mais marcante e influente foi mesmo o susto na Serrota. Quando era criança, um papa-figo por pouco não o levou preso dentro de um saco. Tinham ido ele e o irmão menor buscar uma rês no pasto. Espernearam, gritaram tanto que o velho morfético, magro e amarelo da cor de barro, os deixou escapar, zarpando os dois pelo capim alto. O infeliz queria se curar da lepra comendo o fígado dos meninos.

Daí por diante andou aéreo, deslocando o pensamento para o prazer que podiam lhe proporcionar as mulheres, porque àquela altura fantasiar era melhor negócio que ficar nas recordações. Imaginava-as nuas, trazia-as com a mente de muito longe, do passado e do futuro, recebendo-as e delas se despedindo, em casa, na escola ou onde fosse possível. Queria porque queria se transformar numa mosca para entrar na alcova das moças virgens, vê-las dormindo, os peitos e o sexo arfando lentamente.

Com algum tempo não era mais só a angústia a incomodá-lo. Também uma ponta de remorso por conta do caráter que entortava sem ele saber como ou por quê, do mesmo jeito que entortavam ao roçar dos dedos as colheres de um certo prestidigitador judeu.

Fora proibido de entrar no ¨Chantecler¨ e no ¨Moulin Rouge¨, dois cabarés famosos que ficavam na entrada do Recife Velho, e cujas luzes à noite amarelavam as águas ainda não enxofradas do Capibaribe. Ganhando um salário de professor, pequeno e com atraso de meses, que mal dava para pagar a pensão e a faculdade, adquirira o hábito nefasto de ludibriar as mulheres que faziam a festa daquele largo de soldados, marinheiros e estudantes.

O resto do pouco dinheiro gastava no bar Paratodos, consumido em doses de ¨cuba libre¨, um olho nas brigas de marinheiro, a navalha deslizando na pala da gola, e o outro conferindo as louras de cabelo oxigenado que entravam por uma porta e saíam por outra.

Encerrava a noite num quartinho de tabique, aproveitando a ocasião em que as mulheres se lavavam agachadas na bacia de alumínio, para descer, sem pagar, os cinco andares que rangiam e ameaçavam ruir de velhice. Pulava os degraus de três em três, lépido como um guri, mas não escapava da praga que era sempre a mesma, a maldição ecoando nas escadas: ¨Vai nascer um câncer na cabeça do pau, filho da puta¨. Algumas vezes esquecia no criado-mudo os óculos de grau, e tornava a subir ao quarto, arfante e humilhado, a cara lavada. Dessa vez era o zunido de um tamanco ressoando veloz nos seus ouvidos.

Alguma coisa de diferente, porém, e alvissareira, aconteceu na primeira tarde em que Dora, com farda de colegial, passou na porta de seu escritório, onde nenhum cliente havia aparecido desde a data da instalação. Passou, sorriu, e noutras tardes foi deixando sobre a mesa de jacarandá versos de mocinha, banais e sem imaginação.

Tal doçura para um homem deserto de afagos deixou-o indiferente à má poesia. Que vantagem levaria um verso, ainda que fosse perfeito e tivesse o impacto da colisão de meteoros – pensava – se comparado à beleza de Dora, a penugem rala entre as sobrancelhas, uma covinha no queixo e o riso largo e despreocupado de quem nunca quis saber da morte?

Dora tinha só dezoito anos quando Geraldo se apaixonou por ela. E como se dá com os apaixonados, ficaram esquecidos ou relegados a segundo plano os temores e problemas que empestavam o seu cotidiano. Tirou os pés do chão e deixou a cabeça repousar na maciez das nuvens.

A fase turva do amor não o privou, contudo, de alguma lucidez. Viu como eram idiotas aquelas consultas ao doutor Gil Brás, o psiquiatra classificando e dando rótulo à doença, mais parecendo um detetive escondido por trás de um abajur na sala mal iluminada: ¨Não entendo por que você não melhora¨. Para completar o desagrado, uma enxurrada de calmantes e as injeções de ¨Pacatal¨ que provocavam nele, na volta de ônibus para casa, um tremor de malária.

Num gesto impulsivo, como era de seu temperamento, quebrou as injeções uma por uma e atirou no quintal a bacia de tranquilizantes, que por serem amarelos e parecidos com milho, deram às galinhas a maravilha de um sono de três dias.

Na manhã seguinte levou Dora ao zoológico de Dois Irmãos, onde à época havia pequenas ilhas de mato. Numa delas, com palavras ternas, comuns ao homem somente nos alentos da paixão, a desvirginou sobre uma camada de folhas de eucalipto.

Geraldo, nas alvas do amor, se deu conta de como é bom viver sem tormentos, e lembrou-se da lição de Schopenhauer que lhe repassara dias antes seu colega Brito Rabelo: a felicidade nada mais é que a suspensão da angústia.

Dora, por sua vez, continuou simples como era, vendendo perfumes a domicílio com a mesma graça com que deixava no escritório seus versos de rima gratuita. Mas a sua poesia teve sorte e melhorou. À noite, no silêncio do bairro tranquilo de Casa Amarela, lembrava-se enlevada de Geraldo e do cheiro do eucalipto, e escreveu que naquele dia ¨as folhas aromatizavam a tarde¨.

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